Memórias de um publicitário arrependido – Napoleão e a professora

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Napoleão e a professora No final de 1964, eu ainda não era o publicitário que mais tarde se arrependeria dessa escolha. Era um jornalista que depois de trabalhar em Última Hora, na sucursal da Revista Manchete e na Rádio Gaúcha, se transformara no redator do Repórter Esso na TV Piratini e na Rádio Farroupilha, do grupo dos Diários e Emissoras Associados. Terminava também na ocasião o curso de História na Universidade Federal e com o diploma na mão tinha agora a opção de me tornar também professor. Havia feito o concurso para o Estado, passado, mas a nomeação não chegava. Eloyde Rodrigues era o repórter que abastecia com a cobertura das Secretárias de Estado e da Assembleia Legislativa os dois noticiários. Era um tipo “bicão”, que ia abrindo portas sem pedir licença. Quando soube que eu esperava a nomeação do Estado, disse que ia ajudar a resolver o problema. Um dia depois, voltou com a notícia de que havia uma enorme pilha de processos dos aprovados na Secretaria de Educação para o Secretário assinar, mas como o Governo tinha pouco dinheiro, as nomeações saiam a conta gota. – Falei com o chefe da comunicação da Secretaria e ele botou teu processo no topo da pilha. Amanhã o Secretário assina. Só que não é para dar aula, mas sim trabalhar no Gabinete de Imprensa. Dois ou três dias depois lá estava meu nome publicado no Diário Oficial. Nomeado professor para uma escola estadual em São Leopoldo e requisitado para o gabinete de imprensa. A máquina pública estava nas mãos do PSD e o secretário Tarso Dutra deveria ser o sucessor do Menegheti no Governo do Estado. O gabinete tinha dezenas de jornalistas e cabos eleitorais, voltados fundamentalmente para ajudar nas campanhas de Tarso e também de Juscelino para Presidente. O slogan JK-65 estava em todos lugares. Eram tantas pessoas que faltavam mesas e cadeiras para acomodar todo o pessoal. Eu deveria dar expediente à tarde, mas o chefe de comunicação foi logo me dizendo que eu não tinha obrigação de cumprir horário. O pessoal me mandaria as notícias para à redação na TV e meu compromisso era divulgá-las. No pessoal requisitado para o gabinete, estava uma linda mulher eu conhecia como garota propaganda (nome e função que saíram da moda) na TV Piratini e que logo despertou o interesse do secretário de comunicação. A moça. apesar de bonita, era muito tímida e como naquele grupo todo, só conhecia a mim, era apenas comigo que ela conversava, o que certamente estava atrapalhando as intenções do chefe. Depois de duas ou três sugestões sobre a falta de rigidez no meu horário, ele foi direto ao assunto; – Cara, não quero mais te ver por aqui. Estás atrapalhando. Então, eu passei a ser mais um daqueles funcionários fantasmas que ganham do Estado sem trabalhar. Nada muito ético, mas nada também muito estranho aos hábitos da época. Só que não houve Tarso Governador, nem JK 65. Os militares espicharam o governo do Castelo Branco e cassaram mandatos na Assembleia Legislativa e no lugar do Tarso Dutra deu o Coronel Perachi Barcelos. Eleito, o Coronel Perachi, logo que assumiu, mandou todos os professores – deviam ser muitos – deve volta para à sala de aula. Eu nunca tinha ido e agora estava num dilema: aceitava o novo endereço de trabalho ou pedia demissão e abria mão do salário, que era pequeno, mas sempre ajudava. Uma semana depois estava me apresentando numa escola estadual de Canoas. O pessoal era simpático, mas o quadro de professores estava mais ou menos completo e havia dificuldades para me encaixar. O colégio estava montando um curso técnico à noite para os alunos que já tinham feito o ginásio (seria o atual primeiro grau), mas não iriam seguir no científico (segundo grau) porque precisavam trabalhar. Então, enfiaram nesse curso as aulas de história. – Qual é o programa de aulas? – O senhor mesmo cria, professor. A ideia é dar uma noção geral de história para eles, nada muito profundo. Teoricamente (e põe teoricamente nisso) durante os quatro anos de ginásio eles haviam percorrido toda a história, da antiguidade aos dias de hoje, no mundo e no Brasil. Então, todas as sextas-feiras à noite eu fazia um longo discurso para ouvidos desinteressados e olhos se fechando, sobre algum tema histórico. A maioria dos alunos, cansados pelo trabalho do dia inteiro, só contava os minutos para que aquela chatice acabasse logo e eles pudessem pegar o ônibus e voltar logo para casa. Eu pensava o mesmo. Nas noites de aula, eu chegava mais cedo e ficava fazendo hora na sala dos professores. Coincidentemente, a professora de desenho, jovem e bonita, também ficava aguardando seu período de aulas. Ela era, praticamente, a única pessoa fora os alunos, com quem eu tinha algum contato no colégio. Naquela sexta-feira, eu estava me superando. Escolhera como tema “Napoleão, como afirmação e negação ao mesmo tempo da Revolução Francesa”. Nem eu sabia muito bem se aquilo fazia sentido. Os alunos muito menos. Fora o eco da minha voz, era um silêncio total na sala. Uma boa parte dos alunos certamente já estava dormindo. Eis que (como se diz nas histórias de suspense), uma aluna no fundo da sala, logo uma das mais tímidas, parecia demonstrar algum interesse pelo meu discurso. Quem alguma vez já se viu nesse papel de professor, sabe que lá da frente é fácil perceber no rosto e no olhar dos alunos o grau de interesse deles. Aquela moça estava realmente começando a se interessar. Então, praticamente, me voltei só para ela com a minha estranha arenga. Em determinado momento, ela levantou o braço. – Posso fazer uma pergunta, professor? – Faça logo Ela parecia em dúvida sobre se devia ou não pergunta. – Não sei se devo? Era a minha redenção. Em vez de dar logo a palavra para ela, resolvi teorizar sobre a situação partindo para uma sociologia barata – Vejam essa moça: como todos vocês, é uma trabalhadora. Ela está cansada, mas não deixou adormecer a sua curiosidade. Ela tem dúvidas e isso é mais importante que qualquer certeza. Só quem dúvida pode avançar na vida. A moça continuava vacilando, encabulada. Mais um discurso meu de estímulo a sua decisão, com direito a citações de Copérnico a Galileu. Os que estavam dormindo, acordaram – Vou perguntar, então. – Isso! – O senhor namora a professora de desenho? Desce rápido a cortina e termina a comédia, sem aplausos.


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