A história psicografada

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Morri!
Um segundo, estava vivo e no seguinte, estava morto. Quase não senti. Era para ser uma cirurgia simples, mas algo deve ter dado errado. Acontece, só que essa vez foi comigo. Reclamar de quem? O negócio é encarar essa nova situação com o espírito alerta porque parece que o corpo se perdeu. Estou no que o pessoal aqui – diga-se de passagem, gente muita simpática – chama de zona do conforto. Se é assim, bom, vou aproveitar. Como me disseram que tinha direito a algumas regalias (estou em algo parecido com um estágio probatório) pedi logo para continuar escrevendo no meu facebook. Então chamaram um especialista que ficou encarregado de psicografar meus textos. Esse é o primeiro e espero que ele não cometa muitos erros de digitação porque parece que, quando vivo, era um alemão. Então, vamos lá com as minhas primeiras impressões desse novo espaço. Como já expliquei, eles chamam de zona do conforto, mas eu diria que é um lugar de transição. Daqui parece que só tem dois caminhos: pra cima ou pra baixo. Eu espero subir, embora não eles não divulguem nada sobre as vantagens e desvantagens dessas novas moradas. A demora parece que vai ser longa antes de uma decisão final. Como aí onde vocês estão me lendo, aqui também recursos para tudo. Meu caso está ainda em primeira entrância. A espera promete ser longa e como aqui tudo é medido em milênios e séculos, não tenho esperança de mudar de endereço tão cedo. O cara que me dá estas informações, disse que está aqui há séculos e que acompanhou a chegada de Don João VI no Brasil. Quando ele falou num tal relógio do tempo, achei que era figura de linguagem, mas não, tem mesmo o tal relógio. Parece um grande computador e você pode mexer no dial pra frente ou pra traz. O negócio, porém, é muito sensível. Você diz o lugar e marca o ano e ele te mostra o que está acontecendo. Eu marquei Brasil, mas o ponteiro avançou muito rapidamente e apareceu o ano de 2.099. Era o discurso de posse do novo Presidente, uma mulher negra, pela televisão. O canal que transmitia o evento tinha no canto do vídeo o logo RGP, que depois me disseram significava Rede Globo Popular. Tudo era estranho naquela transmissão. A bancada dos apresentadores da tal RGP era formada por cinco pessoas. O meu cicerone disse que cada opção sexual deveria estar representada pela Constituição da URSA. – URSA? – União das Repúblicas Socialistas Americanas. O meu cicerone, que tinha uma paciência de um dependente do INSS, me explicou que depois do grande golpe de 2016, o povo do Brasil tinha se revoltado e promovido a instalação de uma república socialista e motivado pelo exemplo, as demais populações da América do Sul tinham aderido ao novo regime e que em 2050, os antigos Estados Unidos da América, havia também pedido sua integração à URSA. Agora o mundo se divide em quatro grandes blocos, todos solidários entre si: a URSA, que eu já sabia o significado; a UPE, União dos Povos Europeus; a UMA, União das Nações Árabes e a UPLAA – União dos Povos Libertos da Ásia e África Discretamente, voltei para o segundo semestre a procura de uma informação sobre os resultados do Campeonato Brasileiro e da Libertadores de 2016. Tranquilizem-se os colorados. Mesmo com o Argel seremos hexa campeões gaúchos e campeões do Brasileirão. O time deles não passará da atual fase da Libertadores. Tranquilizado quanto a estas importantes questões, fiz aquela pergunta que não quer calar: – E o Lula? – O grande Presidente Lula? – É, ele mesmo, conseguiu se safar da perseguição do Moro e do Gilmar? – Não fale esses nomes aqui. O grande chefe tem horror deles e quando eles chegarem aqui nem quero ver o que vai acontecer com eles. – Mas, e o Lula? – O Presidente Lula foi enviado pelo Grande Chefe ao Brasil com a missão de melhorar a vida do seu povo. Os brasileiros custaram um pouco para entender isso, mas acabaram compreendendo. – Mas, como ele se safou do Moro do Gilmar? – O Grande Chefe nunca o abandonou, apesar de achá-lo um boca-suja, sempre dizendo palavrões, principalmente quando fala ao telefone. De repente se fez um grande silêncio. – É o filho do Grande Chefe que está chegando. Esconde esse crucifixo porque a cruz provoca más recordações para ele. Voltarei em breve em nova versão psicografada. Os erros de digitação desse texto devem ser creditados ao alemão que o psicografou


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