A esquerda sem rumo

No momento em que nós, da esquerda parecemos ter uma só perspectiva – salvar Lula e garantir sua eleição – seria importante lembrar no que somos diferentes dos outros partidos.

Lenin dizia em 1917 que ”comunismo é todo poder aos sovietes, mais a eletrificação”. A eletrificação de que nos falava Lenin, pode ser traduzida hoje no reconhecimento e no atendimento das necessidades dos indivíduos, porque na miséria não existe nenhuma forma de socialismo.

Em vez disso, o que se ouve dos representantes da esquerda é a necessidade de mostrar eficiência na administração da coisa pública, o que a direita também sabe fazer.

Em seu pequeno livro A Esquerda Que Não Teme Dizer Seu Nome, Vladimir Safatle nos dá o exemplo do Partido Comunista Italiano, que já foi o maior do Ocidente e hoje praticamente não existe mais.

Durante anos, ele esteve a margem do governo, conquistando prefeituras importantes, como Bolonha, a fim de se credenciar para comandar o País.

Quando isso ocorreu, e seu secretário-geral, Massimo D´Alema, assumiu o cargo de primeiro ministro, tudo que fez foi tentar provar que poderia governar e realizar os ajustes fiscais exigidos para que a Itália participasse da Zona do Euro

Os ajustes que os governos de direita não tinham conseguido fazer por causa da resistência dos sindicatos, o PCI, no poder, conseguiu.

O resultado foi passar ao povo a mensagem que esquerda e direita são iguais.

Qualquer semelhança com o que fez a Presidente Dilma no início do segundo mandato,não é mera coincidência.

Fazer o mesmo que a direita pretende fazer, não é uma boa política para as esquerdas, nem a italiana, nem a brasileira.

Para as duas falta um projeto que deixe claro para seus eleitores em potencial no que elas são diferentes das demais forças políticas.

Hoje, o que parece ser o único projeto da esquerda brasileira é acreditar que Lula possa ser candidato em outubro, ganhar a eleição e refazer o projeto de governo do PT, que o golpe parlamentar de 2016 liquidou.

Em longa entrevista que deu no fim de ano para a imprensa brasileira, mas que só o jornal Valor Econômico divulgou com maior destaque, Lula voltou a se defender das acusações que lhe faz a Lava Jato e prometeu o retorno do Brasil aos bons tempos do seu governo.

Ele reafirma sua inocência, acredita que vai ser absolvido das acusações do juiz Moro, dia 24 no TF4, em Porto Alegre, porque não existe nem uma prova contra ele e sua condenação “seria a negação da Justiça”.

Espicaça o Procurador Federal Dalton Dallagnol, dizendo que “ele deveria ser exonerado a bem do serviço público. Não é possível alguém ganhar tanto do Estado para contar a mentira que ele contou”.

O mais importante do que disse Lula, são suas promessas em um hipotético novo governo: valorização do salário mínimo; federalização do ensino médio;  volta dos investimentos do Estado na economia gerando empregos e renda ; reforma tributária para que o rico pague mais imposto que o pobre; taxação das grandes fortunas  e referendo revogatório sobre as leis criadas com Temer.

Com sua linguagem bem típica, prometeu que, se eleito, “pobre vai voltar a comer peito e coxa de frango outra vez, comprar picanhazinha no domingo e fazer viagens de avião”.

O que assustou na entrevista, é a sua visão sobre a política de alianças: “não adianta ser tão puro na avaliação política e na hora de perguntar- quantos deputados você tem, aí diz que não tem nenhum. Aí a pessoa fala: tem que negociar com o povo, mas o povo não está lá dentro do Congresso para negociar”. ´

Será que o Lula vai continuar a ser o velho pragmático do passado? Parece que sim, quando nega ser um radical: “Não tenho cara de radical nem o radicalismo fica bem em mim.” Depois de lembrar que em 2002 escreveu uma carta ao mercado, diz que agora vai falar só com o povo porque “este mercado injusto nunca me agradeceu por tanto que ganhou”.

Hoje, depois do golpe parlamentar que afastou Dilma do governo, da ação permanente de uma justiça partidarizada, que busca afastar da disputa política o único grande nome do PT e dos interesses do empresariado nacional e das multinacionais, mais do que nunca contemplados pela ação do governo Temer, será possível pensar que todas essas forças conjugadas, diretamente apoiadas pelos maiores veículos da mídia, permitirão a volta do Lula?

Mais do que nunca, volta à nossa memória, a famosa declaração de Carlos Lacerda, quando em 1950, Getúlio Vargas se preparava para disputar as eleições presidenciais: “Getúlio não pode ser candidato, se for, não pode ganhar, se ganhar, não pode ser empossado, se for empossado, precisa ser derrubado”.

