Sou politicamente incorreto

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Depois de uma certa fase na vida, não devemos mais esconder nossas posições. Precisamos sair do armário. É o que estou fazendo, para declarar publicamente que sou politicamente incorreto. Enquanto fui professor no curso de comunicação da PUCRS, escondia esta característica com medo de ser demitido. Acho que disfarcei bem, porque até me deram uma medalha de bons serviços aos 25 anos de trabalho. Sete anos depois, um babaca que chefiava o departamento pediu minha demissão, dizendo que eu tinha o mau hábito de contestar suas orientações. Pensando bem, acho que não era tão babaca assim, já que conseguiu ler meus pensamentos. Agora, sem maiores compromissos, morando sozinho em Gramado, e vivendo de uma aposentadoria da Previdência Social (dois salários mínimos menos os empréstimos consignados) acho que não tenho mais muito a perder. Então, prometo afrontar com radicalismo as posições políticas e religiosas dos outros, mas fazendo isso sempre de forma verbal, jamais recorrendo a qualquer tipo de violência física, ainda mais porque na minha idade acabaria sempre levando desvantagem. Quando alguém me disser que Deus fez o mundo em sete dias e que os bons, quando morrem vão para o céu e os maus para o inferno (sobre o purgatório e o limbo, estranho, ninguém fala mais), depois de um sorriso irônico, pergunto: – Você acredita que nasceu quando uma cegonha o levou até a maternidade? É claro que, esta pergunta, feita com o sorriso irônico, deve levar em conta se você não está falando com um fanático religioso (hoje, eles são muitos, espalhados por várias religiões). Por isso é preciso manter sempre uma prudente distância do seu interlocutor e futuro desafeto. Caso a pessoa a que você se dirige, parecer no mínimo um analfabeto funcional (existem muitos em várias profissões liberais) é possível recomendar a leitura dos clássicos do ateísmo: o livro de Richard Dawkins, “Deus é um delírio” ou o do Christopher Hills, “Deus não é grande”. É claro que eles não vão ler, mas talvez o respeitem um pouco mais. Na área política, quando alguém disser que votou no Sartori, faça uma cara de pena e diga: – Você merece, mas eu e a maioria do Rio Grande, não. Quando alguém disser que votou no Aécio, não o chame de coxinha, apenas faça um ar de desconsolo e diga: – Cancele a sua assinatura da Veja e deixe de ver o Jornal Nacional. Depois a gente conversa. Agora – atenção – se alguém disser que torce pela volta dos milicos ou diz que o Bolsonaro é o presidente que o Brasil precisa– fuja o mais rapidamente possível, porque se trata de um tipo extremamente perigoso. O sonho de consumo desse sujeito é ver Auschwitz de volta e ele com o fardamento das SS. Quase tão perigoso quanto este sujeito, é o sionista fundamentalista que só vê belezas no Estado de Israel e que acha todos os palestinos terroristas radicais. Esqueça de recomendar que ele leia aqueles judeus divergentes, como Bettheim, Sholon ou Chomsky. Ele nem sabe quem são estas pessoas. E pior, não adianta nem fugir porque ele vai mandar o Mossad atrás. Depois dessa confissão, só me resta discutir futebol, pois, por incrível que pareça nessa área, somos todos irracionais e por isso todas nossas posições merecem ser levadas em consideração. Nessa briga, sou sempre Internacional e qualquer outro time que esteja jogando contra o Grêmio.


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