Quase fui ator de teatro

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A minha longa amizade com Ênio Gonçalves, infelizmente falecido no ano passado, começou nas peladas dos campinhos que existiam na época – na metade da década de 50 –  nas ruas Marquês do Alegrete e Augusto Severo, no Bairro São João, mas logo se tornou mais intensa quando descobrimos uma outra afinidade: o gosto pelo cinema.
Durante a semana, percorríamos os cinemas que acompanhavam a linha do bonde Floresta, do América, com seus programas duplos, passando pelo Rosário, Eldorado, Orfeu, Colombo, até chegar ao Ipiranga, com suas cadeiras ainda de madeira, ao longo da Assis Brasil, Benjamin Constant e Cristóvão Colombo.
Eventualmente, se havia um grande filme em exibição, íamos aos cinemas do centro, não esperando que ele chegasse aos cinemas de bairro.
Depois do cinema, no fim da noite, o programa era quase sempre o mesmo, caminhar pelas ruas da Vila do IAPI, onde segundo a lenda estava reunido o maior contingente de garotas dispostas a se entregar ao que hoje chamam de amassos, mas que na época era as bolinas e os agarramentos.
Eram sempre expedições fracassadas, mas que permitiam que trocássemos ideais sobre qual seria o nosso futuro. Enquanto eu, depois de perdido o sonho de ser centroavante do Internacional, pensava num vestibular para Medicina, o Ênio se referia sempre a uma misteriosa opção que ele não revelava qual era.
Algum tempo depois, ela ficaria conhecida quando ele ingressou no curso de teatro da Universidade Federal e eu acabei optando pelo curso de História. Continuávamos amigos, mas as sessões de cinema e as caminhadas pelas ruas do IAPI não aconteciam mais. O interesse pelas moças mais liberadas continuava, porém.
Ele, com muito mais sucesso do que eu. Cheio de inveja, eu atribuía o seu sucesso com o sexo oposto o fato dele estar envolvido com o teatro, onde de forma machista, imaginava que se reuniam todas as moças que “davam” para os namorados.  O fato do Ênio ser um cara extremamente bonito e eu dentuço e magricela, parecia não influir no meu julgamento.
Talvez cansado das minhas observações, um dia o Ênio veio com uma proposta.
– Tem um grupo que está preparando uma peça e precisavam de muitos rapazes da nossa idade. Topas para fazer um teste junto comigo?
Era a chance de conhecer as tais moças que “davam” para os namorados.
E lá fui eu junto com o Ênio para o teste na sede de um sindicato de empregados do comércio na Rua da Praia.
Havia uma meia dúzia de rapazes, que quando eram chamados ao palco, recitavam uma pequena fala sempre para uma mesma moça, que respondia com apenas uma palavra.
Eu fiquei como o último e já estava pronto para desistir depois de ouvir o Ênio recitar a plenos pulmões no palco
– SUA MEGERA, PROSTITUTA, MESSALINA, JAMAIS ME DOBRAREI AOS TEUS CAPRICHOS DE MULHER INFIEL. VOU TE FAZER PAGAR COM JUROS ESTA TUA TRAIÇÃO ATÉ A ÚLTIMA GOTA DO TEU SANGUE.
A moça respondia no mesmo tom desafiador
– O QUÊ?
Enquanto caminhava trêmulo para o pequeno palco, pensando “o que estou fazendo aqui”, resolvi dar outra conotação ao texto, mais de acordo com o que estava sentido na ocaisão. Em vez de um desafio, um lamento de quem se sente traído.
Disse o texto quase um sussurro:
– sua megera, prostituta, messalina, jamais me dobrarei aos teus caprichos de mulher infiel.  Vou te fazer pagar com juros esta tua traição, até a última gota do teu sangue.
A resposta dela deixou de ser um desafio. Ela não deve ter ouvido direito e respondeu com uma pergunta.
– O quê?
Aí, a plenos pulmões, com havia ouvido o Ênio fazer, gritei
– SUA MEGERA, PROSTITUTA, MESSALINA, JAMAIS ME DOBRAREI AOS TEUS CAPRICHOS DE MULHER INFIEL. VOU TE FAZER PAGAR COM JUROS ESTA TUA TRAIÇÃO ATÉ A ÚLTIMA GOTA DO TEU SANGUE.
O diretor da cena gostou. Achou interessante, o que ele chamou de uma nova leitura do texto e me mandou voltar na semana seguinte quando seriam feitos os ensaios mais completos da peça.

Obviamente, eu nunca mais voltei para que não descobrissem o meu truque, apesar da insistência do Ênio (ele se transformou depois em um ator conhecido de cinema e televisão e um autor com peças de sucesso em São Paulo) e nunca fiquei conhecendo as tais moças que “davam” para os namorados e que só poderiam ser encontradas no teatro.

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