Como todos nós lembramos, Getúlio superou todas as fases, foi candidato, ganhou as eleições, foi empossado e foi derrubado em 1954.

 

Os pedalinhos da Redenção

Porto Alegre, 2 de janeiro, meio-dia, 36 graus à sombra, nem uma brisa soprando. Estou de terno e gravata esperando o T5 na Osvaldo Aranha e maldizendo a minha sina de viver numa cidade sem praia e, pelo jeito, sem ônibus também.

Enquanto isso, alguns uns caras estão fazendo feriadão em Garopaba, Bombinhas e até mesmo em Cidreira.

Será que alguém que esteja lendo essa história, com a camisa amarfanhada e o suor correndo pelo rosto, cobrindo como uma névoa a lente dos óculos, pode entender porque insisto em ficar por aqui, quando podia estar a beira-mar, com um chope bem gelado e uma casquinha de siri pela frente, enquanto lindas mulheres circulam, seminuas, pela areia da praia?

Certamente, ninguém, até porque para entender esta louca preferência, teria que conhecer uma história acontecida há 33 anos e isso é muito improvável porque nunca a contei para alguém.

Faço isso hoje, porque terminou no último dia 31 de dezembro a promessa que fiz de guardar segredo sobre aquele estranho acontecimento do verão de 1984

Naquela ocasião, eu e mais um milhão de gaúchos tínhamos programado sair em procissão pela freeway, no final do ano, em direção ao litoral, na busca daquelas delícias que as nossas praias oferecem: o mar sempre marrom, com águas frias a desafiar a nossa valentia de gaúchos machos, restaurantes de comida cara e ruim e, à noite, a tão esperada sinfonia de mosquitos zumbindo em nossos ouvidos.

Tudo pronto para a partida dos intrépidos adoradores do mar, um telefone misterioso mudou minha vida e desfalcou o grupo deste que agora escreve este texto..

Uma voz misteriosa de mulher disse num sussurro:

– Deixa tudo para trás e venha me encontrar nos pedalinhos da Redenção.

– Agora, às 11 da noite, é pedir para ser assaltado.

– Não tenha medo, vale a pena.

E eu fui. Ela me esperava no lago, junto aos pedalinhos. Uma mulher maravilhosa, dessas que só existem nos filmes de Hollywood.

Como essa é uma publicação que as famílias costumam ler, não vou dar detalhes do que aconteceu. Fica por conta da imaginação de cada um. Só não seja tímido.

Pense nas imensas possibilidades que o lugar oferece, com posições nada ortodoxas, dentro do pedalinho, nos gramados próximos e até no lago. Nada disso, deixei de experimentar.

No final, ele me fez uma promessa, mas impôs uma condição.

Nos encontraríamos, sempre na última noite do ano, junto aos pedalinhos da Redenção, mas eu teria que abandonar em definitivo os fins de semana na praia.

E assim, foi durante os últimos 33 anos. O passar dos anos não mudou em nada a beleza dessa mulher sem nome, o que, diga-se de passagem, sempre acontece com estas personagens misteriosas.

Eu, porém, fui envelhecendo, o que me obrigou, a partir de determinado momento a buscar apoio nesses novos afrodisíacos químicos, mas nunca a decepcionei.

Até que no último dia 31, ela me avisou que a nossa aventura chegara ao fim. Por razões que escapavam ao meu entendimento e a sua vontade, ela não retornaria no próximo ano.

Mesmo assim, vou continuar esperando, bem longe do mar, apesar do calor.

Quem sabe ela muda de ideia.

De qualquer maneira, eu já não tenho mais bermudas e muito menos sunga, para pensar em fim de semana na praia.

Caso alguém queira conferir, acho que os pedalinhos ainda existem na Redenção. Só não tente encontrar a mulher misteriosa porque ela está aprisionada na minha imaginação.

O Homem

Na década de 60, eu era redator de notícias da TV Piratini e queria distância da publicidade e via com desconfiança a ação daqueles sujeitos de gravata, os contatos das agências, sempre querendo transformar em notícia, os releases dos seus clientes.

Foi quando surgiu o convite para trabalhar em uma delas, a Mercur, dirigida por um cara com fama de ser intratável, um carrasco para seus funcionários, o Hugo Hoffmann. Acho que foi o Ivanzinho Castro que me aproximou do “homem”, como todos se referiam a ele. Marcamos um encontro na sua agência. A proposta era tentadora, o dobro do salário que ganhava na televisão, mas com um inconveniente, era tempo integral e eu teria que deixar o curso de História da Faculdade de Filosofia, que frequentava pelo manhã, enquanto trabalhava à tarde na Piratini.

