O poder absolutista da MPM na década de 80

BOEIRA, Marino Formado em História pela UFRGS Especialista em Publicidade e Propaganda pela PUCRS Profissional do mercado publicitário no Rio Grande do Sul marinobo@uol.com.com.br GT2 Publicidade e Propaganda – MD Resumo: O presente trabalho pretende estabelecer uma conexão entre as necessidades de comunicação do regime militar que governou o Brasil entre 1964 e 1994 e o crescimento da agência de propaganda MPM, até se tornar a maior empresa nesse setor da comunicação no País. O pressuposto desse trabalho é de que, ao assumir o poder através de um golpe de Estado, os militares precisavam obter a adesão da população para por em prática seu projeto de desenvolvimento de uma economia fortemente concentradora de renda. Para isso, seria preciso desenvolver uma intensa comunicação, dirigida aos segmentos menos politizados do país, que vendesse a idéia de um novo país que seria construído, o chamado Brasil Grande. A MPM foi o canal pelo qual essa mensagem foi difundida. Palavras-chave : História da Propaganda, MPM, Ditadura Militar, A década de 80 Quando a Segunda Grande Guerra terminou em 1945, o mundo parecia irremediavelmente dividido entre duas possibilidades de construção de uma forma de vida em sociedade. De um lado o projeto capitalista, nascido com a Revolução Industrial do século XIX e que depois de gerar guerras coloniais e grandes bolsões de miséria pelo mundo inteiro, parecia adquirir uma face mais humana com o New Deal de Roosevelt, nos Estados Unidos. Do outro lado, o regime comunista da União Soviética, que terminava o conflito europeu como a grande vencedora, com o chamado Exército Vermelho derrotando a até então imbatível Wermarcht de Hitler. Visto na perspectiva do tempo, parece difícil entender hoje o fascínio que os feitos soviéticos despertavam entre os povos do mundo inteiro, depois dos longos anos em que o colonialismo cultural norte-americano, com a ajuda de seus apoiadores nacionais, tratou de estigmatizar o modelo socialista que a União Soviética encarnava. Uma consulta aos jornais da época, principalmente nos anos finais da guerra, mostra intelectuais do mundo inteiro apoiando o regime soviético, não apenas sob o ponto de vista militar, mas também em termos de adesão política. Isso foi visível nos próprios Estados Unidos, o que pode ser comprovado pela posterior caça às bruxas do “macarthismo”, atingindo artistas e intelectuais. No caso brasileiro, podemos lembrar não apenas o apoio de intelectuais, nitidamente de esquerda, como Jorge Amado, Cândido Portinari, Oscar Niemayer, Graciliano Ramos e Dionélio Machado, mas também o nosso poeta maior, Carlos Drummond de Andrade, que dedicou muitos dos seus versos para saudar a resistência de Stalingrado e os feitos do Exército Vermelho. “Stalingrado… Depois de Madri e de Londres, ainda há grandes cidades. O mundo não acabou, pois que entre as ruínas Outros homens surgem, a face negra de pó e de pólvora, E o hábito selvagem da liberdade Dilata os seus peitos, Stalingrado, Seus peitos que estalam e caem Enquanto, outros, vingadores, se elevam. A poesia fugiu dos livros, agora está nos jornais. Os telegramas de Moscou repetem Homero. Mas Homero é velho. Os telegramas cantam um mundo novo Que nós, na escuridão, ignorávamos.” Mais adiante Drummond é ainda mais claro na sua opção política “O poeta Declina de toda responsabilidade Na marca do mundo capitalista E com suas palavras, instituições, símbolos e outras armas Promete ajudar A destruí-lo Como uma pedreira, uma floresta, Um verme”. Hoje, a possibilidade de que a via comunista pudesse ser o caminho escolhido, parece ser até absurda, é porque logo depois que a paz foi selada em maio de 1945 nos campos de batalha da Europa, uma nova guerra teve início. Chamada pelos meios de comunicação de Guerra Fria, ela foi um batalha ideológica sem tréguas para transformar a proposta capitalista em vencedora no mundo inteiro. Ao lado de um grande esforço material (o melhor exemplo foi o chamado Plano Marshall), para conter os focos revolucionários que poderiam incendiar os países europeus ao final da Segunda Grande Guerra, da Espanha franquista à Grécia, passando pela Itália, França e Alemanha, foi desencadeada uma grande ofensiva de mídia destinada a conquistar o coração e a mente das pessoas. Esta experiência pioneira, em escala planetária, de construir uma imagem positiva para um sistema político e destruir a do seu maior opositor, consolidada durante o governo do General Dwigt Eisenhower, nos Estados Unidos, se apoiou no uso maciço dos meios de comunicação, principalmente o cinema. Embora ainda praticassem uma política de discriminação racial, em alguns estados inclusive com caráter oficial, os Estados Unidos, através do cinema, mas também na pintura (o subjetivismo do pintor abstracionista Jackson Pollok era divulgado como o oposto do figurativismo estreito dos pintores soviéticos) e na música (a maravilhosa Orquestra Sinfônica de Nova York, exibia-se de graça no mundo inteiro, inclusive no Brasil), vendiam a idéia de uma democracia social, onde o esforço de cada um seria premiado com a realização de sua felicidade pessoal (enriquecendo ou casando com a mulher amada), ao contrário dos soviéticos, com a sua vida sempre cinza, programada do nascimento à morte. O sucesso dessa política de construção de imagem, programada e paga pelo governo dos Estados Unidos e pelos empresários que ele representava, teve seguidores no mundo inteiro. No Brasil, um projeto semelhante começou a ser desenvolvido a partir da vitória do golpe militar que, em 1964, rompeu o sistema democrático em que o País vivia desde 1945. Vencida a resistência inicial dos opositores ao golpe, concentrados principalmente nos meios intelectuais, estudantis e sindicais do País, através da violência institucionalizada, era preciso que os novos governantes militares obtivessem o consentimento da população para os seus projetos desenvolvimentistas, baseados principalmente na concentração de renda e integração do Brasil , ainda que como um país periférico, ao modelo hegemônico do capitalismo internacional. Para isso, além da perseguição aos opositores mais radicais com o uso sistemático da prisão e da tortura, era preciso conquistar também os corações e as mentes de milhões de brasileiros, senão para ganhar seus aplausos, pelo menos sua tolerância. Sob o rígido controle da chamada inteligenzia militar se desenvolveu então um grande processo, cujo maior objetivo parecia ser o de neutralizar a efervescência cultural que dominara os anos 50 e o início dos anos 60 e substituí-la por um modelo totalmente despolitizado, onde as conquistas pessoais sob o ponto de vista material, seriam muito mais importantes do que qualquer atitude de solidariedade social. Seria preciso então estabelecer um canal de acesso a essa população, usando as novas tecnologias disponíveis, principalmente a televisão, mas não deixando de lado o rádio e os meios impressos. Havia, porém, uma dificuldade. Não existia ainda no país um veículo de cobertura nacional capaz de exercer esse papel, como ocorrera nos Estados Unidos, primeiro com o cinema e depois com a televisão. O processo de transformação da Rede Globo nesse grande instrumento estava longe de ser consolidado. As emissoras de rádio eram fortes apenas regionalmente (a grande emissora de cobertura continental, a Rádio Nacional do Rio de Janeiro, estava num processo de decadência, devido ao crescimento da televisão). Os grandes jornais brasileiros, principalmente o Correio da