Também tive meu dia de cronista social

Sábado à noite em Gramado. Na falta do que fazer caminho pelo centro. Na frente da Igreja, naquela alameda onde estão os falsos profetas de pedra, uma multidão se acotovela. O que acontece?

Vou me aproximando para saber. Um casamento. E de gente muita rica. Homens de terno e gravata e mulheres espremidas em vestidos longos e decotes generosos. Deve ser casamento de gente famosa,

Um sujeito de colete e calça justa organiza, no lado de fora da igreja, a fila dos padrinhos. Essa função que ele exerce deve ter um nome em francês ou inglês que eu, um inculto socialmente, não sei. De início, por causa daquela voz em falsete que eles aprendem nos seminários e jamais esquecem, pensei que seria um padre. Talvez. O cara era autoritário, sem ser grosseiro. Uma arte, pensei eu.

Fila organizada, as madrinhas com buquês de flores nas mãos, entram na igreja. Na frente um grupo de crianças. Os meninos vestidos de adultos. As meninas com cestinhas nas mãos. São as aias que carregam as alianças, explica uma senhora (uma gorda patusca, como diria o Nelson Rodrigues) comovida, ao meu lado. Eu, do lado de fora, anotando tudo mentalmente, nessa nova função de cronista social.

Agora só falta a noiva.

Eis que ela chega, vinda da calçada da fama.

Você não sabia? Gramado tem uma calçada da fama, que nem Hollywood.

Vem numa grande camionete Hyllux, dessas com um  imenso porta mala atrás. O sujeito ao meu lado, de mão com o namorado (novos tempos, novos hábitos) diz que camionete não combina com casamento chic.

O pai da noiva certamente queria mostrar quão rico é e cometeu essa gafe imperdoável para o meu vizinho. Realmente, a noiva tem dificuldades de descer do carro porque o estribo é muito alto. Ela finalmente desce e o sujeito aquele, cuja função deve ter um nome estrangeiro, leva a noiva e o pai para a porta da igreja.

A massa ignara aplaude. A noiva é magrinha e de longe parece bem bonitinha. Quando penso que eles vão entrar, a porta da igreja é fechada eles ficam do lado de fora. Uma mulher explica para o marido desinteressado (o cara devia estar pensando no jogo do Inter que a mulher não deixou ele ver na televisão) que a noiva e o pai devem esperar a hora certa em que os acordes da Ave Maria são ouvidos para entrar.

Ela estava certa. Surge a Ave Maria, as portas se abrem e a noiva, com seu longo vestido branco entra na igreja. O noivo, eu não vi. Certamente estava esperando há muitas horas no altar. Deve ir se acostumando porque depois será ainda pior.

Antes de ir embora, ouço os últimos comentários do lado de fora. Que lindo diz aquela senhora nostálgica, com lágrimas nos olhos, talvez pensando “ai se eu tivesse uma grana dessas, iria querer um casamento assim para minha filha”.

Mais adiante, aquela moça moderninha, rebelde por natureza, cheia de tatuagens que enfeiam sua pele , deixa escapar um olhar de inveja por aquela noiva burguesa, provavelmente sem tatuagens, que está fazendo aquilo que ela diz abominar, mas com o que certamente está agora sonhando.

Termina aqui meu dia de cronista social.

Fuera Macri ou como salvei as vidas do Temer e da Marcela


Sábado à noite, marquei um encontro na Lima e Silva com a Binoche.

Eu ia vê-la no Guion em “A Espera”. Nem sei se era um bom filme. O que importa é que era um filme com a Juliette Binoche, eu estava um pouco atrasado (logo eu que digo nunca me atrasar) e não queria fazê-la me esperar.

Só não contava com o trânsito surpreendentemente engarrafado naquela hora. Quando cheguei na esquina da Venâncio, foi que me dei conta do porque a confusão. O trânsito estava bloqueado na Lima e Silva por causa de um desfile de carnaval.

Decidi ir a pé, quase correndo para ver a minha Binoche.

Já perto do Olaria, outra confusão.

Um grupo cercava, aos gritos, um casal de mascarados. Mesmo atrasado, parei para olhar. Ele tinha uma máscara do Temer e ela, da Marcela. A turba gritava “Fora Temer”, “Vai cuidar do teu lar, Marcela”. O casal estava tão atrapalhado, que não sabia o que fazer.