A reunião foi numa sexta-feira e me lembro de um questionamento dele, depois que soube que eu um adepto do socialismo.

– Como alguém que se diz socialista pode trabalhar numa empresa que defende o sistema capitalista?
Minha resposta, que foi desafiadora sem que essa fosse minha atenção, parece que agradou a ele.

– Estou sendo convidado para ser empregado da agência e não seu sócio.
Ficou combinado que começaria na segunda-feira.

Passei o fim-de-semana pensando na decisão e na segunda, resolvi avisar que não queria o emprego. Mais tarde, acabei me tornando publicitário, aceitando o convite do Faveco, quando já formado em História pela UFRGS, para trabalhar na Standard.

Numa época em que estávamos empenhados em criar o Clube de Criação, fizemos uma reunião na Mercur e pude ver na prática como o Hugo Hoffmann tratava seus empregados e não qualquer um deles, mas Barbosa Lessa, na época uma figura já legendária como pesquisador do folclore regional e que, certamente por razões financeiras, trabalhava como redator da agência. 

Ele simplesmente mandou que o Barbosa saísse da sala onde estávamos reunidos, para terminar um anúncio, que ele – Hoffmann, queria ver pronto imediatamente. Para a nossa surpresa, o Lessa obedeceu.
O Beto Soares, que na época também era da Mercur, acho que estava presente.

Um dos maiores clientes da Mercur era uma companhia de cigarros e o anúncio de uma de suas marcas, que se dizia ter sido feito pelo próprio Hoffmann, definia bem a sua personalidade autoritária:
O Homem Fuma Presidente, e Basta!

Warning

Tudo de novo. Estamos em 2018. Ainda bem que agora falta pouco. Então, vou começar a me repetir. O que se segue, eu escrevi exatamente há um ano.
Sei que já tem muita gente duvidando da minha sanidade mental ao lerem estes textos que estou postando aqui no feicibuque. Até eu mesmo, as vezes fico na dúvida. Mas, estão realmente acontecendo coisas estranhas comigo nesse início de ano e por isso preciso deixar tudo registrado aqui nesse espaço e nos emails dos meus amigos. Honestamente, pelo andar da carruagem (essa é uma imagem um tanto gasta e até o final desse texto pretendo substitui-la) estou até preocupado que possa ser abduzido. Antes que isso ocorra, estou autorizando a que pesquisem na memória ran desse computador todos os indícios de um possível interesse dos alienígenas por mim. Loucura? É bem possível. Um amigo me recomendou fazer acupuntura. Outro, banhos em águas termais de Iraí. A Ingrid garante que se sou louco, mas um louco manso, que não ofereçe perigo a ninguém. Faço toda essa introdução, por quê? Porque a história que vou contar a seguir pode ser lida como uma coisa de louco. Mas, juro que é a verdade, toda a verdade e nada mais do que a verdade. Essa madrugada, estava vendo pela terceira vez aquela série Narcos, quando subitamente a tela ficou toda a preta. Achei que tinham queimados os miolos do computador. Após alguns segundos começou a piscar em letras vermelhas WARNING, enquanto de fundo soava uma sirene estridente. Ainda bem que não matei todas as aulas de inglês no Julinho e entendi logo que era algum aviso importante. Isso logo ficou comprovado quando surgiu a águia americana e aquele topete inconfundível sorrindo para mim. Dear friend. Isso eu também entendi, mas logo a voz em inglês foi substituída por uma versão em português. Ficou engraçado o Donald falando com uma voz que parecia da Merryl Streep. Como tinha um delay entre a fala e a tradução, ou porque no computador é sempre assim, estava difícil entender o que ele(ou ela) dizia. Certa altura, me pareceu que ele tenha dito – o crioulo já foi embora. Acho que era problema de tradução. O cara não seria assim tão racista. De qualquer maneira, mais adiante vou voltar aqui para apagar essa expressão. Agora, ele (ela) pelo que entendi, disse que queria dar uma imagem mais democrática ao seu governo. Já tinha resolvido a cota racial ( um negro, um índio, e um amarelo) e a de gênero ( uma mulher, um gay, e um trans) e agora queria resolver o problema político. Precisava de um anarquista e um comunista no seu governo. Como não encontrara nenhum nos Estados Unidos, ficou sabendo que havia dois em Porto Alegre, o Pintaúde eu. Agora, ele queria saber quem era o que dos dois e se possível gostaria de saber a diferença entre anarquista e comunista. O Donald estava comprovando que era realmente um grande ignorante, mas o que fazer, se tratando de um americano não se poderia esperar muito. Exatamente nesse momento quando eu ia começar a citar o Karl Marx, a ligação sumiu. Alguém já me disse que os computadores americanos são programados para desligarem automaticamente quando registram alguns nomes como Marx, Lenin, Lula, Fidel, Brizola, Maestri, Santiago, Schroder, Ferreti. Por que Ferreti, não sei, mas os outros nomes faz sentido. Foi isso que aconteceu. Agora estou na dúvida se tudo foi um sonho ou o Donald está contando comigo e o Pinta em Washington/ Se for o segundo caso, preciso saber se vou precisar passaporte ou basta a carteira de identidade para chegar lá? Será que eles aceitam real nos States? Vai dar pra ver jogos do Inter pela Copa São Paulo na TV ? Preciso saber todas essas respostas antes de tomar uma decisão. Acho que vou perguntar para o Aldo. Ah…tenho que avisar o Pintaúde que ele é o anarquista nessa história. Não abro mão de ser o comunista