Manhã, no Rio, e o Estadão, em São Paulo, que inicialmente apoiaram o golpe, passaram a manter uma posição crítica em relação ao regime. A solução encontrada foi descentralizar a divulgação das mensagens através de todos os veículos disponíveis no Brasil inteiro, mas manter sob rígido controle o teor dessas mensagens. Isso só seria possível dentro do modelo criado pela propaganda comercial, onde, ao contrário do trabalho jornalístico em que as opiniões divergentes convivem muitas vezes no mesmo espaço, existe apenas uma verdade: aquela que o cliente paga para ser levada ao público. Seria preciso então, encontrar uma agência de propaganda com uma estrutura nacional, grande o suficiente para oferecer serviços de qualidade em termos de planejamento, criação e produção para os meios eletrônicos e que estivesse disposta a aceitar a incumbência de realizar este trabalho para um regime não-democrático. Como as agências de propaganda estrangeiras não podiam prestar serviços ao Governo Federal e como não havia ainda o atual processo de licitação para a escolha das agências que atendem as contas públicas, a indicação natural foi a MPM, uma agência que vinha num processo de crescimento acelerado, atendendo contas privadas, mas também contas públicas, estaduais e federais. Criada em Porto Alegre, na década de 50, ela se expandiu pelo Brasil inteiro, assentada num tripé formado pelos seus sócios principais Antônio Mafuz (o M, de Porto Alegre), Petrôneo Correa (o P, de São Paulo) e Luiz Macedo (o M, do Rio de Janeiro). A MPM montou então uma estrutura física e de pessoal gigantesca, capaz de atender as necessidades de comunicação do Governo Federal e suas agências (principalmente os bancos públicos) e com isso se transformou por mais de 10 anos na agência de propaganda com o maior faturamento do País. Para os funcionários da MPM, o trabalho nas contas do Governo era como qualquer outro, a ser realizado com empenho e dedicação. Internamente, a agência oferecia excelentes condições de trabalho, tanto em termos de salário como de respeito a posicionamentos políticos, mesmo os mais críticos ao seu grande cliente nacional. Ao dar suporte técnico ao projeto de comunicação do governo militar da época, a MPM, ainda que isso possa não ter ficado como um processo consciente para todos os seus executivos, ajudava a consolidar a imagem de um sistema político autoritário e na sua essência, desconectado das necessidades do povo brasileiro. Esta, talvez, seja a grande questão que se coloca a partir da visão que podemos ter hoje daquele período. Não eram apenas os apelos institucionais cheios de ufanismo que caracterizaram a época, do tipo “Brasil – Ame-o ou deixe-o”, “Meu Brasil – eu te amo”, “Brasil – uma ilha de paz e prosperidade”, “Brasil – 90 milhões em ação”, “Brasil – ninguém segura este país”. Era também uma ampla campanha em favor de um consumismo, só possível para as classes mais favorecidas e por pequenos bolsões da classe média ascendente nas grandes cidades brasileiras. A opção pelo modelo rodoviário, com a construção de obras faraônicas como a Transamazônica, servia aos interesses do empresariado multinacional que se instalara aqui para produzir automóveis e gerar uma série de negócios paralelos, inclusive para as agências de propaganda que iam conquistando contas importantes como a da Volkswagen, da Fiat e da Ford. Obviamente, a implantação desse modelo trouxe benefícios em termos de geração de empregos, principalmente na região do ABC paulista, mas não servia aos interesses de uma enorme parcela da população – seguramente a maior de todas – que não participava dos ganhos gerados. Num país com uma divisão de classes profunda, com milhões de pessoas vivendo de uma forma quase subumana, a aposta correta seria o governo investir em políticas que ampliassem a base de consumidores, através de uma reforma agrária no campo, educação pública de bom nível e em bens de consumo compatíveis com as possibilidades financeiras da maioria. Em vez disso, o que se viu foi a produção de bens supérfluos que todos os anos deveriam ser trocados. Para implantar esse novo modelo foi preciso que se forjasse uma comunhão de interesses entre as grandes agências de propaganda e os poderosos anunciantes que aqui chegaram. Isso vai provocar um forte surto de desenvolvimento técnico para o negócio da propaganda, tornando corriqueira a utilização de recursos cada vez mais sofisticados na elaboração do trabalho publicitário. Mesmo na fase anterior à introdução dos computadores como ferramenta de trabalho diária dos publicitários, já começava a se alargar o fosso que separava as agências médias e pequenas daquelas que, atendendo as grandes contas publicitárias, principalmente de clientes multinacionais, dispunham de condições para investir nas tecnologias disponíveis. Grandes agências e grandes anunciantes chegavam a uma simbiose de tantos interesses comuns, que o publicitário Júlio Ribeiro, que levaria a conta da Fiat para MPM, diria certa vez que as agências se transformaram em jagunços das multinacionais. Lembrando este período, Ricardo Ramos, em seu livro Do Reclame à Comunicação, diz que “o santo era político, daqueles que se mantém em cena, inventando e promovendo o milagre brasileiro. Os profetas eram publicitários, anunciando o futuro na sua profissão. O clima que os animava, estamos lembrados: Herman Kahn, Brasil Grande e outros ingredientes de euforia”. A maioria desses “profetas” estava nas grandes agências, entre as quais pontificava soberanamente a MPM. Durante 10 anos, ela sustentou a primeira posição no ranking elaborado pela Revista Meio e Mensagem. Como o critério de classificação era o faturamento declarado, a MPM se empenhava em faturar mais e mais, não se importando muitas vezes em aceitar contas que na equação custo/benefício se mostravam deficitárias. Ser a primeira no ranking era um ponto de venda da agência. Como os reis antigos, que construíam grandes castelos para demonstrar aos súditos todo o seu poder, a MPM construiu no Morro de Santa Tereza, em Porto Alegre, uma sede colossal, onde durante a década de 80 trabalharam mais de 200 pessoas. Simbolicamente, a construção ficava no alto de um morro dominando totalmente a cidade aos seus pés. Anunciantes se sentiam orgulhosos em ser atendidos pela agência, mesmo que coabitando muitas vezes com seus concorrentes mais diretos; os veículos, que dependiam das autorizações de mídia, cultivavam de todas as formas a sua atenção e os políticos mais importantes não cansavam de mostrar seu apreço por ela. Era sabido que o governador Jair Soares usava muitas vezes suas salas, ao final do expediente, para reuniões que exigiam um sigilo que o Palácio de Governo não podia assegurar. Não poucas vezes, o Presidente Figueiredo recebeu seus amigos para confraternizaram em memoráveis churrascos, usando um dos restaurantes da agência.Tudo isso causava admiração, mas também inveja, para os que viviam e trabalhavam na planície. Não poucos, esperavam que com o fim do regime ditatorial, o poder da MPM também desaparecesse junto. No início, esperam em vão. A redemocratização nascia sem rupturas, através de um longo processo, onde as elites comandaram o jogo e impuseram o seu candidato, Tancredo Neves. Depois da anistia em 79, os militares concordavam em deixar o governo desde que o poder não fosse entregue aos radicais da época. Por radicais, pensavam em Lula e principalmente Leonel Brizola. Quando os oposicionistas lançaram a campanha das Diretas Já, pensavam somar pontos junto aos seus futuros