Foi então que salvei o Temer e a Marcela. Gritei para eles: tirem as máscaras. Eles obedeceram. Então, completei: joguem no chão e pisem em cima. Eles fizeram isso e a turba se dispersou entre risadas e aplausos.

O homem me explicou depois que eram argentinos, de Comodoro Rivadávia e estavam em férias no Brasil e nem sabiam quem eram esses tais de Temer e Marcela.

Tentei explicar rapidamente que o Temer tinha sido vice-presidente da Dilma e que se aliara a uns golpistas da Câmara e do Senado e com apoio da grande mídia assumira o poder e que Marcela era a sua mulher, jovem, bonita, prendada e do lar. O povo não se conformava com isso, porque estava perdendo todos seus direitos e por isso gritava “Fora Temer”

O argentino disse que não se metia com a política, ma que no seu país, também assumira um presidente inimigo dos interesses do povo e que, logo voltasse para a sua Comodoro Rivadávia, ia iniciar também uma campanha de “Fuera Macri”

Ele queria que fôssemos tomar “uma copa de vino”, mas expliquei que não podia deixar a Binoche esperando para sempre e marcamos um novo encontro para a próxima semana, quando vamos unir as campanhas “Fora Temer” e “Fuera Macri”.

Com tudo isso, acabei chegando atrasado no Guion, mas a Binoche ainda estava me esperando.

Sempre é hora

Aquele ex-craque de futebol e mais tarde técnico do Inter, Dino Sani, não era um homem brilhante em suas metáforas, basta lembrar duas delas: ” o futebol é uma caixinha de surpresas” e essa outra, “no futebol, se ganha, se empata ou se perde”.

Por que lembrei esse ditos acacianos?

Porque fiquei tentado a dizer que o facebook é um mundo onde todos estão representados, do futebol, às artes e principalmente à política e mesmo podendo escolher seus amigos pelos mais variados graus de afinidade, as vezes você é surpreendido pelas suas manifestações.

Feito esse longo introito, quero dizer que fiquei surpreendido com uma posição de Paulo Waimberg, advogado, poeta brilhante e meu antigo companheiro de peladas nos campos da PUC. Comentando um artigo de outra pessoa, Paulo concordou com aquela visão de que Raduan Nassar, ao receber o Prêmio Camões, tenha aproveitado para criticar o Temer e seu governo de golpistas. Não era a hora, disse a autora, com o que Paulo concordou e um discordo enfaticamente. Sempre é hora de denunciar a injustiça e na política isso é mais importante ainda porque afeta milhões de pessoas.

Um pouco para me exibir e outro tanto para ajudar as pessoas mais novas que talvez não conheçam o evento, resolvi lembrar o famoso discurso de Miguel Unamuno, reitor da Universidade de Salamanca, em 1936, em resposta ao general Milla Astray, fundador da Legião Estrangeira. “Agora mesmo ouvi um grito necrófilo e insensato, ‘Viva a morte’. Eu devo dizer-lhes que considero este esdrúxulo paradoxo repelente. O General Astray é um aleijado, que isso seja dito sem nenhum sentido pejorativo. Ele é um inválido de guerra. Cervantes também era. Infelizmente há demasiados aleijados na Espanha agora. Entristece-me pensar que o general MillánAstray venha ditar o padrão da psicologia de massas. Um aleijado que não possui a grandeza espiritual de um Cervantes acostuma-se a buscar alívio produzindo mutilados em volta dele.”


“Estamos no templo do intelecto. E nele eu sou o sumo sacerdote. São vocês que profanam esses espaços sagrados. Vocês vão vencer, por que têm mais que o necessário de força bruta. Mas vocês não convencerão. Pois para convencer é preciso persuadir. E para persuadir vocês necessitarão o que não têm: razão e justiça na luta. Eu considero fútil exortá-los para que pensem na Espanha”
Talvez não fosse a hora, mas ainda bem que Unamuno disse o que disse.
Então, para manter a coerência # Fora Temer.

Tarso x Moro

 

A rigor não houve um debate Tarso x Moro, ao estilo dos famosos debates entre Kennedy e Nixon, Lula e Collor ou até mesmo entre Frost e Nixon, que transmitidos pela televisão, tiveram importantes conseqüências históricas e políticas.

Tarso Genro foi arrolado como testemunha de defesa de Lula num processo do Lava Jato e respondeu por vídeo conferência as perguntas, inicialmente dos advogados de defesa e de acusação por quase uma hora e apenas no final, foi interrogado pelo juiz Moro.