Como cheguei voando aos braços de Anita

Por razões óbvias, vamos chamá-la de Anita, deixando combinado desde já que esse não é o seu nome verdadeiro. Ela é minha vizinha, no andar debaixo, num prédio muito alto aqui na Zona Sul e motivo de desejo de todos os homens que circulam por aqui e acredito também de muitas mulheres.
Anita é linda, daquele tipo de beleza que é um insulto para a maioria das outras mulheres. Deve ter uns 30 anos, morena, alta, olhos verdes e como diria o Pinta, ela não caminha, flutua.
Vive com um cara que é professor de academia de ginástica e cujo braço tem a circunferência da minha perna. Nosso consolo é espalhar que ele é gay, obviamente tomando o cuidado de que ele não nos ouça.
Nessas últimas semanas, tenho vivido dividido entre duas fantasias, cair na cama da Anita e voar sobre a cidade, sem nunca ter me dar conta que a realização de uma, poderia ser o caminho para a conquista da outra.
Voar significa voar com as próprias forças, como fez o Ícaro, para os mais cultos ou o Super Homem,para a maioria.
Depois de uma longa pesquisa no Google, encontrei uma solução caseira para poder flutuar sobre Porto Alegre.
Usando centenas de sacos de supermercado (pelo jeito vou todos os dias no Zaffari) cheios de ar, fiz uma espécie de colchão, capaz de aguentar meu peso para um passeio aéreo que estimei em 30 minutos.
Tudo pronto, aproveitei o dia sem vento do sábado e me lancei ao espaço, a partir da janela do meu apartamento, no décimo quinto andar de um prédio aqui na Zona Sul.
E não é que a coisa estava funcionando. Movimentando alternadamente os braços, consegui dar alguma direção ao meu colchão voador.
Assim, cheguei próximo ao rio na região dos Jangadeiros e fui subindo até o Beira Rio, voei mais um pouco em direção à Praça da Harmonia e comecei a retornar até porque alguns sacos começaram a estourar.
Em cima da Assunção, me lancei direto em direção à janela do meu apartamento, quando me dei conta que a veneziana, mais uma vez tinha fechado sozinha
Já no desespero, dirigi meu colchão voador para a única janela que estava aberta, dois andares abaixo.
Não foi um pouso tecnicamente perfeito porque a minha nave ficou presa nas laterais da janela e eu fui jogado diretamente para a frente, indo cair, sabem aonde?
Exatamente na cama da Anita, que emocionada pelo risco que corri para encontrá-la, me acolheu nos seus braços, onde estou agora.
O único problema é que o marido dela avisou que está chegando e pela janela não pretendo mais sair.

O que é feito de Selma?

Nem lembro mais como a conhecera.Era uma época sem celular e sem internet. Possivelmente, cruzamos pela rua e nos interessamos, um pelo outro. Éramos menos desconfiados em relação aos desconhecidos. Eu nunca tinha encontrado uma mulher assim, tão segura de si. Casada, tinha um atelier de alta costura num edifício no Centro. Era rica e poderosa. Por alguma razão, eu desconfiava que ela poderia ser um travesti e por isso fiquei adiando o momento de convidá-la para a cama. Acredito que isso aumentou o interesse dela por mim. Quando finalmente chegou a consumação, ela mostrou quão sem sentido era minha dúvida. Quanto tempo durou essa relação?. Pouco. Um mal entendido sobre hora e local de um encontro, criou um mal estar entre os dois, que nenhum quis consertar. Depois de alguns dias sem a procurar – nem ela, nem eu, sabíamos os telefones fixos de cada um – me dei conta que não saberia como justificar minha ausência tão longa. Assim a história terminou num anti-climax e não sei porque razão me lembrei hoje de perguntar a mim mesmo: o que é feito de Selma?