eleitores, mas não imaginaram que em pouco tempo perderiam o comando do processo em meio a comícios cada vez mais gigantescos nas grandes capitais, culminando com mais de 1 milhão de pessoas no Rio de Janeiro. Ulysses, Tancredo, Montoro, Covas, todos eles sabiam que se houvessem Diretas Já, Brizola seria imbatível nas urnas. Por isso suspiraram de alívio – militares e caciques da oposição – quando a emenda em favor das eleições diretas não alcançou – por poucos votos – o quorum mínimo exigido. Todos nós sabemos que não foi Tancredo quem assumiu, mas sim seu vice, José Sarney. Se os tempos de Sarney não foram de felicidade geral para o Brasil, os publicitários que conseguiam suas contas em Brasília, pouco tinham para se queixar. O governo era de composição e por isso todos os interesses eram respeitados. Mas é sintomático notar que, com o início do processo de redemocratização, o poder absolutista da MPM começou a decrescer e ela jamais voltaria a ter o brilho de antes. Com a chegada de Fernando Collor ao poder, mudam radicalmente os parceiros que sentavam à mesa das grandes contas públicas do Governo Federal. Agências que poucos conheciam vão se apossando das fatias mais cobiçadas do bolo publicitário. Em pouco tempo, a MPM vai perdendo sua majestade e acabando vendida para Lintas, do grupo multinacional Interpublic, em 1991, encerrando um ciclo de poder imperial. Como sempre foi comum entre os empresários brasileiros, à primeira dificuldade do mercado, eles tratam de vender o patrimônio para o qual colaboraram centenas de profissionais e garantem um bolso cheio de dinheiro. Em 2003, a marca MPM é comprada pelo publicitário Nizan Guanaes, numa clara indicação de que se realidade tinha mudado, o mito pelo menos permanecia. Mas até chegar a este ponto o Brasil já tinha mudado muito e as agências foram um dos agentes intelectuais dessa grande mudança. A ação da propaganda foi fundamental para estimular a compulsão às compras e institucionalmente, implantar um modelo de vida baseado no individualismo e na competitividade feroz entre antigos companheiros, para substituir a velha idéia dominante na década de 60, baseada no coletivismo e na solidariedade. O público alvo dessa verdadeira lavagem cerebral foi constituído pelos jovens, aproveitando a natural inclinação que eles têm de experimentar coisas e idéias novas. O novo, era o modelo norte-americano do homem que se faz sozinho. Se, para eles isso tinha a ver com a sua tradição calvinista de prestar só conta a Deus, aqui isso parecia em desacordo com o nosso passado católico, onde até os anjos e santos eram convocados para mediar o contato com o Todo Poderoso. Mesmo assim, como cantava Ellis Regina, “eles venceram”, e hoje o que se vê é o culto do empreendedorismo, seja lá o que isso for, ensinado nas escolas como a meta a ser alcançada para que todos possam ser felizes. O processo de globalização, que vai fazer dos chineses os novos americanos do século XXI, deixa poucas esperanças de uma reconquista de um espaço mais ameno para divagações como estas que estamos fazendo aqui. Apesar disso, devemos fazer como Gene Kelly, que mesmo debaixo da chuva continuava cantando. Nossa canção pode ser chamada de uma ladainha nostálgica, mas ela busca cobrar uma maior consciência social dos que vivem da comunicação, inclusive nós, os publicitários. Uma questão que pouco aflorava naquela época e possivelmente, ainda hoje esteja ausente das preocupações dos publicitários, é, em até que ponto seus compromissos políticos e ideológicos podem ir sem interferir no seu comprometimento com tarefas que, na essência, sejam contrárias a estes compromissos? A visão mais comum no meio publicitário é de que o profissional deve buscar sempre a eficiência e a criatividade como metas a serem alcançadas, não levando em conta determinados posicionamentos éticos que ele tem como cidadão. Isso não significa apenas não trabalhar com contas de cigarros, bebidas e armas, como algumas agências já fazem. Esse é um posicionamento da empresa e não do profissional. Quando buscar eficiência e criatividade significa produzir peças publicitárias que estimulam preconceitos étnicos, sexuais e raciais, qual deve ser a sua posição? Uma resposta padrão é a de que “se eu não fizer, outro vai fazer”. Obviamente, ela é um belo consolo, mas responde ao meu dilema de consciência, ou o publicitário moderno não tem mais dilema de consciência? Na época em que a MPM era a maior agência de propaganda do Brasil, alguns publicitários tinham este dilema e o externavam, até publicamente, como registraram algumas peças de teatro e filmes, o que não os impediu de continuar colaborando com o sistema. Possivelmente nenhum publicitário trabalharia numa campanha explicitamente antiecológica, mas até que ponto estaria disposto a examinar a possibilidade de se recusar a fazer um anúncio para uma destas empresas que transformam terras agriculturáveis em florestas de eucaliptos? E, para encerrar, ainda umas perguntas: as grandes questões nacionais que mobilizam o noticiário e a linha editorial dos jornais, não são assuntos para os publicitários? A agência de propaganda e os publicitários têm compromisso apenas com os anunciantes que pagam pelo seu trabalho ou, sendo um processo de comunicação, como é o jornalismo, devem responder também à sociedade e por isso mesmo precisam contribuir para o seu aprimoramento? Se as respostas predominantes forem no sentido de que somos apenas profissionais da propaganda e que nosso compromisso fundamental é com o anunciante que nos paga, então podemos entender melhor como foi possível que uma grande agência nacional colocasse todo seu prestígio e saber a serviço de um regime que a História viria depois a condenar, quase que de forma unânime. Bibliografia: Andrade, Carlos Drummond. Fazendeiro do Ar & Poesia até Agora. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1954. Castelo Branco, Renato e outros. A História da Propaganda no Brasil. São Paulo: Publicação Ibraco, 1981. Conti, Mario Sergio. Notícias do Planalto. São Paulo: Companhia das Letras, 1999. Chomsky, Noam. Contendo a Democracia. São Paulo: Editora Record, 2003. Gaspari, Elio. A Ditadura Envergonhada. São Paulo: Companhia das Letras, 2002. Gorender, Jacob. Combatendo nas Trevas. São Paulo: Ática Editora, 1987. Hobsbawn, Eric. A Era dos Extremos. São Paulo: Companhia das Letras, 1995. Ramos, Ricardo. Do Reclame à Comunicação. São Paulo: Atual Editora, 1985

Memórias de um publicitário arrependido