Além disso, a televisão não transmitiu o evento e o que os brasileiros puderam ver foram as imagens e o som que veio de Curitiba através do precário sistema de gravação do tribunal, disponível no youtube.

Certamente, o que ocorreu em Curitiba não vai mudar a opinião das pessoas sobre os dois personagens, mas deveria, como foi nos casos de Kennedy, Nixon, Lula e Collor.

Depois de ter sido considerado vencedor nos debates pelo rádio, Richard Nixon fez o último debate nas eleições presidenciais norte-americanas de 1960, contra John Kennedy, em Chicago, no dia 26 de setembro,numa transmissão feita pela televisão, na época em preto e branco e assistida por 60 milhões de expectadores.

Segundo os analistas políticos da época, um Nixon inseguro e com a barba por fazer, o que lhe deu um aspecto doentio, foi amplamente batido por um Kennedy, bronzeado e agressivo nos debates. O resultado se espelharia nas urnas, com a vitória do democrata com uma vantagem de 0,1% na votação popular.

Nixon, depois da sua renúncia à Presidência, seria protagonista de um outro debate célebre, em 1977, quando para receber um cachê de 600 mil dólares, concordou em ser entrevistado em três programas pelo jornalista inglês David Frost.

Durante essa série, que ficou conhecida no mundo inteiro pela sua versão cinematográfica, Nixon, instigado pelo repórter, acabou confessando que sabia antecipadamente do caso Watergate, que até então negara conhecer.

 

Na televisão brasileira, o caso mais famoso ficou sendo o debate entre Lula e Collor na Rede Globo, em 13 de dezembro de 1989, não tanto pelo debate em si, mas pela manipulação  que a Globo fez no dia seguinte, vésperas das eleições, no Jornal Nacional,  quando mostrou uma montagem que só apresentava os melhores momentos  de Collor e os piores de Lula.

Sem a mesma importância desses debates, o diálogo entre Tarso e Moro serviu para desmistificar a figura do juiz paranaense, não apenas sob o ponto de vista político, mas também em termos de apresentação pessoal.

Realmente, como Nixon em 1960 e Collor em 89, falta a Moro “le fisique de role” para desempenhar o papel do grande justiceiro que a mídia e parte da população atribuem a ele.

Titubeante, nunca olhando para a câmera, falando com uma voz quase sumida, realmente está longe da figura majestática que lhe atribuem.

Tudo isso não seria importante, se suprisse essas deficiências com uma demonstração de lucidez, inteligência e respeito aos procedimentos jurídicos.

Não foi o que aconteceu.

Ainda que alertado pelos advogados, que a testemunha, Tarso Genro, lá estava para responder sobre as acusações contra Lula no processo da Lava Jato, de se beneficiar com a corrupção na Petrobrás, insistiu em perguntas alheias ao processo, sobre procedimentos internos no PT, durante o período que Tarso exerceu a presidência do partido.

Mesmo podendo se negar a responder essas perguntas, Tarso as respondeu de uma maneira civilizada, clara e objetiva.

Seu depoimento foi uma verdadeira aula de como deve ser um procedimento ético na vida política, e uma dura crítica ao atual modelo eleitoral brasileiro.

Pena que seu discurso tenha caído nos ouvidos moucos de Moro.

Verdade ou mentira

Um amigo reclamou que muitas histórias que conto na minha página no Facebook, ou no meu blog, parecem puras fantasias.

As vezes são mesmo.

Eu expliquei a ele que era uma forma de dramatizar determinado fato em busca de uma verdade mais profunda e exemplifiquei com o filme “A Chinesa” (La Chinoise) de Jean Luc Goddard.
Na época, começavam as maiores divergências entre os partidos comunistas da URSS e China (1967). Estudantes chineses que estudavam em Moscou, convocaram a imprensa ocidental para denunciar que foram espancados pela polícia russa quando faziam uma manifestação em favor de Mao Tse Tung.
O porta-voz dos estudantes tinha o rosto coberto de ataduras.
Quando terminou seu relato, tirou as ataduras e todos perceberam que seu rosto não sofrera nenhum arranhão. Quando os jornalistas começaram a gritar – fraude…fraude – ele explicou que realmente não fora ferido, mas as ataduras eram apenas um recurso para dramatizar sua narrativa e assim lhe emprestar mais realismo.
É o que eu, modestamente, tento repetir.


Em abril, devo visitar a Rússia e fiquei imaginando o que o Presidente Putin estaria pensando sobre minha próxima visita e escrevi sobre isso.
Quando soube que eu iria à Rússia em abril, me ligou o Putin. Queria que eu levasse uma camisa do Inter (diz que é vermelho desde criança) e um pacote de mariolas de Santo Antônio. O pior é que ele quer marcar um jantar no Kremlin para que eu cozinhe o meu famoso “camarão ao catupiri”. Não posso me negar para não criar um incidente internacional.
Essa história do telefonema e a próxima que falo de um passado encontro com Gorbachev ,você acredita se quiser.

A viagem à Rússia, Moscou (Moskva) e São Petersburgo (Leningrado), porém, é rigorosamente verdadeira.

Quando estive pela última vez no Kremlin, quem pensava que mandava no País, era o Gorbachev.
Não mandava em lugar nenhum. Na Rússia, o bam-bam-bam era o Ieltsin e em casa, a Raísa.

O Putin ainda era da KGB, mas eu avisei ao Gorba: cuidado com esse cara que ele vai longe. O Gorba achava que o Putin só queria saber de lutar caratê. Respondi que ele ia dar um ypon em todo o mundo. Não deu outra.
Eu também avisei o Gorba: para que parasse com aquelas frescuras de perestroika e glasnost, senão os americanos iriam tomar conta de tudo.
Ele não quis me ouvir e foi o que aconteceu. Hoje, os russos podem comer no Mac Donalds e tomar Coca Cola,mas a vida só melhorou para poucos.
Agora, o Putin está tentando recuperar o terreno perdido, más não consegue agradar todo o mundo.
Algumas das minhas amigas,por exemplo, reclamam que ele é, as vezes, um pouco machista e querem que eu lhe entregue um abaixo assinado das mulheres gaúchas, que começa com aquela famosa frase do Guevara “hay que endurecerse pero sin perder la ternura jamás”, assim mesmo em espanhol.
Não sei se o Putin vai entender e se entender, vai gostar.

Em todo o caso, como não sou nenhum machista, vou levar o abaixo assinado e entregar ao Putin logo que desembarcar em Moscou.

Todas essas fantasias ficam pequenas diante do que aconteceu na noite de 30 de outubro de 1938, quando um programa radiofônico da CBS nos Estados Unidos foi interrompido por uma edição extraordinária de notícias anunciando que a Terra estava sendo invadida por marcianos, gerando pânico nas grandes cidades americanas, principalmente New Jersey e New York, de onde a transmissão estava sendo feita.

A ideia, produção e apresentação foram de Orson Welles, que fez uma radiofonização de um livro de Herbert Wells, Guerra dos Mundos, usando recursos do rádio jornalismo, como reportagens externas, entrevistas com testemunhas que estariam vivenciando o acontecimento, opiniões de peritos e autoridades, efeitos sonoros, sons ambientes, gritos, a emoção dos supostos repórteres e comentaristas.

A CBS calculou, na época, que o programa foi ouvido por cerca de seis milhões de pessoas, das quais metade o sintonizou quando já havia começado, perdendo a introdução que informava tratar-se do radio- teatro semanal. Pelo menos 1,2 milhão de pessoas acreditou ser um fato real. Dessas, meio milhão teve certeza de que o perigo era iminente, entrando em pânico, sobrecarregando linhas telefônicas e tentando fugir das cidades que estariam sendo atacadas.

 

O juízo final

Depois que os padres deixaram de rezar missa em latim, o ritual católico perdeu muito do seu encanto e alguns fieis.

Eu por exemplo, até os 15 anos, tinha assinatura da missa das 10 Igreja São João,  um pouco pela minha campanha de um dia chegar ao céu e muito por aquela menina, que também era assídua naquele horário.

Os homens ficavam do lado direito e as mulheres à esquerda, pelo menos os solteiros e eu, nunca tive coragem de atravessar aquela linha de separação, para, quem sabe dizer a ela que éramos irmãos em Cristo e talvez isso valesse um matinê no cinema Rosário.

A igreja, não só trocou o latim pelo português, numa estratégia inadequada de marketing, como foi abandonando aos poucos aqueles seus grandes mitos.

O que e era real, virou simbólico e aí, perdeu a graça.

Por exemplo, o Juízo Final.

A gente imaginava um evento maior do que a final da Copa do Mundo, o Rock in Rio ou o Super Bowl, de acordo com a Bíblia.

Todos os vivos e mortos tinham direito a este juízo final e definitivo para o qual não havia apelação.

Era o céu ou inferno.

E não eram apenas as almas que iriam comparecer. Eram as almas e os corpos, segundo nos ensinaram.

Milhões e milhões de almas com seus corpos (seriam os corpos em que fase da vida?).

Iria faltar espaço, mas certamente Deus tinha muito auxiliares entre anjos e santos para resolver esse problema de logística.

Imagino que os corpos voltariam para os lugares onde viveram.

Meu pai teria problemas para se localizar em Porto Alegre. Enquanto estava vivo, até 1969, ele insistia em chamar a Salgado Filho de 10 de Novembro, a Marechal  Floriano, de Rua dos Bragança e a André da Rocha, de Beco do Oitavo, quando elas já tinham mudado de nome há muito tempo.

Com as novas perimetrais e viadutos, acho que teria que servir de guia para o “seu” Alcides , enquanto estivéssemos esperando  a  vez de sermos  chamados para ouvir nossas sentenças.

Parece, porém, que a Igreja já disse que devemos ler essa história como um simbolismo.

Vamos, então, perder um grande espetáculo, maior ainda que aquele do filme do Cecil B. de Mille, que ele chamou de “O Maior Espetáculo da Terra”.

(Para os cinéfilos: O Maior Espetáculo da Terra (The Greatest Show on Earth) foi dirigido por Cecil B de Mille, tinha entre seus principais atores Charlton Heston, James Stewart, Betty Hutton e Cornel Wilde e ganhou o Oscar de melhor filme em 1952)

Vamos falar sobre hipocrisia


Vamos falar da hipocrisia do Lava Jato e das licitações e concorrências em geral.
As concorrências nos órgãos públicos foram criadas exatamente para permitir a corrupção. Seria muito mais honesto e econômico se cada um deles pudesse escolher o fornecedor de sua confiança.

Como diretor de criação de várias agências de propaganda em Porto Alegre, participei de inúmeras concorrências para as contas publicitárias de órgãos públicos e a gente sempre sabia antecipadamente quem iria ganhar a fatia maior do bolo e quem receberia, no máximo, um prêmio de consolação.

Ninguém duvidava que as agências de propaganda que haviam investido antes na campanha publicitária que ajudara a eleger o novo governador, ou o novo prefeito, ficariam com a parte de leão e que aquelas outras agências, não importa a criatividade, que haviam escolhido o candidato derrotado, sabiam também que teriam que esperar quatro anos por uma nova oportunidade.
E tudo era feito de acordo com a lei.

Nesse tipo de concorrência, quase todas as agências somavam o mesmo número de pontos nos itens técnicos, mas um item totalmente subjetivo – criatividade – permitia que se fizesse a diferença entre os amigos da casa e os outros.E contra isso não havia recurso, porque, afinal, gosto não se discute. É claro que este é um pequeno deslize, que não pode ser chamado de corrupção, ainda mais comparado com o que descobriu a Lava Jato.

Quando Fernando Henrique, Lula e Dilma se elegeram Presidente, isso só foi possível porque, por trás deles, havia uma coligação de partidos, que agora iria indicar seus membros para comandar os órgãos mais importantes do governo.

Eram os compromissos de campanha que teriam que ser cumpridos sob pena de não haver condições de governabilidade para quem estava iniciando seu trabalho.

São as tais cotas partidárias, que ficam acima da vontade do Presidente, que quando muito pode ter ao seu lado um ou dois políticos, identificados então como “da cota pessoal do Presidente”.
Alguém pode, honestamente, dizer que foi a Dilma quem indicou por vontade própria, por exemplo, este Cerveró, o outro pilantra da mesma estirpe, para afanar na Petrobrás.

Claro que não. Ele e os outros eram indicações partidárias.
Este comportamento pouco ético que permeia as relações entre governos e empresários é inerente a todo o sistema capitalista e é igual no Brasil, nos Estados Unidos ou no Japão.
Como disse aquele juiz amazonense Luís Carlos Valois, presidentes e governadores almoçam e jantam com os ricos e essas são sempre boas horas para tratar de negócios.

Essa semana, o ex-presidente Obama foi visto na ilha de Necker, de propriedade do bilionário inglês Richard Branson, no Caribe, se hospedando num resort para 34 pessoas, alugado aos outros, não a Obama, por um preço de 80 mil euros a diária.

Então, parece uma grande hipocrisia da Lava Jato misturar o louvável combate à corrupção, com denúncias políticas que envolvem apenas uma facção política, no caso a do PT, quando essa convivência pouco saudável entre políticos e grandes empresários sempre existiu, não apenas no Brasil, mas no mundo inteiro capitalista

Descobrindo o mundo

Descobri aos poucos que o mundo não se dividia em bons e maus e que Deus costumava recompensar os bons e castigar aos maus, num longo processo de sofrimento e dor.

Não é simples abandonar as certezas que nos ensinaram em casa, na escola e na igreja e vagar pelas incertezas de um mundo sem Deus, e onde ser bom ou mau é apenas uma questão pessoal e não nos dá direito a reivindicar prêmios ou castigos numa hipotética e segunda vida.

Mas se houve um momento em que esta ruptura com o passado ficou clara, foi numa noite, no velho Teatro São Pedro, no distante ano de 1957.

Era uma noite fria de inverno gaúcho, e eu, nos meus gloriosos 18 anos, num silêncio quase religioso, junto com mais uma centena de pessoas, assistia a estréia em Porto Alegre da peça de Jean Paul Sartre, “Entre Quatro Paredes” (Huis Clos), com Tônia Carrero, Paulo Autran e Margarida Rey, com direção de Adolfo Celli, quando fiz uma descoberta que iria me acompanhar pela vida inteira, que “o inferno são os outros”.

Sartre era um dos papas do existencialismo e dizia que estamos condenados à  liberdade e sua peça nos mostrava como essa liberdade nos custava caro.

Numa sala fechada, sem espelhos, três personagens são obrigados a se verem através dos olhos dos outros dois e discutir tudo que não foram em suas vidas.

Garcin, o escritor, se pretendia um herói, mas não passa de um covarde; Estelle, uma pequena burguesa fútil que foge da sua culpa por ter matado o bebê que teve com um amante e Inês, a lésbica, que se dedicou em vida a atormentar os outros.

Estelle tenta seduzir Garcin, que tem medo que ela descubra sua covardia, enquanto Inês procura jogar um contra o outro.

A conclusão de Sartre, que Garcin verbaliza e que todos nós saímos do teatro, naquele distante ano de 1957 concordando, é que realmente o inferno são os outros

Essa é a liberdade da qual não podemos fugir: o de fazer o papel que nos foi destinado nesse jogo.

É interessante como as pessoas da minha geração aprenderam valores que iriam levar pela vida inteira através da ficção, do teatro, dos livros, do cinema.

O humanismo socialista, antes de Marx, Lenin eTrotsky, nós o conhecemos nas páginas de Les Thibault, acompanhando a vida de Jacques Thibault.

Beethoven, Mozart e Bach, nos foram apresentados por Romain Rolland em Jean Christophe.

O ateísmo, que substituiu aquela incômoda religiosidade herdada da infância em colégios de padres, começou a ser construído com a leitura do drama de Jean Barois, muito antes de Richard Dawkins nos provar que Deus é um delírio

Foi lendo os poemas de A Rosa do Povo, de Carlos Drummond de Andrade, que descobrimos que a poesia podia ser revolucionária.

Foi nas salas escuras dos cinemas Ópera, Continente e no pequeno Palermo da Rua 7 de Setembro, que aprendemos com  Jules Dassin (Aquele que deve morrer), com Alain Resnais (Hiroshima meu amor) e com Stanley Kubrick (Glória feita de sangue), que o cinema,  mais do que uma indústria do passatempo, poderia ser um instrumento poderoso para transformar o mundo.

Não era uma época de certezas, mas de grandes dúvidas. Um dia, éramos comunistas estalinistas, no outro, trotskistas convictos, mais adiante pensávamos que a única resposta estava no anarquismo.

Todas essas certezas pareceram desaparecer quando lemos, com alguns anos de atraso, a trilogia de Sartre, Os Caminhos da Liberdade (Les Chemins de la Liberté) – A Idade da Razão (L´Age de Raison), Sursis (Le Sursis) e Com a Morte na Alma (La Mort dns l´ Âme).  Nosso herói, por algum tempo, passou a  Mathieu, o cínico e incrédulo professor de filosofia.

Naquele Brasil ensolarado do final dos anos de JK, cheio de energia e vigor, queríamos ser soturnos, como o personagem criado por Sartre e que segundo todos diziam, reproduzia a sua vida numa França assustada com a guerra fria e com medo da destruição atômica

Mas logo a vida nos chamaria para novas revelações. Os gloriosos anos da primeira década de 60, quando tudo parecia ser possível num Brasil que achávamos às portas da revolução, terminariam em breve no drama do golpe militar de 1964.

Mas, então, o que era apenas ficção, virou realidade.

Tantos anos depois daquela noite de descobertas no Teatro São Pedro, nos perguntamos, quantas coisas ainda existem para serem descobertas nos livros, no cinema, no teatro?

Apenas um homem bonito

Ele era um homem bonito. Apenas isso, o homem mais bonito de todos os homens de Porto Alegre.

Ele sabia disso. Bastava se  olhar no espelho para confirmar essa verdade, não havia um homem mais bonito que ele.

Quando pequeno, sempre ouvia a mãe dizer que beleza não põe mesa, mas ele era a melhor prova de que a mãe estava enganada. Sua beleza não punha apenas mesa, mas punha tudo que ele quisesse, apartamento de luxo, automóvel do ano, viagens à Europa em primeira classe, dólares e euros em profusão nos bolsos.

Aos trinta e poucos anos, ele vivia de ser bonito.

Mas, nem sempre fora assim.

Ele nascera e crescera como uma pessoa feia. Na adolescência era magro – um pau de vira tripa, dizia o pai – o rosto encovado fazia com que seus dentes saltassem para fora da boca. O rosto era cheio de espinhas e o cabelo era cortado sempre rente, porque a mãe implicara que ele tinha “cabelo ruim”, como o pixaim dos negros. Ela dizia que a culpa era do pai, “que tinha uns parentes com o pé na África”.

Na escola, era ignorado pelas meninas e até os 16 anos permaneceu virgem,  obrigado a se auto-satisfazer sexualmente.

Foi nessa idade, que as coisas começaram a mudar.

Ele lembra exatamente o dia ,  que pediu à mãe para repetir o café com leite, pão e manteiga. Daí em diante, sua dieta mudou: carne,  ovos, pão, nada chegava.  Os seus 60 quilos se transformaram rapidamente em 80. Os dentes se esconderam dentro da boca, as espinhas desapareceram e o cabelo,que ele se recusou a continuar cortando, cresceu louro e sedoso.

Como sempre caminhou muito e ia de bicicleta para a escola, não ficou gordo, ficou forte. Ficou bonito, cada vez mais bonito.

Aquelas meninas, que antes não olhavam para ele, agora disputavam sua atenção. E ele, até para se vingar da indiferença  do passado, foi levando uma a uma para cama, sem nunca se comprometer com nenhuma delas .

Ele agora era um rapaz bonito, muito bonito e logo seria um homem bonito, muito bonito e então se deu conta de que na sociedade em que vivia, essa qualidade poderia ser um diferencial muito importante.

Passou então a explorar sua beleza, viver do fato de ser um homem bonito.

Começou a fazer anúncios e filmes de homem bonito que usa coisas bonitas, que outros homens não tão bonitos, compram para parecerem bonitos.

Seu rosto, cada vez mais bonito, começou a aparecer em todas as revistas da moda.

De todas as mulheres disponíveis, cada uma delas mais bonita que a outra, escolheu para casar uma que era tão feia quanto ele fora na adolescência.

Ela tinha outro tipo de beleza: uma conta bancária inesgotável

Então, além de bonito, ele se tornou um homem rico, muito rico.

No domingo, dia 12 de fevereiro de 2017, quando completava 33 anos, ele acordou na sua mansão à beira do Rio Guaíba, às 10 horas e 23 minutos, ainda cansado da longa noite de orgia que vivera, depois de levar para sua cama três lindas mulheres e se olhou no grande espelho importado da Itália, que ocupava quase toda uma parede do quarto.

Viu, então, com assombro duas coisas que ele pensou nunca ver: uma ruga que começava embaixo da pálpebra do olho direito e descia, ainda quase invisível, pelo lado do rosto e um pequeno fio de cabelo branco, na têmpora esquerda.

Seu corpo foi encontrado na segunda feira pela empregada, Maria de Lourdes, deitado sobre a cama, morto com um tiro no ouvido.

O que fazer?

 

No início do século passado, Lenin escreveu um livro clássico para o movimento socialista russo, tentando responder quais suas tarefas mais imediatas, num momento em que ele estava disperso e desorganizado, cujo título era uma pergunta: o que fazer?

Talvez esteja faltando alguém que diga hoje para as esquerdas brasileiras o que fazer nesse momento de derrota e perplexidade geral.

A professora Céli Pinto, do Departamento de História da UFRGS, faz uma tentativa nesse sentido, num artigo muito interessante que escreveu para o Sul 21, com o título “Eles fazem o que querem, porque podem”

Eles, são os golpistas que se apossaram do poder e agora chegaram a este ponto, inimaginável tempos atrás:  o Temer indicar o seu Ministro da Justiça  para o Supremo Tribunal Federal  e isso não causar nenhuma reação maior da classe política, para não falar da população, totalmente indiferente ao que acontece em Brasília.

O que se pode sentir na leitura do artigo da Professora Céli, é o seu profundo desalento pela falta de qualquer perspectiva de reação.

E, não é apenas ela.

Todos nós, ao que parece, sentimos o mesmo.

Como ela disse, “eles fazem porque podem fazer”.

Estamos como o José, do poema clássico de Carlos Drummond de Andrade, sozinhos no escuro e sem saber o que fazer.

“Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope
você marcha, José!
José, para onde”.

Arrisco a dizer que o atual arremedo de democracia em que vivemos é pior que a ditadura, que os mais velhos experimentaram a partir de 64.

Naquela ocasião, a divisão era clara. Era mais fácil escolher um lado. A democracia contra a ditadura.

Lutávamos – uns mais, pegando até em armas, os mais corajosos, como a Presidenta Dilma –  e outros, com menos coragem, como a maioria de nós, torcendo pelos mocinhos contra os bandidos. Mas estávamos unidos, lutando pela mesma causa, quando mais não fosse, ouvindo as músicas de protesto do Chico.

“Num tempo
Página infeliz da nossa
história
Passagem desbotada na
memória
Das nossas novas
gerações
Dormia
A nossa pátria mãe tão
distraída
Sem perceber que eram subtraídas
Em tenebrosas transações”

Hoje, dizem que vivemos numa democracia, uma estranha democracia, onde um grupo de parlamentares, eleitos com o dinheiro de empresários e pelo obscurantismo de seitas religiosas, com o apoio da mídia e a indiferença geral da população, revoga o resultado de uma eleição legítima.

Dizem que os direitos são respeitados, mas um governo nascido na ilegalidade retira conquistas históricas dos trabalhadores.

Jornais, revistas e televisão, em voz uníssona, transformam em figura nacional, um juiz de província, que usa seu poder para misturar casos policiais com políticos.

Apesar de todos esses sinais de que o Brasil está se transformando naquela imagem clássica que os americanos sempre tiveram de nós – uma república das bananas – não se vê, ou se vê muito pouco – sinais de reação.

O que se discute como opção para a resistência?

Lula em 2018?

Se o que disse a Professora Céli está certo, de que eles podem tudo, alguém pode imaginar que eles permitirão uma candidatura do Lula com chances de vitória?

Nunca é demais relembrar o que disse Carlos Lacerda, quando Getúlio se lançou como candidato em 1950.

“O senhor Getúlio Vargas, senador, não deve ser candidato à Presidência. Candidato, não deve ser eleito. Eleito, não deve tomar posse. Empossado, devemos recorrer à revolução para impedi-lo de governar”.

Embora chamasse de revolução, o que Lacerda ajudou a construir foi um golpe de estado que acabou em 54 com o suicídio de Vargas.

Retornando ao ponto de partida, voltamos à pergunta que a Professora Céli não respondeu em seu artigo ou respondeu de forma vaga, o que fazer?

“É duro para nós ter de dizer isto, mas se não nos convencermos da urgente necessidade de nos recolocarmos politicamente na arena pública, não teremos como reagir”.

Diz ela, finalizando seu artigo.

O que me parece, é que existe hoje no Brasil é uma batalha pelos corações e mentes das pessoas e essa batalha se trava fora da arena política, se imaginarmos esta arena como um local onde atuam partidos e políticos.

A primeira tarefa é identificarmos nossos inimigos.

Hoje, a maior inimiga das esquerdas é a grande mídia e é contra ela que devemos iniciar essa batalha.

E ela quem legitima o estado de exceção em que vivemos e convence os brasileiros que não vale à pena lutar por uma sociedade mais justa e humana.

Aqui no Rio Grande do Sul, ela se chama RBS.