(Obs.: Depois de tanto tempo, fico na dúvida se o nome dela era mesmo Selma)

Meus encontros com Elusa Maria;

Encontro a Elusa Maria no super. Fomos colegas na UFRGS. Na época, ela era considerada a mais evoluída da turma. O pessoal dizia que ela tinha começado a revolução sexual na Filosofia. Depois casou com o Mário Eduardo, da Engenharia, que segundo era voz corrente, tinha sido do CCC (Comando de Caça aos Comunistas) e parece que custou a se adaptar aos novos hábitos burgueses e à monogamia. A Elusa Maria, que encontro no super na área dos produtos orgânicos, virou como diria o Nelson Rodrigues, uma senhora gorda e patusca. Ela se diz escandalizada.
– Com o quê Elusa Maria?
– Essa Fátima Bernardes não se dá ao respeito. Tirando fotos com um amante 20 anos mais novo na praia. O Boner é muito mais discreto. Botou uma foto com sua nova amiga, junto com os três filhos comemorando o Natal.
Viu só Pinta ? Depois aquelas nossas amigas – a Vera, a Margarete, a Emma, a Ingrid, a Yvana, a Dinah, a Thaís e a Marilésia (faltou alguma Pinta?) ficam nos acusando de preconceituosos, nós que no passado, fomos apenas machistas estruturados (preciso perguntar para o E.F. o que vem a ser essa condição) mas que hoje somos defensores da igualdade dos sexos em tudo. Bem…em quase tudo.

XXX

Bem que a Vera Spolidoro me avisou para deixar a Elusa Maria em paz. Ela ligou para se dizer dividida a respeito do que escrevi sobre ela. Obviamente não gostou de ser chamada de gorda patusca.
– Tô bem esbelta. Eu era apenas uma mulher substanciosa como uma vez me disse a Yvana. Mas,com o “regime da lua” já perdi 10 quilos, claro isso antes daquele jantar que o Mário Eduardo chamou de “pantagruélico” (a propósito, tu que é metido a intelectual, o que é esse negócio de pantagruélico?) e patusca é a senhora sua mãe.
Adorou porém, que eu tivesse lembrado sua fama de precursora da revolução sexual na Filosofia.
– Bons tempos aqueles em que ninguém era de ninguém e todo mundo era de todo mundo – é claro que sempre com alguns cuidados com aqueles caras da Odonto e os pedreiros da Engenharia. A propósito, o Mário Eduardo não é tão careta assim, só um pouco reprimido e ele nunca foi do CCC. Pelo contrário ele era até meio socialista, depois que descobriu que o partido do Hitler era o Nacional Socialista.
Foi difícil desligar o telefone. Ela disse que agora tem um butique na Zona Sul – na parte nobre, longe do rio, onde só andam uns caras tatuados e seus cachorros – e está vendendo umas roupinhas feitas pelas presas do Madre Peletier, para ajudar essas pessoas que não são como nós, que não tiveram oportunidade na vida.
– Eu sou uma mulher solidária com os pobres, claro que mantendo uma razoável distância, porque – acredite – não aprenderam ainda qual é o talher certo para cada prato.
– Tá bem, Elusa Maria, preciso desligar para escrever mais uma provocação no face.
– Aparece e traz a família. A propósito ainda estás casado com aquela sirigaita das Letras.? Se não tá mais, posso te contar o que ela aprontava na nossa época.
Desligo, antes que a Elusa Maria comece a falar sobre o passado da Margarida Heliodora, minha quarta mulher, ou a terceira, não lembro mais. A Ingrid e a Emma foram amigas da Margaeli, como era mais conhecida e vou perguntar pra elas, onde ela entra na minha lista matrimonial. Em último caso, pergunto pro Aldo, que sabe mais que o Google.

