Memórias de um publicitário arrependido Dois Presidentes já me olharam nos olhos

Dois presidentes já me olharam nos olhos Dois presidentes brasileiros já me olharam nos olhos, Getúlio Vargas e Dilma Roussef. O que isso tem de importância? Nada. Mas é sempre uma boa história para contar quando falta assunto. Uma, não, duas histórias. O primeiro foi Getúlio Vargas, quando eu era um menino de 11 anos. Em 1951, ele veio a Porto Alegre para inaugurar um enorme conjunto residencial que o antigo Instituto dos Industriários construíra num amplo terreno, antes devoluto, que ficava entre as avenidas Assis Brasil e Plínio Brasil Milano (a Estrada da Pedreira) e a Volta do Guerino. Era, a até hoje existente, Vila do IAPI, um projeto de casas, pequenos edifícios de apartamentos, praças e até mesmo um estádio de futebol (Estádio Alim Pedro), tudo feito com uma qualidade que o fez resistir ao tempo. Mas, voltemos a 1951. Eu morava no número 305 da Rua Piauí, a umas três quadras do começo da Avenida dos Industriários, onde tinha sido montado um palanque para a inauguração. Decidi ir até lá, principalmente para ver Getúlio, ídolo do meu pai, que sempre gostava de contar a história de que, como revolucionário em 1930, estava de guarda no Palácio do Catete, quando o novo Presidente tomou posse. Quando cheguei, a inauguração estava terminando e Getúlio começava a se retirar no seu carro em meio a uma grande aglomeração. Daquele ponto, era impossível ver o Presidente, principalmente para um menino pequeno. Decidi então dar uma volta por uma estreita rua que contornava um dos edifícios que marcava o início da vila. Sozinho na calçada, pronto para atravessar a rua, vi quando o carro presidencial dobrou na esquina a poucos metros de onde eu estava, certamente também procurando fugir do grande rebuliço. Por alguns segundos estivemos praticamente lado a lado, separados por menos de um metro. No carro aberto, Getúlio vinha sentado, sozinho, no banco de trás. Deitado sobre o capô traseiro estava aquele negro enorme, o Tenente Gregório, o segurança do Presidente e que depois seria o pivô do atentado da Rua Toneleiros, que levaria Vargas ao suicídio em 1954. Nos três nos olhamos. Eu, feliz, mas um pouco assustado, de ver Getúlio Vargas tão de perto. O Gregório, alerta, como mandava suas funções de segurança e Getúlio com um leve sorriso no rosto, talvez simpatizando com aquele pequeno gauchinho. Acho que ele fez para mim um pequeno gesto de mão, não sei, talvez ele tenha apenas ajeitado a lapela do casaco, mas que me olhou nos olhos, lá isso sim, ele me olhou mesmo. Getúlio deve ter esquecido o encontro no minuto seguinte. Eu lembro até hoje, prova que posso descrever o acontecimento com tantos detalhes 60 anos depois Dilma me olhou nos olhos e certamente também sorriu, nos meses finais de 1985, quando eu era redator de propaganda na MPM. Nas quintas feiras pela manhã, o expediente terminava mais cedo na MPM e quem estivesse interessado era convidado a se reunir no auditório da agência para participar de mais uma Quinta QI. Tratava-se de um projeto tocado pelo Heitor e pelo Goida (Hiron Goidanich), redator da agência e crítico de cinema de Zero Hora. Todas semanas, alguém das mais diversas áreas da cultura, ciência ou política, era convidado para uma palestra. Alguns se destacaram tanto, que acabaram por ser convidados a dar pequenos cursos para o pessoal da agência, casos do filósofo Ernildo Stein e da professora Eizerick. Casualmente, os assuntos dos dois eram muito semelhantes: Psicanalise e Freud. Num desses encontros, o Sérgio Gonzales, que era do PDT, conseguiu incluir o Alceu Collares, então em campanha para a Prefeitura de Porto Alegre, como um dos palestrantes. Muito simpático, Collares se pôs logo a vontade para contar seus casos de menino pobre e negro que vendia laranjas em Bagé para sobreviver. Tudo ia muito bem, com a plateia rindo de suas piadas, até que ele resolveu enveredar pela política internacional. Talvez imaginando que todo o publicitário, era um princípio, um alienado político que votava sempre com a direita, resolveu comparar Fidel Castro com Pinochet e ainda vendo vantagens para o ditador chileno. Sentado no meio do auditório e pedi um aparte: – O senhor não pode comparar alguém que chegou ao poder comandando uma revolução popular e um ditador sangrento, financiado pelos americanos, que acabou com a democracia de Allende no Chile. Depois de alguns segundos de surpresa, como político inteligente que era, Collares deu uma volta por cima. – Concordo com o companheiro. Eu fiz apenas uma pequena provocação para saber como vocês pensavam. Num canto do auditório, de pé, estava um grupo que acompanhava o Collares, entre eles o Araújo e sua mulher na época, a atual Presidente Dilma. Todo mundo sabia que eles formavam na ala esquerda de um partido que tinha matizes ideológicas bem conflitantes na sua liderança. Por um momento ela olhou diretamente para mim, sorrindo e fazendo com o polegar um pequeno gesto de aprovação. O olhar e o sorriso, tenho certeza. O gesto, talvez eu tenha enxergado demais. Não importa, é o segundo Presidente que me olhou diretamente e vai para a minha pequena lista. Aliás, essa lista poderia ter três presidentes se o Brizola tivesse sido eleito. Força eu fiz, votando nele sempre que foi candidato. Do Brizola, eu teria mais que um olhar para contabilizar. Quando fui diretor da FM Cultura, da Fundação Piratini, conversei com ele, uma vez, olho no olho, durante uns longos cinco minutos. Que pena que ele não ganhou. Quem sabe o Lula se reeleja em 2018 eu ainda tenha tempo para aumentar meu placar para três. Vou torcer.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *