Memórias de um publicitário arrependido

QUANDO NÃO FUI TRABALHAR NA MPM Em determinado época costumava ne encontrar com o Werner Becker, que chamávamos de Bruxo, uma vez por semana no mínimo, para beber, comer e falar mal dos outros. Quase sempre no apartamento que ele tinha perto da Praça da Matriz. O Bruxo não era rico, mas em determinados períodos, quando suas causas nos tribunais cresciam, ele tinha muito dinheiro no bolso e sempre estava disposto a gastá-lo. Nesses momentos, ele e sua mulher faziam planos de viagens ou grandes jantares e estava sempre me incluindo com minha mulher. Minhas desculpas eram sempre as mesmas: falta de dinheiro. – Vamos a Montevidéu ver o jogo do Grêmio – Não dá. Bruxo, além do que sou colorado e não quero ver jogo do Grêmio. – Vamos a Foz para jogar no cassino no Paraguai – E o dinheiro? Um dia, ele tomou uma decisão. Tu ganhas muito pouco. Vou ligar para o dono da tua agência e pedir que ele te dê um aumento, senão vou ter que trocar de amigo. Eu trabalhava na Standard e quem mandava era o Pedro Pereira, misto de publicitário, narrador de futebol na Rádio Guaíba e corredor de automóvel. Não era o dono, apenas o diretor de Porto Alegre. No outro dia, o Pedro me chamou na sala dele e disse. – O Dr. Werner ligou e quer que eu te dê um aumento porque ele detesta ter amigo pobre. Disse ainda que se não aumentar tu vais sair. – Pois é. Pedro, tenho uma proposta, mas antes quero saber de ti se pensas em me dar este tal aumento. – Claro que penso. A conversa ficou por aí. Ele ia pensar e continuou pensando nas próximas semanas e eu continuei na Standard porque a proposta de outra agência era pura invenção. Um mês depois o Werner voltou à carga. – Qual a agência de propaganda que paga melhor em Porto Alegre – Deve ser a MPM que é a maior do Brasil. – Por que ela é a maior? – Porque tem praticamente todas as contas do Governo Federal. – Ótimo, então vou pedir para alguém do Governo mandar te colocar na MPM. – Mas quem manda no governo são os milicos e acho que eles não gostam de ti. – Aí que te enganas. – Como um cara de esquerda como tu, pode ter amigos nesse governo? – Esse governo está cheio de comunistas, hoje todos ex-comunistas. Foi assim que um comunista, ou ex-comunista, de Brasília ligou para a MPM e logo uma secretária da agência me ligou dizendo que o Adão Juvenal de Souza queria conversar comigo. Ele era quem mandava na MPM. O Mafuz se reserva para os grandes negócios e não se metia com assuntos menores como contratar um novo redator de propaganda. Deve ter passado o recado de Brasília direto para o Adão – Vê como resolve isso. É um pedido dos homens. E lá estava eu sentado diante do Adão. Depois daquela protocolar troca de amabilidades, o Adão se pôs a falar da história da MPM. Era a maior agência brasileira porque investia na qualidade do seu trabalho, os profissionais eram os melhores do mercado, sempre contratados pelos seus méritos pessoais. Em 5 minutos eu já tinha entendido tudo. Para me contratar o cara iria engolir um enorme sapo e isso ele queria deixar bem claro. Eu só iria trabalhar na agência porque um poderoso lá de Brasília tinha pedido e o Mafuz não queria desagradar ninguém do governo. Foi então que ele fez a pergunta fatídica. – Seu sonho, então, é trabalhar numa grande agência como a MPM. Bastava eu dizer um simples sim e tudo estava resolvido. Mas aquele velho demônio que parecia adormecido na minha mente, pôs os chifres e o rabo para fora. – Olha aqui, Adão. Eu trabalho na Standard, uma agência multinacional (não era ainda, mas estava em vias de ser comprada pela Ogilvy), muito maior que a MPM. Foi vocês que me chamaram. Eu nunca pedi para trabalhar aqui. Acho mesmo que nem quero. Não gostaria de trabalhar numa agência que presta serviços para estes milicos torturadores. Me levantei, virei as costas e dei o fora. Alguns anos depois, quando o Adão já tinha morrido num trágico acidente de avião em Santa Catarina, fui enfim trabalhar na MPM, indicado pelo Beto Soares para o Judeu (Fernando Westphalen) e o Luís Gomes, com o beneplácito do Sérgio Gonzales.

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