 

A lista


– O senhor está atrasando a fila
– É que não sei o que botar nesse item
– É simples. É escolher a profissão que você teve. A última que lhe pagou algum dinheiro. Funcionário Público, Fiscal de Bolinha, Meteorologista, Político, Domador de Circo, Gigolô,Filósofo, Foguista, Pastor, Jogador de Futebol, Aviador, Publicitário, tá tudo aí.
– Não to achando.
– Deixa lhe explicar, amigo. Esse é um processo ultra-moderno. Tem todas as profissões que existem no mundo. Lembra como você fazia com sua declaração do imposto de renda? Ou você sonegava? Claro que não, senão não estaria nessa fila, estaria naquela outra, lá embaixo. O processo é o mesmo. Você não escreve o nome da profissão. Você lembra o nome dela e puxa aqui na lista. Aí aparecem todos os nomes, com um número do lado e você clica apenas o número. Não entendeu ainda? Veja o que é a modernidade. Vou lhe mostrar: você é Ajudante de Coveiro, aí vai na letra A, procura Ajudante, o que tem de ajudante, até achar aqui, Ajudante de Coveiro, veja o número 24.599. Essa lista tem tudo, até esses anglicismos modernos, Coach, CEO. Vamos supor que você seja Cientista Social. Claro que você não é. Não leva jeito para isso. Parece ser um cara normal. Bom, nem eu sei o que faz um Cientista Social, mas tem, veja aqui, é o número 99.719. Você foi Gari. Eu sei que não, mas só para lhe mostrar. Vai na letra G e puxa a lista. Gari, 115.933. Viu só. Ainda no G, Gestualista, isso nem eu sei o que é. Gay. Hi, cara. Gay não é profissão. Ou já é agora? Acho que vou ter que falar com o Chefe para tirar Gay da lista, senão, vão dizer que até aqui tem preconceito. Vamos lá pro fim da lista. Letra V. Vedor. Essa eu conheço, é aquele cara encarregado pela FIFA e pela COMOBEL para fiscalizar os jogos de futebol. Olha aqui, Viado. Com I. Número 2424244224. Parece número de celular. Acho que o sujeito que organizou a lista é mesmo meio preconceituoso. Deixa eu confirmar aqui na lista das mulheres. Tem sim, duas listas. Quando você respondeu no item anterior Homem, você caiu na lista que estávamos olhando. Se você tivesse clicado em Mulher, entrava essa outra lista. O que é o progresso. Vamos ver o S nas mulheres. Sapatão. Realmente vou ter que avisar o Chefe que essa nossa lista vai nos trazer problema. Vamos dar uma olhadinha na letra E. Estudante, Ermeneuta. Eu bem que estava desconfiando que, além de preconceituoso, o cara que fez a lista é meio analfabeto. Vou passar esse nome para o lugar certo, no H, Hermeneuta.Mas, voltando a sua escolha. O senhor. tá vendo que tem uma fila imensa aí atrás, só porque ainda não escolheu a sua profissão. Vou lhe ajudar, mas não se acostume, porque aqui é cada um por si e o Chefe por todos. Explique o que você fazia quando vivia lá.
– Eu desestruturava certezas. Entre o sim e o não, eu falava talvez. Quando todo mundo ia para um lado eu mostrava outro caminho. Nem o Norte, nem o Sul. Quem sabe o Centro-Oeste? Ao mesmo tempo pregava a radicalismo para os indecisos. A dúvida para os que viviam confiantes na sua escolha.
– Tô entendendo, mas fazendo tudo isso, alguma vez, só para lhe chamar de alguma coisa, não disseram que você era um..
– CONTESTADOR?
– Olha aí o que você fez. A máquina entrou em alerta total. Não dá mais nem para ouvir qualquer coisa. Todos esses botões vermelhos acesos, esse som terrível. Sabe por que tudo isso?
– Heim? Não consigo lhe ouvir.
– Eu não vou pronunciar a palavra novamente, senão explode a máquina. O senhor faça o favor de se retirar rapidamente e vá para aquela outra fila, no andar de baixo.
– Mas lá não é..?
– É sim. Não adiantou nada ter sido honesto, votado sempre no PT, ter sido colorado, lido um monte de livros, gostado de cinema, o senhor era um – não vou dizer a palavra maldita – e por isso não pode ficar nessa fila. Saia logo, senão vou chamar o Gabriel e o Rafael,

O Leitor

O anúncio no jornal era realmente estranho: oferecia um emprego, muito bem remunerado – isso estava escrito em negrito – para quem estivesse disposto a passar quatro horas por noite falando com alguém que seria apenas um ouvinte. Como estava desempregado há três meses e não via perspectiva de arrumar um novo trabalho como publicitário, minha profissão escrita num diploma da universidade, resolvi ligar para o número que aparecia no anúncio.

– A pessoa com quem o senhor vai falar – se for o escolhido – sofreu um derrame e não pode responder, mas quer ouvir alguém que entenda de futebol, política, cinema, literatura e música popular brasileira, não necessariamente nesta ordem. O senhor entende desses assuntos?