O COLEGA DESAGRADÁVEL Fui a dois festivais internacionais de filmes publicitários, com todas as despesas pagas pelas agências em que trabalhava. Em 1975, em Veneza, por conta da Marca e em 1986, pela MPM. Nas duas vezes, devo ter estragado uma boa parte da viagem dos meus acompanhantes. Na primeira quem viajava comigo era o Gilberto Lehnen, apelidado pelo Luís Augusto de Cama de Jeremias, o Bom, inspirado num cartum do Ziraldo, que criara um personagem um pouco ingênuo, que só queria fazer o bem para as pessoas. O Gilberto era assim, Jeremias o Bom, com uma característica a mais: era um católico praticante. Não só praticante, mas catequizador, alguém cuja meta era salvar minha alma de ateu empedernido. Apesar disso éramos bons amigos e quando se tornou diretor da Marca, me levou para trabalhador com ele. Um ano depois, contrariando seus sócios, que consideravam a ideia um desperdício, foi convencido por mim que deveríamos ir ao Festival de Veneza. Após uma semana no verão do Adriático, em Veneza, fomos para Londres, onde ele encontraria sua mulher, obviamente tão católica como ele. Na chegada em Heathrow, como marinheiros de primeira viagem, tínhamos nos esperando uma van com um motorista que falava português, para nos levar ao hotel. O Gilberto queria assistir a ópera rock Jesus Cristo Super Star e o sujeito que nos recebeu logo se prontificou a comprar os ingressos e mais do que isso, iria nos dar umas dicas sobre os melhores programas de Londres. Acabamos ficando com os ingressos para a ópera e mais outros, assistir um show cômico, “que não existe no Continente, só aqui na Ilha”, como explicou nosso cicerone. Tudo iria acontecer no domingo à noite. – Jesus Cristo começa às 8 horas e quando termina, às 10, vocês vão a pé, direto para o outro show, que fica bem perto, aqui mesmo no Soho. Quando seguíamos a caminho do segundo espetáculo, a mulher do Gilberto começou a implicar com a rua e com a gente que encontrávamos pelo caminho. Realmente não era uma paisagem muito tranquila, nem muito família, para usar uma expressão dela. Poucas pessoas na rua e quase nenhuma delas com uma cara que inspirasse grande confiança. Tentei desfazer a sensação de medo, embora eu também não estivesse assim tão seguro. – É o bairro boêmio de Londres. Li uma pesquisa de que o último crime nessa zona foi há mais de 10 anos. Não tem problema. Foi então que o Gilberto resolveu me fazer de novo uma pergunta que já havia feito mais de uma vez antes. – O que o sujeito quis dizer com um espetáculo que não tem no Continente? Eu também repeti a resposta – É um show que foi lançado primeiro aqui em Londres. Ele não acreditou muito, mas seguimos em frente, até chegar ao endereço indicado pelos nossos ingressos. Parecia ser realmente uma espelunca. Na porta, um porteiro pouco amigável pegou nossos ingressos em frente a uma escada íngreme que nos levava ao primeiro andar, onde possivelmente ficava o teatro. Quando chegamos ao topo, uma mulher que segurava fechada uma cortina, nos avisou para esperar uns segundo, enquanto terminava um ato do espetáculo. Antes de entrarmos teve tempo para o Gilberto me avisar. – Estou muito desconfiado. Conforme for a coisa, levanto e vou embora. Era um pequeno teatro de arena. Na plateia apenas meia dúzia de turistas japoneses. Logo que sentamos, começou o ato seguinte. Um casal entrou em cena. Ele com um chicote e ela quase despida. A cada chicotada, ela ia perdendo as poucas peças que ainda tinha. No final, para o aplauso dos japoneses, eles simulavam um ato sexual, cheio de gritos e sussurros. Os “atores” saíram do pequeno palco quase junto com o Gilberto e a mulher. No outro dia, segunda-feira, viajaríamos para Paris (seria a minha primeira vez) e pouco falámos pelo caminho. Na terça-feira, o Gilberto me disse que finalmente estava aliviado. Havia conversado com um padre que falava espanhol numa igreja de Paris e contado o que acontecera em Londres e ele o havia absolvido da culpa. – Que culpa, Gilberto? – Expor minha esposa a um espetáculo degradante como aquele. Aí, fui eu quem ficou com a consciência culpada. O Gilberto era meu amigo, eu conhecia suas profundas convicções religiosas e sabia exatamente de que se tratava “aquele espetáculo que não tinha no Continente”. Em 1986, fui a Cannes patrocinado pela MPM. Passagens, hotel e mais 2 mil dólares para gastar pela Europa durante 15 de licença, antes de voltar a Porto Alegre. O único compromisso era na volta de contar as novidades do mundo da publicidade que havia conhecido durante a viagem. A última hora acabou indo junto a coordenadora de tráfego da agência, uma senhora muito simpática que havia ganho a passagem num sorteio da associação de publicitários. A agência resolveu bancar suas despesas, agradecida pelos longos anos de serviços prestados e me recomendaram que desse alguma assistência a ela durante a viagem. Vamos chamá-la de Judite. Nos primeiros dias em Cannes, tudo tranquilo. Ela assistia todas as sessões do festival e ia dormir cedo. Havia uma grande turma de brasileiros em Cannes e os programas eram variados, incluindo as vezes algumas sessões do festival. Todo mundo se reservava para o dia que seria apresentada a short list, a seleção dos melhores comerciais e para a festa de encerramento. Surpreendentemente a Judite encontrou uma carioca que era produtora de comerciais de uma agência e aquela ajuda que me pediram que desse, não seria necessária. No dia da partida, a Judite me trouxe o primeiro problema. Ele havia ido ao banco trocar seus dólares e ficara sabendo que eles eram falsos. – Como falsos? – Cheguei no banco e me disseram que não poderiam fazer o câmbio. – Mas, te disseram que o dinheiro era falso? – Não, mas se não quiseram trocar era porque ele não valia. Dos 2 mil dólares, eu tinha ainda uns 1.500 e planejava ir trocando aos poucos para não perder dinheiro na conversão da moeda, afinal eu precisava de francos em Paris, para onde iriamos depois, de libras para Londres, florins para Amsterdam e liras para Roma. Mas eu não ia ficar com aquela dúvida na cabeça. Iria no banco tentar trocar todos os dólares de uma vez. Tudo ou nada. Se fossem falsos, havia ainda a chance de pedir ajuda aos muitos brasileiros que estavam em Cannes. Na minha cabeça ficara a história de um outro publicitário gaúcho que acabara preso em Londres, acusado de passar dinheiro falso, os dólares que ele comprara certamente numa casa de câmbio de Porto Alegre, assim como foram comprados estes que eu agora tinha na mão. Obviamente, não era nada disso. Arranhando um francês macarrônico acabei descobrindo que o caixa não quis trocar porque estava encerrando seu trabalho para o almoço e pediu para a Judite voltar mais tarde ou esperar que seu substituto chegasse. Infelizmente, a informação só ocorreu depois que eu tinha trocado todos os meus dólares. Em Paris e Londres, a amiga da Judite estava junto com ela e eu podia fazer meus programas tranquilo (na maior parte das vezes, ver os filmes que a censura não deixava passar no Brasil), mas em Amsterdam, ela me pediu, pela primeira vez auxílio: queria comprar uma tesoura para cortar as unhas, mas não sabia como falar isso. – Pô, Judite, eu não sei como pedir um cortador de unhas na língua local. – Mas eu ouvi tu falando inglês com os caras do Hotel em Londres. – Judite, eu sei 3 ou 4 palavras em inglês e aqui em Amsterdam, eles não falam inglês. Muitos até falam, mas a língua oficial é o holandês. Horas depois, ela voltou com um ar de grande vitória, brandindo nas mãos uma singela tesourinha de cortar unhas – Não adiantou tua má vontade. Fui numa loja e eles me entenderam. – Ótimo. Como fizestes? – Parei diante do vendedor e falei pausadamente: cor-ta-dor de u-nha! – Em português? _ Claro – Só isso? – Eu fiz um gesto com as mãos como se estivesse cortando uma unha do dedo. – Ótimo, você agora não precisava mais de mim. Basta falar pausadamente em português. No dia seguinte, pegaríamos o avião para Roma e para poupar dinheiro, disse a ela que iria de trem para o aeroporto. Ela não quis arriscar e avisou que pegaria um taxi. – Ótimo. Diga em taxista, falando pausadamente em português, para onde você quer ir: Ae-ro-por-to de Schi-pol. Cheguei no aeroporto quase duas horas antes do embarque e fiquei esperando a Judite. Ela chegou correndo quando era dada a última chamada para o embarque. O taxista não havia entendido o endereço e a levou para vários lugares antes de tomar o caminho para o aeroporto. A corrida havia custado mais de 100 dólares e o culpado no entendimento dela era eu. Essa, ao contrário do Gilberto, nunca me perdoou. Acho que mereço.

Memórias de um publicitário arrependido 0 MODELO BRASILEIRO DE PROPAGANDA José Montserrat havia passado 5 anos na União Soviética estudando literatura. Quando voltou, com o regime militar à plena no Brasil, surpreendeu todo o mundo indo trabalhar numa agência de propaganda. Afinal, o que um comunista – na época, uma pessoa que tivesse qualquer ligação com a União Soviética imediatamente era taxada de comunista com todos os riscos inerentes ao título – estaria fazendo numa agência de propaganda, um lugar onde se criavam as armadilhas para levar o trabalhador a comprar o que não precisava e com isso encher os bolsos dos burgueses? O Montserrat não só trabalhava numa agência, como se tornou presidente do Clube de Criação e lançou uma nova moda para os criadores das agências de propaganda: o Modelo Brasileiro de Propaganda. Seria o fim da importação dos modismos norte-americanos. Buscaríamos inspiração nos temas nacionais. Certamente nos livros de José de Alencar e Castro Alves encontraríamos bons personagens para as nossas histórias. Não falaríamos mais em lay out, raugh ou marketing. Seria o desenho, o rascunho, a comercialização. Na época, final da década de 70, eu completava meu salário de publicitário, ou vice-versa, dando aulas de criação publicitária na Famecos. Sala de aula cheia, resolvera aproveitar as ideias do Montserrat para um debate – sem grande sucesso diga-se de passagem – com os alunos. Como sempre, não conseguia ficar parado, andando pela sala, até para impedir que alguns dormissem ou ficassem lendo o jornal. No meio de uma frase, quando eu dizer mais uma vez – o modelo brasileiro … –fez-se um silêncio súbito e todos os olhares se voltaram para a porta que se abria nas minhas costas. Era a (vamos inventar um nome para preservar a personagem) Joana que chegava com todo o seu esplendor feminino. Ela tinha sido Miss Rio Grande do Sul, ou apenas concorrera ao título, não lembro bem, e já aparecera numa série de anúncios de roupas e sapatos. Naquela turma, onde as meninas estavam mais para a moda hippie, ela chamava a atenção pelo jeito que se vestia naquela noite: calça justa, blusa colante e salto alto. Tudo isso numa moldura amarelo canário. Joana era pouco frequente nas aulas e quando comparecia chegava atrasada, não falava com ninguém e nunca se viu ela dando qualquer opinião sobre algum assunto. Embora fosse mais para morena, era considerada pelos machistas de plantão na sala como o protótipo de loura burra. Naquela noite, porém, ela parecia interessada no debate sobre o tal Modelo Brasileiro de Propaganda, principalmente quando eu falei que era preciso defender esse modelo. Então, ela levantou o braço. Silêncio geral! – Professor, eu concordo com o senhor Um óh de espanto em toda a sala. Ela falava e mais, tinha opinião. – Sim, Joana, que bom. Ela podia ter parado por ai, mas resolveu continuar. – O senhor sabe que eu trabalho como modelo? – Sim, eu sabia. Todo mundo sabia. – Pois, há pouco, em São Paulo eu estava contratada para fazer um anúncio para uma marca de sapatos e na última hora me trocaram por uma modelo americana. Sim amigos, é preciso defender o nosso modelo e as nossas modelos.

Memórias de um publicitário arrependido A ESCADA Diretor de marketing da Caderneta de Poupança, o Dr.Marcos era considerado o cliente mais difícil da agência e casualmente era também o dono da maior conta. Diretores e o pessoal do Atendimento se desdobravam em atender todas os caprichos do Doutor Marcos. Um deles era promover uma reunião semanal com todo o pessoal da criação e o atendimento da conta para o Dr. Marcos exercitar todo o seu sadismo, principalmente contra o Alencar que tinha a desdita de ser o encarregado de tratar diariamente com ele. Nas reuniões, o Dr. Marcos explicava didaticamente que o Alencar era incapaz de transmitir para a Criação o que ele precisava em termos de comunicação e por isso era preciso fazer estas reuniões semanais. O Alencar tentava explicar, mas o Dr. Marcos dizia rindo: – Você tem que se atualizar, Alencar. Quando queríamos consolar o Alencar, de volta para a agência, ele respondia, com lágrima nos olhos. – Ele tem razão. Preciso me atualizar. Um dia, sem que os donos da agência soubessem, juntei a criação e resolvemos tomar as dores do Alencar. Já que ele era tão “incompetente” e “atrasado”, como o Dr. Marcos gostava de falar, nós iriamos dizer a ele que o problema estava resolvido: o Alencar sairia da conta e nós atenderíamos o cliente em grupo. Uma grande prova de falta de conhecimento dos seres humanos. A resposta do Dr. Marcos foi surpreendente na hora, mas fazia sentido: – Se o Alencar sair, sai a conta. Nós queríamos tirar a diversão semanal dele: o seu exercício de sadismo contra um masoquista assumido. Nas reuniões semanais que continuavam, com o Alencar junto, ele propôs um desafio para agência: – Quero um comercial de televisão completamente diferente do que estamos fazendo. O que nós fazíamos, porque ele assim queria, eram aqueles comerciais bonitos, coloridos e sempre com uma lição de que poupar o dinheiro para o futuro era o que mais trazia felicidade para as pessoas, de preferência na caderneta que assinava o anúncio. Dias depois, levei a tal ideia inovadora para ele: – Uma escada apoiada em nada, um fundo infinito, um cara ia subindo até o último degrau, quando então desaparecia na parte superior do vídeo, enquanto o locutor dizia que na caderneta de poupança seus ganhos seriam infinitos. Aprovou na hora. E agora? Como filmar tal história? Era ligar para a produtora em São Paulo e passar a bola. Uma semana depois estou no estúdio para acompanhar a gravação O que hoje com os recursos de edição seria uma barbada, na época não era nada fácil. Duas escadas. A primeira presa no solo com 3 ou 4 degraus, mostraria o ator dando os primeiros passos. A segunda, presa apenas no teto, mostraria as cenas seguintes. O problema é que ele no final do último degrau, seria erguido por guindaste com cabos presos disfarçadamente em sua roupa até sair de cena. Na chegada me apresentaram ao ator. Um sujeito conhecido do teatro e de algumas comédias do cinema. Vamos chama-lo de Jacó, já que ele não escondia seu forte sotaque de judeu das anedotas. Ele devia fazer um tipo capaz de transmitir a ideia de alguém tão experiente que enxergava sempre a melhor opção para o seu investimento, lógico, aquela caderneta de poupança do comercial. Os três primeiros degraus foram fáceis, mas quando chegou a hora de avançar pela escada, o ator começou a mostrar medo e se explicava para mim na sua linguagem arrevesada. – Eu estar em casa e minha mulher disse: Jacó querem que você faça um filme de propaganda. – Filme de que? – É para subir numa escada. – Então, eu vim. Se é para subir só numa escada, o cachê é muito bom. Mas isso não é subir só numa escada. A solução foi o Jacó subir só nos primeiros degraus e depois passar a sua roupa para um funcionário da produtora que se prontificou a subir o resto dos degraus. O diretor cuidou de evitar qualquer cena que revelasse o rosto do sujeito e lá foi ele subindo para o infinito. Filme pronto, até que a ideia não ficou ruim. Uma semana depois vinha a pior parte: aprovar o resultado com o Dr. Marcos. Ele havia reunido toda a sua equipe, mais o pessoal da agência. Disse que não queria uma apresentação prévia, nem comentários antes de passar o filme. Quando terminou, ele falou: – Muito bem. O que está bom eu já sei. Quero que agora vocês digam o que está errado no filme. Para agradar o Dr. Mauro todo mundo achou uma coisa errada. Até o Alencar implicou com a roupa do ator. – Devia ser azul como é a cor da caderneta. Sobrou muito pouco. Haviam arrasado com o filme. E agora? O Dr. Marcos dispensou todo mundo e ficamos só nós dois na sala. Quando já me preparava para ouvir poucas e boas, ele disse apenas. – Muito bom, parabéns. – Vamos veiculá-lo, então? Nada disso. Mostrar escada em filme de poupança é ruim porque lembra queda. Vamos guardar, quem sabe para algum festival. Quando

Memórias de um publicitário arrependido O MODELO BRASILEIRO DE PROPAGANDA José Montserrat havia passado 5 anos na União Soviética estudando literatura. Quando voltou, com o regime militar à plena no Brasil, surpreendeu todo o mundo indo trabalhar numa agência de propaganda. Afinal, o que um comunista – na época, uma pessoa que tivesse qualquer ligação com a União Soviética imediatamente era taxada de comunista com todos os riscos inerentes ao título – estaria fazendo numa agência de propaganda, um lugar onde se criavam as armadilhas para levar o trabalhador a comprar o que não precisava e com isso encher os bolsos dos burgueses? O Montserrat não só trabalhava numa agência, como se tornou presidente do Clube de Criação e lançou uma nova moda para os criadores das agências de propaganda: o Modelo Brasileiro de Propaganda. Seria o fim da importação dos modismos norte-americanos. Buscaríamos inspiração nos temas nacionais. Certamente nos livros de José de Alencar e Castro Alves encontraríamos bons personagens para as nossas histórias. Não falaríamos mais em lay out, raugh ou marketing. Seria o desenho, o rascunho, a comercialização. Na época, final da década de 70, eu completava meu salário de publicitário, ou vice-versa, dando aulas de criação publicitária na Famecos. Sala de aula cheia, resolvera aproveitar as ideias do Montserrat para um debate – sem grande sucesso diga-se de passagem – com os alunos. Como sempre, não conseguia ficar parado, andando pela sala, até para impedir que alguns dormissem ou ficassem lendo o jornal. No meio de uma frase, quando eu dizer mais uma vez – o modelo brasileiro … –fez-se um silêncio súbito e todos os olhares se voltaram para a porta que se abria nas minhas costas. Era a (vamos inventar um nome para preservar a personagem) Joana que chegava com todo o seu esplendor feminino. Ela tinha sido Miss Rio Grande do Sul, ou apenas concorrera ao título, não lembro bem, e já aparecera numa série de anúncios de roupas e sapatos. Naquela turma, onde as meninas estavam mais para a moda hippie, ela chamava a atenção pelo jeito que se vestia naquela noite: calça justa, blusa colante e salto alto. Tudo isso numa moldura amarelo canário. Joana era pouco frequente nas aulas e quando comparecia chegava atrasada, não falava com ninguém e nunca se viu ela dando qualquer opinião sobre algum assunto. Embora fosse mais para morena, era considerada pelos machistas de plantão na sala como o protótipo de loura burra. Naquela noite, porém, ela parecia interessada no debate sobre o tal Modelo Brasileiro de Propaganda, principalmente quando eu falei que era preciso defender esse modelo. Então, ela levantou o braço. Silêncio geral! – Professor, eu concordo com o senhor Um óh de espanto em toda a sala. Ela falava e mais, tinha opinião. – Sim, Joana, que bom. Ela podia ter parado por ai, mas resolveu continuar. – O senhor sabe que eu trabalho como modelo? – Sim, eu sabia. Todo mundo sabia. – Pois, há pouco, em São Paulo eu estava contratada para fazer um anúncio para uma marca de sapatos e na última hora me trocaram por uma modelo americana. Sim amigos, é preciso defender o nosso modelo e as nossas modelos.

Memórias de um publicitário arrependido

QUANDO NÃO FUI TRABALHAR NA MPM Em determinado época costumava ne encontrar com o Werner Becker, que chamávamos de Bruxo, uma vez por semana no mínimo, para beber, comer e falar mal dos outros. Quase sempre no apartamento que ele tinha perto da Praça da Matriz. O Bruxo não era rico, mas em determinados períodos, quando suas causas nos tribunais cresciam, ele tinha muito dinheiro no bolso e sempre estava disposto a gastá-lo. Nesses momentos, ele e sua mulher faziam planos de viagens ou grandes jantares e estava sempre me incluindo com minha mulher. Minhas desculpas eram sempre as mesmas: falta de dinheiro. – Vamos a Montevidéu ver o jogo do Grêmio – Não dá. Bruxo, além do que sou colorado e não quero ver jogo do Grêmio. – Vamos a Foz para jogar no cassino no Paraguai – E o dinheiro? Um dia, ele tomou uma decisão. Tu ganhas muito pouco. Vou ligar para o dono da tua agência e pedir que ele te dê um aumento, senão vou ter que trocar de amigo. Eu trabalhava na Standard e quem mandava era o Pedro Pereira, misto de publicitário, narrador de futebol na Rádio Guaíba e corredor de automóvel. Não era o dono, apenas o diretor de Porto Alegre. No outro dia, o Pedro me chamou na sala dele e disse. – O Dr. Werner ligou e quer que eu te dê um aumento porque ele detesta ter amigo pobre. Disse ainda que se não aumentar tu vais sair. – Pois é. Pedro, tenho uma proposta, mas antes quero saber de ti se pensas em me dar este tal aumento. – Claro que penso. A conversa ficou por aí. Ele ia pensar e continuou pensando nas próximas semanas e eu continuei na Standard porque a proposta de outra agência era pura invenção. Um mês depois o Werner voltou à carga. – Qual a agência de propaganda que paga melhor em Porto Alegre – Deve ser a MPM que é a maior do Brasil. – Por que ela é a maior? – Porque tem praticamente todas as contas do Governo Federal. – Ótimo, então vou pedir para alguém do Governo mandar te colocar na MPM. – Mas quem manda no governo são os milicos e acho que eles não gostam de ti. – Aí que te enganas. – Como um cara de esquerda como tu, pode ter amigos nesse governo? – Esse governo está cheio de comunistas, hoje todos ex-comunistas. Foi assim que um comunista, ou ex-comunista, de Brasília ligou para a MPM e logo uma secretária da agência me ligou dizendo que o Adão Juvenal de Souza queria conversar comigo. Ele era quem mandava na MPM. O Mafuz se reserva para os grandes negócios e não se metia com assuntos menores como contratar um novo redator de propaganda. Deve ter passado o recado de Brasília direto para o Adão – Vê como resolve isso. É um pedido dos homens. E lá estava eu sentado diante do Adão. Depois daquela protocolar troca de amabilidades, o Adão se pôs a falar da história da MPM. Era a maior agência brasileira porque investia na qualidade do seu trabalho, os profissionais eram os melhores do mercado, sempre contratados pelos seus méritos pessoais. Em 5 minutos eu já tinha entendido tudo. Para me contratar o cara iria engolir um enorme sapo e isso ele queria deixar bem claro. Eu só iria trabalhar na agência porque um poderoso lá de Brasília tinha pedido e o Mafuz não queria desagradar ninguém do governo. Foi então que ele fez a pergunta fatídica. – Seu sonho, então, é trabalhar numa grande agência como a MPM. Bastava eu dizer um simples sim e tudo estava resolvido. Mas aquele velho demônio que parecia adormecido na minha mente, pôs os chifres e o rabo para fora. – Olha aqui, Adão. Eu trabalho na Standard, uma agência multinacional (não era ainda, mas estava em vias de ser comprada pela Ogilvy), muito maior que a MPM. Foi vocês que me chamaram. Eu nunca pedi para trabalhar aqui. Acho mesmo que nem quero. Não gostaria de trabalhar numa agência que presta serviços para estes milicos torturadores. Me levantei, virei as costas e dei o fora. Alguns anos depois, quando o Adão já tinha morrido num trágico acidente de avião em Santa Catarina, fui enfim trabalhar na MPM, indicado pelo Beto Soares para o Judeu (Fernando Westphalen) e o Luís Gomes, com o beneplácito do Sérgio Gonzales.

