Memórias de um publicitário arrependido

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O COLEGA DESAGRADÁVEL Fui a dois festivais internacionais de filmes publicitários, com todas as despesas pagas pelas agências em que trabalhava. Em 1975, em Veneza, por conta da Marca e em 1986, pela MPM. Nas duas vezes, devo ter estragado uma boa parte da viagem dos meus acompanhantes. Na primeira quem viajava comigo era o Gilberto Lehnen, apelidado pelo Luís Augusto de Cama de Jeremias, o Bom, inspirado num cartum do Ziraldo, que criara um personagem um pouco ingênuo, que só queria fazer o bem para as pessoas. O Gilberto era assim, Jeremias o Bom, com uma característica a mais: era um católico praticante. Não só praticante, mas catequizador, alguém cuja meta era salvar minha alma de ateu empedernido. Apesar disso éramos bons amigos e quando se tornou diretor da Marca, me levou para trabalhador com ele. Um ano depois, contrariando seus sócios, que consideravam a ideia um desperdício, foi convencido por mim que deveríamos ir ao Festival de Veneza. Após uma semana no verão do Adriático, em Veneza, fomos para Londres, onde ele encontraria sua mulher, obviamente tão católica como ele. Na chegada em Heathrow, como marinheiros de primeira viagem, tínhamos nos esperando uma van com um motorista que falava português, para nos levar ao hotel. O Gilberto queria assistir a ópera rock Jesus Cristo Super Star e o sujeito que nos recebeu logo se prontificou a comprar os ingressos e mais do que isso, iria nos dar umas dicas sobre os melhores programas de Londres. Acabamos ficando com os ingressos para a ópera e mais outros, assistir um show cômico, “que não existe no Continente, só aqui na Ilha”, como explicou nosso cicerone. Tudo iria acontecer no domingo à noite. – Jesus Cristo começa às 8 horas e quando termina, às 10, vocês vão a pé, direto para o outro show, que fica bem perto, aqui mesmo no Soho. Quando seguíamos a caminho do segundo espetáculo, a mulher do Gilberto começou a implicar com a rua e com a gente que encontrávamos pelo caminho. Realmente não era uma paisagem muito tranquila, nem muito família, para usar uma expressão dela. Poucas pessoas na rua e quase nenhuma delas com uma cara que inspirasse grande confiança. Tentei desfazer a sensação de medo, embora eu também não estivesse assim tão seguro. – É o bairro boêmio de Londres. Li uma pesquisa de que o último crime nessa zona foi há mais de 10 anos. Não tem problema. Foi então que o Gilberto resolveu me fazer de novo uma pergunta que já havia feito mais de uma vez antes. – O que o sujeito quis dizer com um espetáculo que não tem no Continente? Eu também repeti a resposta – É um show que foi lançado primeiro aqui em Londres. Ele não acreditou muito, mas seguimos em frente, até chegar ao endereço indicado pelos nossos ingressos. Parecia ser realmente uma espelunca. Na porta, um porteiro pouco amigável pegou nossos ingressos em frente a uma escada íngreme que nos levava ao primeiro andar, onde possivelmente ficava o teatro. Quando chegamos ao topo, uma mulher que segurava fechada uma cortina, nos avisou para esperar uns segundo, enquanto terminava um ato do espetáculo. Antes de entrarmos teve tempo para o Gilberto me avisar. – Estou muito desconfiado. Conforme for a coisa, levanto e vou embora. Era um pequeno teatro de arena. Na plateia apenas meia dúzia de turistas japoneses. Logo que sentamos, começou o ato seguinte. Um casal entrou em cena. Ele com um chicote e ela quase despida. A cada chicotada, ela ia perdendo as poucas peças que ainda tinha. No final, para o aplauso dos japoneses, eles simulavam um ato sexual, cheio de gritos e sussurros. Os “atores” saíram do pequeno palco quase junto com o Gilberto e a mulher. No outro dia, segunda-feira, viajaríamos para Paris (seria a minha primeira vez) e pouco falámos pelo caminho. Na terça-feira, o Gilberto me disse que finalmente estava aliviado. Havia conversado com um padre que falava espanhol numa igreja de Paris e contado o que acontecera em Londres e ele o havia absolvido da culpa. – Que culpa, Gilberto? – Expor minha esposa a um espetáculo degradante como aquele. Aí, fui eu quem ficou com a consciência culpada. O Gilberto era meu amigo, eu conhecia suas profundas convicções religiosas e sabia exatamente de que se tratava “aquele espetáculo que não tinha no Continente”. Em 1986, fui a Cannes patrocinado