  • Acho que como todo mundo.
  • Muito bem, o senhor está disposto a se submeter a um teste?
  • Quando?
  • Agora mesmo, por telefone.
  • Está bem.
  • Quem foi o goleiro do Uruguai na Copa do Mundo de 1950?
  • Roque Maspoli.
  • Quem dirigiu o filme Crepúsculo dos Deuses?
  • Billy Wilder.
  • A última. Quem escreveu Os Thibault?
  • Roger Martin du Gard.
  • Muito bem, o emprego é seu. Eu vou lhe dar um endereço. Lá uma pessoa

vai passar as instruções necessárias para o seu trabalho. São 10 mil reais, que serão depositados mensalmente em sua conta bancária. O senhor começa hoje à noite, daqui uma hora. Anote o endereço.

Quando terminei de anotar o endereço, o sujeito desligou do outro lado sem dar tempo para qualquer outra pergunta. Certamente era um trote. Ninguém pagaria 10 mil reais para entreter um doente com conversas sobre futebol, cinema ou literatura. Decidi ligar de novo para o número do anúncio. Fiz isso várias vezes. O número dava sempre ocupado. O cara havia dito que o trabalho começaria em uma hora e o endereço era longe, uma rua na Zona Sul, difícil de encontrar até no mapa do celular. Decidi correr o risco, afinal seria uma decepção a mais para quem só via as portas baterem na sua cara. Peguei uma lotação na Salgado e fui até o fim da linha Serraria. Duas quadras mais adiante, numa rua sem saída, encontrei o número que o sujeito do telefone havia informado. Um muro alto cercava a casa, que só se vislumbrava ao fundo, no meio de muitas árvores, através do portão de ferro. Toquei a campainha e pelo interfone alguém perguntou:

– É a pessoa que respondeu o anúncio para conversar com o Dr. Alan?

Não era um trote. O doente tinha até nome – Dr. Alan. Quando respondi afirmativamente, o portão abriu. Havia um caminho ensaibrado, que serpenteava pelo meio das árvores até chegara à casa, um sobrado antigo, lembrando àquelas mansões de E O Vento Levou.

Quando cheguei à soleira da casa, a porta se abriu antes que eu batesse e um sujeito com ares de mordomo de filme inglês (minhas referências estavam muito cinematográficas) fez um sinal para que entrasse e me conduziu para uma grande sala, com uma lareira acesa. Um homem, com um enorme bigode e um cachimbo na boca, sentado numa poltrona de couro, fez um sinal para sentar na sua frente. Prometi que não procuraria mais lembrar de nenhum outro filme, embora tivesse certeza de que já tinha visto aquela cena, possivelmente numa história de Agatha Christie.

– Vou lhe explicar apenas uma vez as regras que o senhor deve seguir nesta casa Deve chegar pontualmente às 19.55, diariamente, menos aos domingos. O Ronald (foi quando descobri o nome daquele sujeito que parecia mordomo de filme inglês) vai levá-lo ao primeiro andar, onde está o gabinete do Dr. Alan. Antes disso, ele vai lhe entregar uma ficha com o tema sobre o qual o senhor deve falar. Estas fichas serão específicas sobre os assuntos que o senhor domina. Por exemplo, um comentário crítico sobre o filme o Ano Passado em Mariembad.

– Alguma pergunta?

– Eu teria dezenas.

– Por favor, apenas uma.

– Quem é o Dr. Alan ?

– Digamos que o Dr. Alan foi uma figura de muito destaque na vida do país, que infelizmente sofreu um derrame cerebral e perdeu a memória de fatos que são muito importantes. Ele está sendo submetido a um tratamento médico experimental e o senhor faz parte desse tratamento.

– Que tratamento?

– Nós combinamos apenas uma pergunta, em todo caso, se isso lhe deixa mais tranqüilo, a idéia é que você fale de assuntos que foram do interesse do Dr. Alan para ver se conseguimos jogar um pouco de luz na escuridão em que se transformou seu cérebro.

Quando terminou de falar, o mordomo de filme inglês já estava de pé ao meu lado dando a entender que o tempo com o personagem de Agatha Christie tinha se esgotado e que era a hora de conhecer o Dr. Alan. Na escada, subindo para o primeiro andar, ele me passou uma ficha. Meu primeiro assunto: o livro Jean Cristophe, de Romain Rolland. Eu havia lido o livro há, no mínimo, 20 atrás e me lembrava pouco da história. O Jean Cristophe do título era pianista, gostava de Beethoven, Bach e Mozart e detestava Schubert, ou seria Liszt?

