O Brasil precisa de um exorcista

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O BRASIL PRECISA DE UM EXORCISTA No Brasil, ter um atestado de honestidade, fornecido por uma casta de auto eleitos guardiões da lei, passou a ser uma exigência capital feita aos representantes da classe política e para ganhar este “nil obstat” político, precisa ser amigo do rei ou dos seus representantes. Não se exige mais deles o sentimento institucional de servir uma causa, de viver para a realização de uma utopia política e de lutar para se aproximar dela, mesmo que dando pequenos passos. Não se valoriza mais os avanços sociais e a dedicação a uma causa popular é posta de lado. O que se pede aos políticos é uma folha corrida. O imobilismo ascético dos que não querem sujar as mãos para permanecerem puros é a virtude máxima que um homem pode atingir. E paradoxalmente, quem exalta essa virtude, está muitas vezes enlameado pela colaboração mais abjeta com práticas desumanas e a excludentes de qualquer valor social. A nossa grande mídia diariamente dá espaços imensos para estes novos justiceiros, inquisidores em defesa de uma ordem social injusta. Nas histórias bíblicas sempre há referências aos cuidados que os cristãos devem ter para os demônios disfarçados de anjos. Na mitologia hebraica-cristão sempre existem advertências para ver nos pregadores das verdades absolutas, a mentira escondida. Não é à toa que os verdadeiros cristãos se dedicavam a identificar nas artimanhas do satanás disfarçado de arcanjo, o cheiro de enxofre vindo das profundezas do inferno. Para quem tiver um bom olfato, não será difícil sentir esse cheiro nauseabundo agora vindo das proclamações moralistas que cada vez mais tomam conta das páginas dos nossos grandes jornais e dos espaços ditos nobres da televisão. São os velhos sonegadores contumazes da verdade, acusando sem provas ou com provas muito discutíveis, aqueles que por alguma razão não seguem a sua cartilha política. Dizem que o diabo não faz suas maldades apenas porque é diabo, mas porque é velho. Nos principais acontecimentos do passado brasileiro ele esteve muitas vezes presente. O rabo e os chifres do demônio aparecem em momentos cruciais da nossa história com a sua vocação inata para fazer mal aos brasileiros mais crédulos e carentes. Como os diabos de verdade abominavam os santos, suas encarnações tem sempre horror a qualquer sentimento de solidariedade social. Identificado o político que tenha se desgarrado, um pouco que seja, da defesa da Casa Grande ou teve um olhar de carinho para a Senzala, imediatamente ele se torna o alvo a ser destruído. Num país onde a honestidade, em vez de ser uma obrigação, passa a ser uma qualidade, esses novos belzebus se arrogam o direito de defensores absolutos da moralidade e passar a escolher quem é o inimigo a ser atacado. Em 1954, era o mar de lama que havia nos porões do Catete, a justificativa para derrubar um presidente nacionalista, Getúlio Vargas, que ousara pensar nas necessidades do povo brasileiro no lugar dos interesses das multinacionais. Dez anos depois, foi a corrupção e a subversão que iam levar o Brasil para uma hipotética república sindicalista, que serviu de motivo para a derrubada de João Goulart e a instauração de uma longa ditadura fratricida como o País ainda não conhecia. Mais tarde foi a batalha mediática contra os “marajás” que viviam do dinheiro público, que permitiu a um farsante – Fernando Collor – se tornar Presidente. Hoje, é novamente a luta em que redivivos fariseus do passado se empenham em defesa de uma moral que não praticam, como desculpa para derrubar os governos de um partido, que mesmo abrindo mão de muitas de suas bandeiras, não atende a todos seus objetivos antipatrióticos. Nessa tarefa tão pouco nobre, os acusadores de hoje repetem os romanos invasores da Judéia e os portugueses colonizadores, ao se valer das delações dos novos Judas e Calabares, comprovando mais uma vez aquela frase de Marx de que, quando a história se repete, o faz como farsa. Os historiadores mais tradicionais do Brasil, na sua ojeriza ao povo, sempre descreveram os grandes acontecimentos da Pátria, como tendo ocorrido à margem da vontade popular, começando pela proclamação da República. Hoje, percebendo que essa indiferença aos acontecimentos políticos não mais existe no meio do povo, que deu a vitória aos candidatos populares nas quatro últimas campanhas, esses novos “sebastianistas” desfecharam a maior campanha mediática que o Brasil já viu, na busca de um retorno a um passado “onde tudo era melhor e onde todos sabiam qual era o seu lugar na mesa e na vida social. Fundamentalmente, apesar do verniz de modernidade, o que se pretende é um retorno a um Brasil-colônia habitado por senhores respeitáveis com seus fraques e polainas, sinhazinhas casadouras e escravos dóceis e prestativos. O Brasil está precisando de um bom exorcista para tirar o diabo do corpo de muita gente ilustre.


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