A angustiante sensação de não existir

Compartilhe este texto:


Por alguns longos minutos vivi a incrível sensação de não existir. Tudo começou quando, morando em Gramado, fui na agência da Caixa para receber aquela humilhante aposentadoria que meus mais de 30 anos de trabalho fizeram jus. O terminal eletrônico da Caixa tem aquela aba na parte superior, onde para não bater a cabeça você deve ficar sempre curvado. O decorador que bolou aquela engenhoca deve pensar que todos os brasileiros têm no máximo 1,60 de altura.O terminal, antes de liberar teu dinheiro, sempre tem muitas perguntas para fazer (código cheio de letras e números, nome, cpf, etc) o que te obriga, como no meu caso, a enfiar os óculos na ponta do nariz. É preciso, também inserir aquele cartão de plástico que a Caixa te deu, mas que pede que guardes como um tesouro. Então, saco o cartão de dentro da carteira, que hoje uso apenas para guardar todos aqueles documentos que são exigidos para permitir que se possa viver na sociedade de consumo. No visor do caixa eletrônico aparece o aviso para não pedir auxilio a ninguém. Cautela, mil ladrões estão observando meus gestos. Nesse momento fatídico, coloco a carteira sobre uma aba lateral do caixa eletrônico, introduzo o cartão magnético de plástico e depois de inserir aquele código idiota, espero que finalmente ele me libere o dinheiro que o governo me dá todos os meses pelos serviços que prestei a varias empresas capitalistas durante décadas. Mas, aí começa o drama. O visor me avisa que não pode autorizar o saque porque o valor excede meu limite diário. Esqueci que nesse mês estou recebendo, além daquele mísero provento (chamam assim, porque deve ser um dinheiro que o vento leva), um pequeno acréscimo com o tal empréstimo consignado. Então, preciso ir diretamente no caixa normal. Antes disso devo tirar uma senha de outro instrumento eletrônico, que me faz novas perguntas para só então permitir minha entrada naquele recinto protegido por um sistema de portas controladas magneticamente e guardas armados. Finalmente consigo entrar e durante meia hora espero numa fila, até chegar ao caixa e finalmente receber o que é meu por direito. Nesse momento, me dou conta que tenho na mão apenas o cartão magnético da Caixa. E a carteira com os outros documentos? Certamente ficou naquela aba do caixa eletrônico. Volto rápido. Nada. Pergunto à simpática e distraída recepcionista. Nada. Ela me dá um conselho, depois que respondendo a sua pergunta sobre onde tinha estado antes de chegar na Caixa, digo que passei no Correio. Deve ter ficado lá. Saio quase correndo rumo ao Correio, ainda com o cartão da Caixa na mão. No caminho, penso – que idiota que sou – só estou com o cartão na mão porque o tirei da carteira na malfadada operação do caixa eletrônico – mesmo assim prossigo.Obviamente, não ficara no Correio. Volto para a Caixa. Nesses minutos todos, sou alguém que não existe.
Vivo, sem poder provar que existo. O passe para andar de graça de ônibus deve ser a perda mais inútil. Ele só serve para Porto Alegre e agora vivo em Gramado. A carteira de motorista, que me custou um par de óculos novos para conquistá-la, também não importa muito porque não tenho carro aqui em Gramado.. Mas a ausência do RG me torna um vivo improvável. O cartão de crédito perdido vai impedir que continue consumindo como se dinheiro tivesse. E o bilhete da mega sena, que esta vez estaria premiado, vai tornar outra pessoa milionária e me condena à pobreza definitiva. Como um morto vivo chego novamente na Caixa. Antes que fale, uma outra recepcionista que não tinha percebido na primeira vez, me responde a pergunta com tudo aquilo que eu queria ouvir.
-E esta?
Era minha carteira. Estou vivo novamente.


Compartilhe este texto:

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *