A Matadora

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A MATADORA

O hospital fica em frente a uma grande praça. Quando me sinto um pouco melhor, como hoje, consigo chegar à janela e posso ficar olhando à praça. São 5 horas da tarde e nessa hora, ela começa a ficar cheia de pessoas fazendo exercícios, muitas crianças brincando, gente puxando seus cachorros e principalmente casais nos bancos, namorando.
Meu olhar sempre procura estes casais, num misto de inveja e também de pena. Alguns são mais pudicos nos carinhos que trocam, mas outros, sem maior atenção com seus vizinhos, estão começando uma relação sexual, que certamente não se dará aqui, mas num dos motéis que agora existem em praticamente todos os bairros da cidade.
Minha atenção maior se dirige para estes casais, que quase não conseguem suportar a ansiedade e o desejo sexual. Fico pensando se eles se sentirão gratificados depois que consumarem seu desejo ou terão muitos motivos para se arrependerem como aconteceu comigo.
Minha história, que está terminando agora na janela desse hospital para doentes portadores de HIV, começou há pouco menos de um ano e seus primeiros momentos foram extremamente distantes do drama que estava se armando e do qual eu não percebi nenhuma indicação do que iria acontecer.
Tudo teve início quando vi no facebook um post da minha Graça com uma foto em que ela aparecia sorridente entre um grupo de mulheres. O pequeno texto dizia que se tratava de um encontro comemorativo aos 20 anos de formatura da turma de comunicação da PUC e não dava o nome das pessoas que estavam na foto.
Além da Graça e de uma outra mulher, a Carol que eu havia sido também professora, como eu, na PUC, me chamou a atenção outra mulher, de óculos, quase escondida no fundo da foto. Tentei mentalmente tirar aqueles óculos para ver se a identificava melhor.
Continuei na dúvida, mas já decidido a confirmar ou não, quem eu desconfiasse que fosse.
Liguei para a Graça e ela me disse
– Sim era a Marga, aquela aluna da qual vivias enrabichado.
A Marga era uma morena espetacular. Rosto bonito, morena, dentes alvos, um corpo esbelto, seios desafiadores querendo romper suas blusas decotadas e uma bunda arrebitada.
Foi minha aluna no último ano do curso e naquele período, transávamos com frequência, embora eu, como homem casado e interessado também em outras alunas, tivesse que dosar minha atenção com ela.
Quando ela se formou, a perdi de vista durante algum tempo. A reencontrei dois ou três anos depois, quando fui convidado para fazer uma palestra numa agência de propaganda.
Continuava solteira, livre e interessada em sexo. Retomamos a duas ou três semanas de encontros em motéis, até que por alguma razão que não recordo nos separamos outra vez.
Cinco ou seis anos depois, a encontrei por acaso no supermercado. Estava mais madura, mas ainda extremamente atraente. Me disse que tinha casado e se separara algum tempo depois.
Continuamos a conversa num motel próximo.
Depois desse encontro, só a revi de relance saindo de uma loja de produtos infantis, ostentando uma enorme barriga de grávida.
Com essa visão, a risquei definitivamente da minha memória, até reencontrá-la agora quase 20 anos depois.
Foi mais a curiosidade do que qualquer tipo de desejo, que me fez ligar novamente para ela.
Não tinha me esquecido, não. Estava descasada novamente. O filho que vi na sua barriga há tantos anos atrás, tinha nascido, estava bem-criado, já formado e vivendo no exterior.
Ela vivia sozinha num apartamento da Zona Norte e teria prazer em me receber para um drinque no fim da tarde.
Fui. A tesão tinha ficado no passado. Era uma mulher ainda razoavelmente atraente, certamente ainda bem melhor fisicamente do que eu, mas sem aquele apelo sexual que dela transpirava em outros tempos.
Sua conversa agora se voltava para assuntos relacionados com a conservação da saúde, beber muita água, só comer coisas naturais.
Como éramos feitos do mesmo material das estrelas, a luz que fazia crescer as plantas, se transferia para nós quando as usávamos como alimento.