pela MPM. Passagens, hotel e mais 2 mil dólares para gastar pela Europa durante 15 de licença, antes de voltar a Porto Alegre. O único compromisso era na volta de contar as novidades do mundo da publicidade que havia conhecido durante a viagem. A última hora acabou indo junto a coordenadora de tráfego da agência, uma senhora muito simpática que havia ganho a passagem num sorteio da associação de publicitários. A agência resolveu bancar suas despesas, agradecida pelos longos anos de serviços prestados e me recomendaram que desse alguma assistência a ela durante a viagem. Vamos chamá-la de Judite. Nos primeiros dias em Cannes, tudo tranquilo. Ela assistia todas as sessões do festival e ia dormir cedo. Havia uma grande turma de brasileiros em Cannes e os programas eram variados, incluindo as vezes algumas sessões do festival. Todo mundo se reservava para o dia que seria apresentada a short list, a seleção dos melhores comerciais e para a festa de encerramento. Surpreendentemente a Judite encontrou uma carioca que era produtora de comerciais de uma agência e aquela ajuda que me pediram que desse, não seria necessária. No dia da partida, a Judite me trouxe o primeiro problema. Ele havia ido ao banco trocar seus dólares e ficara sabendo que eles eram falsos. – Como falsos? – Cheguei no banco e me disseram que não poderiam fazer o câmbio. – Mas, te disseram que o dinheiro era falso? – Não, mas se não quiseram trocar era porque ele não valia. Dos 2 mil dólares, eu tinha ainda uns 1.500 e planejava ir trocando aos poucos para não perder dinheiro na conversão da moeda, afinal eu precisava de francos em Paris, para onde iriamos depois, de libras para Londres, florins para Amsterdam e liras para Roma. Mas eu não ia ficar com aquela dúvida na cabeça. Iria no banco tentar trocar todos os dólares de uma vez. Tudo ou nada. Se fossem falsos, havia ainda a chance de pedir ajuda aos muitos brasileiros que estavam em Cannes. Na minha cabeça ficara a história de um outro publicitário gaúcho que acabara preso em Londres, acusado de passar dinheiro falso, os dólares que ele comprara certamente numa casa de câmbio de Porto Alegre, assim como foram comprados estes que eu agora tinha na mão. Obviamente, não era nada disso. Arranhando um francês macarrônico acabei descobrindo que o caixa não quis trocar porque estava encerrando seu trabalho para o almoço e pediu para a Judite voltar mais tarde ou esperar que seu substituto chegasse. Infelizmente, a informação só ocorreu depois que eu tinha trocado todos os meus dólares. Em Paris e Londres, a amiga da Judite estava junto com ela e eu podia fazer meus programas tranquilo (na maior parte das vezes, ver os filmes que a censura não deixava passar no Brasil), mas em Amsterdam, ela me pediu, pela primeira vez auxílio: queria comprar uma tesoura para cortar as unhas, mas não sabia como falar isso. – Pô, Judite, eu não sei como pedir um cortador de unhas na língua local. – Mas eu ouvi tu falando inglês com os caras do Hotel em Londres. – Judite, eu sei 3 ou 4 palavras em inglês e aqui em Amsterdam, eles não falam inglês. Muitos até falam, mas a língua oficial é o holandês. Horas depois, ela voltou com um ar de grande vitória, brandindo nas mãos uma singela tesourinha de cortar unhas – Não adiantou tua má vontade. Fui numa loja e eles me entenderam. – Ótimo. Como fizestes? – Parei diante do vendedor e falei pausadamente: cor-ta-dor de u-nha! – Em português? _ Claro – Só isso? – Eu fiz um gesto com as mãos como se estivesse cortando uma unha do dedo. – Ótimo, você agora não precisava mais de mim. Basta falar pausadamente em português. No dia seguinte, pegaríamos o avião para Roma e para poupar dinheiro, disse a ela que iria de trem para o aeroporto. Ela não quis arriscar e avisou que pegaria um taxi. – Ótimo. Diga em taxista, falando pausadamente em português, para onde você quer ir: Ae-ro-por-to de Schi-pol. Cheguei no aeroporto quase duas horas antes do embarque e fiquei esperando a Judite. Ela chegou correndo quando era dada a última chamada para o embarque. O taxista não havia entendido o endereço e a levou para vários lugares antes de tomar o caminho para o aeroporto. A corrida havia custado mais de 100 dólares e o culpado no entendimento dela era eu. Essa, ao contrário do Gilberto, nunca me perdoou. Acho que mereço.


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