Memórias de um publicitário arrependido

O LEITOR O anúncio no jornal era realmente estranho: oferecia um emprego, muito bem remunerado – isso estava escrito em negrito – para quem estivesse disposto a passar 4 horas por noite falando com alguém que seria apenas um ouvinte. Como estava desempregado há 3 meses e não via perspectiva de arrumar um novo trabalho como publicitário, minha profissão escrita num diploma da universidade, resolvi ligar para o número que aparecia no anúncio. – A pessoa com quem o senhor vai falar – se for o escolhido – sofreu um derrame e não pode responder, mas quer ouvir alguém que entenda de futebol, política, cinema, literatura e música popular brasileira, não necessariamente nesta ordem. O senhor entende desses assuntos? – Acho que como todo mundo. – Muito bem, o senhor está disposto a se submeter a um teste? – Quando? – Agora mesmo, por telefone. – Está bem. – Quem foi o goleiro do Uruguai na Copa do Mundo de 1950 ? – Roque Maspoli. – Quem dirigiu o filme Crepúsculo dos Deuses ? – Billy Wilder. – A última. Quem escreveu Os Thibault ? – Roger Martin du Gard. – Muito bem, o emprego é seu. Eu vou lhe dar um endereço. Lá uma pessoa vai passar as instruções necessárias para o seu trabalho. São 10 mil reais, que serão depositados mensalmente em sua conta bancária. O senhor começa hoje à noite, daqui uma hora. Anote o endereço. Quando terminei de anotar o endereço, o sujeito desligou do outro lado sem dar tempo para qualquer outra pergunta. Certamente era um trote. Ninguém pagaria 10 mil reais para entreter um doente com conversas sobre futebol, cinema ou literatura. Decidi ligar de novo para o número do anúncio. Fiz isso várias vezes. O número dava sempre ocupado. O cara havia dito que o trabalho começaria em uma hora e o endereço era longe, uma rua na Zona Sul, difícil de encontrar até no mapa da Telefônica. Decidi correr o risco, afinal seria uma decepção a mais para quem só via as portas baterem na sua cara. Peguei um ônibus no Mercado e fui até o fim da linha Serraria. Duas quadras adiante, numa rua sem saída, encontrei o número que o sujeito do telefone havia informado. Um muro alto cercava a casa, que só se vislumbrava ao fundo, no meio de muitas árvores, através do portão de ferro. Toquei a campainha e pelo interfone alguém perguntou: – É a pessoa que respondeu o anúncio para conversar com o Dr. Alan ? Não era um trote. O doente tinha até nome – Dr. Alan. Quando respondi afirmativamente, o portão se abriu. Havia um caminho ensaibrado, que serpenteava pelo meio das árvores até chegar à casa, um sobrado antigo, lembrando àquelas mansões de E O Vento Levou. Quando cheguei na soleira da casa, a porta se abriu antes que eu batesse e um sujeito com ares de mordomo de filme inglês (minhas referências estavam muito cinematográficas) fez um sinal para que entrasse e me conduziu para uma grande sala, com uma lareira acesa. Um homem, com um enorme bigode e um cachimbo na boca, sentado numa poltrona de couro, fez um sinal para sentar na sua frente. Prometi que não procuraria mais lembrar de nenhum outro filme, embora tivesse certeza de que já tinha visto aquela cena, possivelmente numa história de Agatha Christie. – Vou lhe explicar apenas uma vez as regras que o senhor deve seguir nesta casa Deve chegar pontualmente às 19,55, diariamente, menos aos domingos. O Ronald (foi quando descobri o nome daquele sujeito que parecia mordomo de filme inglês) vai levá-lo ao primeiro andar, onde está o gabinete do Dr. Alan. Antes disso, ele vai lhe entregar uma ficha com o tema sobre o qual o senhor deve falar. Estas fichas serão específicas sobre os assuntos que o senhor domina. Por exemplo, um comentário crítico sobre o filme o Ano Passado em Mariembad. Alguma pergunta? – Eu teria dezenas. – Por favor, apenas uma. – Quem é o Dr. Alan ? – Digamos que o Dr. Alan foi uma figura de muito destaque na vida do país, que infelizmente sofreu um derrame cerebral e perdeu a memória de fatos que são muito importantes. Ele está sendo submetido a um tratamento médico experimental e o senhor faz parte desse tratamento. – Que tratamento? – Nós combinamos apenas uma pergunta, em todo caso, se isso lhe deixa mais tranqüilo, a idéia é que você fale de assuntos que foram do interesse do Dr. Alan para ver se conseguimos jogar um pouco de luz na escuridão em que se transformou seu cérebro. Quando terminou de falar, o mordomo de filme inglês já estava de pé ao meu lado dando a entender que o tempo com o personagem de Agatha Christie tinha se esgotado e que era a hora de conhecer o Dr. Alan. Na escada, subindo para o primeiro andar, ele me passou uma ficha. Meu primeiro assunto: o livro Jean Cristophe, de Romain Rolland. Eu havia lido o livro há, no mínimo, 20 atrás e me lembrava pouco da história. O Jean Cristophe do título era pianista, gostava de Beethoven, Bach e Mozart e detestava Schubert, ou seria Liszt? O Dr. Alan tinha um rosto praticamente sem rugas, encimado por uma bonita cabeleira branca. O rosto podia ser de um homem de 40 anos, mas o cabelo era de alguém de 60. Fiz a média na hora e dei 50 anos ao Dr. Alan. Ele vestia um robe de chambre azul marinho deixando a mostra uma camisa também em tom azul e uma gravata grená. Estava sentado numa poltrona que parecia muito confortável, com uma alavanca lateral que permitia transformá-la numa verdadeira cama. Ao seu lado, um abajur de pé alto e uma mesinha de mármore com um jarro de água e dois copos. Apesar da luz do abajur estar acesa, a sala ficava numa meia penumbra. Grossas cortinas cobriam as janelas e além da poltrona e de uma cadeira de espaldar alto colocada na sua frente, só quando os olhos se acostumavam com a pouca luz, é que se percebiam os outros objetos que faziam parte da decoração: não mais que uma estante com alguns livros de capa dura e um grande quadro na parede, retratando um sujeito com uma farda militar do tempo do Império. É claro que não percebi isso imediatamente. Só com as novas visitas é que fui me dando conta destes detalhes. Na primeira vez que o encontrei, me chamou atenção, além do rosto sem rugas e da cabeleira branca, o olhar vago, voltado para alguma coisa situada sempre a, no mínimo, um metro acima da pessoa que sentava na cadeira de espaldar alto a sua frente. Esta seria a minha cadeira de todas as noites, como me indicou o mordomo de filme inglês, antes de fechar a porta e me deixar sozinho com o Dr. Alan. – Muito bem, Dr.Alan, vamos falar de Romain Rolland e seu livro. Até hoje, eu não sei como consegui dizer alguma coisa que ocupasse as quatro horas em que deveria permanecer naquela sala. Certamente devo ter feito longos silêncios, talvez até mais duradouros que as falas. Afinal, eu me