Falava de Jung, Ghandi e Alan Kardec, de budismo, espiritismo, misturando tudo numa grande salada que ia aos poucos me fazendo ficar arrependido pela visita.
Levei o assunto para o lado do sexo. Era um tema que a interessava, mas logo vi que não mais como no passado. Dizia que naqueles tempos era apenas usada como mulher e que agora buscava uma comunhão de sensações com o homem com quem ia para a sua cama.
Percebi que aquelas boas transas do passado tinham acabado, mas como, por precaução, eu havia me munido de uma pílula de 50 mgs de Viagra, resolvi me integrar à sua preocupação. Cinicamente, fui dizendo que eu havia mudado, nada mais de sexo casual, de posições dominadoras na cama. Quase usando as mesmas palavras que ela, propus uma experiência mística, onde através do sexo buscaríamos um orgasmo único. Até eu mesmo me convenci que acreditava nisso.
Meia hora depois, estávamos nus na cama e descontada a aparência dos nossos corpos, debilitados um pouco pelo tempo, mais ou meu do que o dela, estava pronto para começar a penetração, quando ela interrompeu o processo.
– Sem camisinha, não pode ser.
E agora. Eu nem havia pensado nisso. Minha lembrança era do tempo em que se dizia que fazer sexo com camisinha era como chupar picolé sem tirar a embalagem.
Insisti um pouco.
– Não tem problema. Fiz exame de sangue na semana passada – mentira – e deu tudo normal.
Não adiantou. Era uma questão de princípios para ela. Sexo, só protegido.
E agora?
Ela disse que a uma quadra do seu apartamento havia uma farmácia. Em cinco minutos, eu poderia ir na farmácia e voltar.
E a tesão, resistiria?
Não havia outra coisa a fazer. Botei a roupa rapidamente e sai para buscar a tal camisinha. No caminho engoli outro comprimido de Viagra. Não queria fraquejar de maneira nenhuma. Aguentaria depois a dor de cabeça que aquela pílula azul sempre deixa, para nos lembrar que o prazer sempre tem um custo.
Na farmácia pedi a camisinha, mas não pude deixar de olhar a mulata que acabara de comprar um vidro de perfume. Nem a Marga, que me esperava no apartamento, nos seus melhores tempos, se comparava a esta mulher que acabara de encontrar na farmácia.
Uma mulata alta, esguia, rosto anguloso, lábios carnudos, seios grandes, tudo que eu gostava aos pedaços, reunido num só corpo.
O sorriso de dentes alvos que me dirigiu, era mais que um convite
– Está tão apressado assim em usar a camisinha?
Não eu não tinha pressa nenhuma.
O que será que a Marga ficou pensando quando eu não voltei naquele dia. Hoje, acho que ele teve muita sorte. Quem teve muito azar fui eu, ao encontrar aquela linda mulata
Quando perguntei como era seu nome, disse que eu a chamasse apenas de Matadora.
– Matadora?  Por que?
– Logo, logo tu vais entender.
Fomos para o motel, onde fortalecido pelos dois comprimidos de Viagra fiz sexo como nos melhores tempos.
Perguntei pela camisinha e ela disse para esquecer.
– Sexo com camisinha é como chupar picolé com a embalagem.
Ela sabia até mesmo aquele velho ditado.
De manhã, quando estávamos nos vestindo para sair, ela falou
– Ficastes curioso para saber porque esse nome, Matadora.
– Por quê?
 -`Porque minha meta é matar todos os homens promíscuos. Um deles, uma vez, me transmitiu essa doença infernal. Eu agora me vingo, transmitindo-a para homens bem vestidos que agora querem usar camisinhas para se preservar.
Ela explicou que era portadora da doença, mas imune às suas consequências.
– Eu agora sou uma arma mortal para vingar a todas as mulheres contaminadas por homens egoístas. Sou a Matadora. Entendeu o porquê do apelido?
Na hora, pensei que era brincadeira, mas um mês depois o diagnóstico médico foi devastador.
– O senhor está contaminado pelo vírus do HIV.

Era a Aids que me trouxe para este hospital e agora da janela fico imaginando se a Matadora não é uma daquelas mulheres que enxergo de longe namorando num banco da praça.

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