Memórias de um publicitário arrependido A ESCADA Diretor de marketing da Caderneta de Poupança, o Dr.Marcos era considerado o cliente mais difícil da agência e casualmente era também o dono da maior conta. Diretores e o pessoal do Atendimento se desdobravam em atender todas os caprichos do Doutor Marcos. Um deles era promover uma reunião semanal com todo o pessoal da criação e o atendimento da conta para o Dr. Marcos exercitar todo o seu sadismo, principalmente contra o Alencar que tinha a desdita de ser o encarregado de tratar diariamente com ele. Nas reuniões, o Dr. Marcos explicava didaticamente que o Alencar era incapaz de transmitir para a Criação o que ele precisava em termos de comunicação e por isso era preciso fazer estas reuniões semanais. O Alencar tentava explicar, mas o Dr. Marcos dizia rindo: – Você tem que se atualizar, Alencar. Quando queríamos consolar o Alencar, de volta para a agência, ele respondia, com lágrima nos olhos. – Ele tem razão. Preciso me atualizar. Um dia, sem que os donos da agência soubessem, juntei a criação e resolvemos tomar as dores do Alencar. Já que ele era tão “incompetente” e “atrasado”, como o Dr. Marcos gostava de falar, nós iriamos dizer a ele que o problema estava resolvido: o Alencar sairia da conta e nós atenderíamos o cliente em grupo. Uma grande prova de falta de conhecimento dos seres humanos. A resposta do Dr. Marcos foi surpreendente na hora, mas fazia sentido: – Se o Alencar sair, sai a conta. Nós queríamos tirar a diversão semanal dele: o seu exercício de sadismo contra um masoquista assumido. Nas reuniões semanais que continuavam, com o Alencar junto, ele propôs um desafio para agência: – Quero um comercial de televisão completamente diferente do que estamos fazendo. O que nós fazíamos, porque ele assim queria, eram aqueles comerciais bonitos, coloridos e sempre com uma lição de que poupar o dinheiro para o futuro era o que mais trazia felicidade para as pessoas, de preferência na caderneta que assinava o anúncio. Dias depois, levei a tal ideia inovadora para ele: – Uma escada apoiada em nada, um fundo infinito, um cara ia subindo até o último degrau, quando então desaparecia na parte superior do vídeo, enquanto o locutor dizia que na caderneta de poupança seus ganhos seriam infinitos. Aprovou na hora. E agora? Como filmar tal história? Era ligar para a produtora em São Paulo e passar a bola. Uma semana depois estou no estúdio para acompanhar a gravação O que hoje com os recursos de edição seria uma barbada, na época não era nada fácil. Duas escadas. A primeira presa no solo com 3 ou 4 degraus, mostraria o ator dando os primeiros passos. A segunda, presa apenas no teto, mostraria as cenas seguintes. O problema é que ele no final do último degrau, seria erguido por guindaste com cabos presos disfarçadamente em sua roupa até sair de cena. Na chegada me apresentaram ao ator. Um sujeito conhecido do teatro e de algumas comédias do cinema. Vamos chama-lo de Jacó, já que ele não escondia seu forte sotaque de judeu das anedotas. Ele devia fazer um tipo capaz de transmitir a ideia de alguém tão experiente que enxergava sempre a melhor opção para o seu investimento, lógico, aquela caderneta de poupança do comercial. Os três primeiros degraus foram fáceis, mas quando chegou a hora de avançar pela escada, o ator começou a mostrar medo e se explicava para mim na sua linguagem arrevesada. – Eu estar em casa e minha mulher disse: Jacó querem que você faça um filme de propaganda. – Filme de que? – É para subir numa escada. – Então, eu vim. Se é para subir só numa escada, o cachê é muito bom. Mas isso não é subir só numa escada. A solução foi o Jacó subir só nos primeiros degraus e depois passar a sua roupa para um funcionário da produtora que se prontificou a subir o resto dos degraus. O diretor cuidou de evitar qualquer cena que revelasse o rosto do sujeito e lá foi ele subindo para o infinito. Filme pronto, até que a ideia não ficou ruim. Uma semana depois vinha a pior parte: aprovar o resultado com o Dr. Marcos. Ele havia reunido toda a sua equipe, mais o pessoal da agência. Disse que não queria uma apresentação prévia, nem comentários antes de passar o filme. Quando terminou, ele falou: – Muito bem. O que está bom eu já sei. Quero que agora vocês digam o que está errado no filme. Para agradar o Dr. Mauro todo mundo achou uma coisa errada. Até o Alencar implicou com a roupa do ator. – Devia ser azul como é a cor da caderneta. Sobrou muito pouco. Haviam arrasado com o filme. E agora? O Dr. Marcos dispensou todo mundo e ficamos só nós dois na sala. Quando já me preparava para ouvir poucas e boas, ele disse apenas. – Muito bom, parabéns. – Vamos veiculá-lo, então? Nada disso. Mostrar escada em filme de poupança é ruim porque lembra queda. Vamos guardar, quem sabe para algum festival. Quando

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