lembrava muito pouco do livro. Quando meu relógio de pulso finalmente marcou meia-noite, a porta da sala se abriu e surgiu o mordomo de filme inglês para me indicar que a sessão tinha terminado. – Acompanho o senhor até a porta. Há um taxi esperando na saída do portão para conduzi-lo até o centro. Enquanto o taxi me levava pelas ruas desertas da Zona Sul assumi o compromisso comigo mesmo de suportar pelo menos um mês naquele trabalho- se é que podia se chamar aquilo de trabalho – para pegar os 10 mil reais que me faziam tanta falta. Depois cairia fora. Era coisa de doido ficar falando para um sujeito durante 4 horas sem que ele sequer se dignasse a lhe lançar um olhar. Durante uns 15 dias, o ritual foi sempre o mesmo: Ronald abria a porta, me entregava uma ficha com o tema do dia e me encaminhava para a sala onde o Dr. Alan esperava, sempre com o seu robe de chambre azul marinho. A gravata, pelo menos, era diferente todos os dias. O cara de bigodão e cachimbo, eu nunca mais vi. Os assuntos se alternavam, um dia era a seleção brasileira de 58, outro, um livro de Gore Vidal ou um filme de Robert Altmann. Eu me virava como podia. Falava um pouco, fazia longos silêncios, voltava a falar. Aquela história de medicina experimental, me parecia conversa fiada. Como eu ficava sozinho com o Dr. Alan, mesmo que ele tivesse alguma reação às minhas palavras, só eu ficaria sabendo. Será que eles esperavam um relato meu sobre as possíveis reações do doente? Se era, nunca me perguntaram nada naquelas duas semanas. Talvez ele estivesse plugado por um fio a algum aparelho fora da sala ? Uma noite, fiquei tão preocupado com isso, que acabei procurando o tal fio embaixo da poltrona do Dr Alan. Obviamente, não encontrei nada. Quem sabe eles gravavam as minhas conversas ? Nesse caso, poderiam dizer que eu não estava cumprindo o trato por causa dos longos silêncios. Será que eles depositariam o dinheiro na minha conta no fim-do-mês? A propósito, ninguém me perguntou pelo número da conta. Mas como eles tinham confiado tanto em mim, era justo que eu também confiasse neles. A propósito, quem eram eles? No dia 25 de julho, e este dia eu não poderia esquecer porque era meu aniversário, aconteceu algo inesperado. Ao abrir a porta, Ronald não me entregou nenhuma ficha, nem me levou pelas escadas para o primeiro andar. Em vez disso, indicou uma sala a esquerda da entrada, onde havia uma grande mesa de vidro, com 6 poltronas de couro. Sobre a mesa um projetor de imagens e no fundo um telão. Ao contrário do restante da casa, a sala era bem iluminada, com paredes claras e uma decoração moderna. Ao lado da mesa maior, um pequeno bar com garrafas de vários tipos de bebida, um balde de gelo e muitos copos. O Ronald indicou o bar com um aceno de mão e falou que eu ficasse à vontade, que teríamos uma reunião muito importante em seguida. Enquanto me servia de uma dose de Chivas, fiquei imaginando o motivo da tal reunião. O primeiro pensamento foi: eles sabem que estou de aniversário e querem fazer uma surpresa. Daqui a pouco, o Ronald entra na sala com um bolo de velinhas cantando Parabéns a Você. Logo pus de lado esta idéia. Seria uma situação demasiadamente ridícula, o Ronald com um bolo de velinhas. Talvez o cara de bigodão e cachimbo, com jeito de personagem de Agatha Christie e que imaginei ser o chefe de toda a operação, quisesse me passar uma reprimenda: você está falando muito pouco e se continuar assim vamos dispensá-lo imediatamente sem pagar nenhum tostão. O que poderia fazer numa situação como essa ? Reclamar de quem? Pensar nisso, me deixou desconfortável. Levantei da poltrona e comecei a caminhar pela sala para me acalmar. Quando estava próximo da porta, ela se abriu e Ronald surgiu na minha frente, abrindo passagem para o sujeito de bigodão e cachimbo, que parecia personagem de Agatha Christie. Logo atrás dele, para meu espanto, vinha o Dr. Alan, com o seu rosto sem rugas e a bonita cabeleira branca. Só que agora ele não tinha aquele olhar vago. Pelo contrário, seus olhos brilhavam, enquanto me estendia mão, sorridente. – O senhor sabe muito de futebol e engana um pouco em cinema, mas em literatura e música fica devendo. Quase cai para trás, para não deixar de usar um clichê de livro policial. – Surpreso? – O senhor não estava doente, incapaz de falar? Ainda sorrindo, o Dr. Alan me pegou pelo braço e levou para junto da mesa. – Vamos sentar e conversar um pouco. O Ronald senta aqui ao lado e o Juvenal fica o mais longe possível para não nos sufocar com este cachimbo. O bigodudo, de cachimbo, parecido com um personagem de Agatha Christie se chama então Juvenal, o que certamente o excluiria de qualquer história de detetive inglês. E o Dr.Alan, seria mesmo esse o seu nome ? O sujeito ficava 4 horas com o olhar perdido no horizonte, sem dizer nenhuma palavra, nem emitir qualquer som e era tudo encenação. Que ator. Isso estava mudando toda a história. O mais importante agora era descobrir quem eram estes caras e qual o meu papel em tudo isso. O Ronald colocou sobre a mesa um gravador de som e ficou atento a uma ordem do Dr. Alan. – Pode rodar, Ronald. A gravação era de um sujeito falando ao telefone. A voz era incrivelmente parecida com a minha, mas o que ele dizia eu nunca tinha falado na vida. Ele confessava ter participado de um assalto a banco e contara como enfrentara a polícia disparando tiros de sua metralhadora. – O que é isso? Parece minha voz, mas está falando coisas que eu nunca disse e muito menos fiz. O sujeito está imitando minha voz. Como ele consegue ser tão perfeito? – É a sua voz, disse o Dr. Alan. O Juvenal é o araponga mais competente que existe no Brasil. Ele vai lhe explicar como sua voz está nessa gravação. Mais uma decepção: o Juvenal é apenas um grampeador de telefones e portanto não tem nada a ver com as histórias da Agatha Christie. – Este equipamento é o que existe de mais moderno no mundo. Nós gravamos a sua voz, enquanto você falava com o Dr. Alan, depois separamos silaba por silaba e montamos tudo de novo do jeito que a gente quis. O aparelho tem um modulador de decibéis super sensível, que nos permite criar novas palavras usando uma entonação que é diferente em cada pessoa. Ou seja, nos formamos frases novas usando pedaços de outras frases de uma maneira que nenhum técnico de áudio seria capaz de identificar. Nem na Unicamp, os caras conseguem identificar esta montagem. – E tudo isso para quê ? – Isso, o Dr. Alan vai lhe explicar Foi então que o Dr. Alan começou a expor a idéia mais absurda que eu já ouvi na vida, com um agravante terrível: eu seria o principal ator nessa história. – Por que eu? – Poderia ser qualquer um, mas você foi o primeiro a responder ao anúncio.