 

O Dr. Alan tinha um rosto praticamente sem rugas, encimado por uma bonita cabeleira branca. O rosto podia ser de um homem de 40 anos, mas o cabelo era de alguém de 60. Fiz a média na hora e dei 50 anos ao Dr. Alan. Ele vestia um robe de chambre azul marinho deixando a mostra uma camisa também em tom azul e uma gravata grená. Estava sentado numa poltrona que parecia muito confortável, com uma alavanca lateral que permitia transformá-la numa verdadeira cama. Ao seu lado, um abajur de pé alto e uma mesinha de mármore com um jarro de água e dois copos. Apesar da luz do abajur estar acesa, a sala ficava numa meia penumbra. Grossas cortinas cobriam as janelas e além da poltrona e de uma cadeira de espaldar alto colocada na sua frente, só quando os olhos se acostumavam com a pouca luz, é que se percebiam os outros objetos que faziam parte da decoração: não mais que uma estante com alguns livros de capa dura e um grande quadro na parede, retratando um sujeito com uma farda militar do tempo do Império. É claro que não percebi isso imediatamente. Só com as novas visitas é que fui me dando conta destes detalhes. Na primeira vez que o encontrei, me chamou atenção, além do rosto sem rugas e da cabeleira branca, o olhar vago, voltado para alguma coisa situada sempre a, no mínimo, um metro acima da pessoa que sentava na cadeira de espaldar alto a sua frente. Esta seria a minha cadeira de todas as noites, como me indicou o mordomo de filme inglês, antes de fechar a porta e me deixar sozinho com o Dr. Alan.

– Muito bem, Dr.Alan, vamos falar de Romain Rolland e seu livro.

Até hoje, eu não sei como consegui dizer alguma coisa que ocupasse as quatro horas em que deveria permanecer naquela sala. Certamente devo ter feito longos silêncios, talvez até mais duradouros que as falas. Afinal, eu me lembrava muito pouco do livro. Quando meu relógio de pulso finalmente marcou meia-noite, a porta da sala se abriu e surgiu o mordomo de filme inglês para me indicar que a sessão tinha terminado.

– Acompanho o senhor até a porta. Há um taxi esperando na saída do portão para conduzi-lo até o centro.

Enquanto o taxi me levava pelas ruas desertas da Zona Sul assumi o compromisso comigo mesmo de suportar pelo menos um mês naquele trabalho- se é que podia se chamar aquilo de trabalho – para pegar os 10 mil reais que me faziam tanta falta. Depois cairia fora. Era coisa de doido ficar falando para um sujeito durante quatro horas sem que ele sequer se dignasse a lhe lançar um olhar.

Durante uns 15 dias, o ritual foi sempre o mesmo: Ronald abria a porta, me entregava uma ficha com o tema do dia e me encaminhava para a sala onde o Dr. Alan esperava, sempre com o seu robe de chambre azul marinho. A gravata, pelo menos, era diferente todos os dias. O cara de bigodão e cachimbo, eu nunca mais vi. Os assuntos se alternavam, um dia era a seleção brasileira de 58, outro, um livro de Gore Vidal ou um filme de Robert Altmann. Eu me virava como podia. Falava um pouco, fazia longos silêncios, voltava a falar. Aquela história de medicina experimental, me parecia conversa fiada. Como eu ficava sozinho com o Dr. Alan, mesmo que ele tivesse alguma reação às minhas palavras, só eu ficaria sabendo. Será que eles esperavam um relato meu sobre as possíveis reações do doente? Se era, nunca me perguntaram nada naquelas duas semanas. Talvez ele estivesse plugado por um fio a algum aparelho fora da sala? Uma noite, fiquei tão preocupado com isso, que acabei procurando o tal fio embaixo da poltrona do Dr Alan. Obviamente, não encontrei nada. Quem sabe eles gravavam as minhas conversas? Nesse caso, poderiam dizer que eu não estava cumprindo o trato por causa dos longos silêncios. Será que eles depositariam o dinheiro na minha conta no fim-do-mês? A propósito, ninguém me perguntou pelo número da conta. Mas como eles tinham confiado tanto em mim, era justo que eu também confiasse neles. A propósito, quem eram eles?

 

No dia 25 de julho, e este dia eu não poderia esquecer porque era meu aniversário, aconteceu algo inesperado. Ao abrir a porta, Ronald não me entregou nenhuma ficha, nem me levou pelas escadas para o primeiro andar. Em vez disso, indicou uma sala a esquerda da entrada, onde havia uma grande mesa de vidro, com seis poltronas de couro. Sobre a mesa um projetor de imagens e no fundo um telão. Ao contrário do restante da casa, a sala era bem iluminada, com paredes claras e uma decoração moderna. Ao lado da mesa maior, um pequeno bar com garrafas de vários tipos de bebida, um balde de gelo e muitos copos. O Ronald indicou o bar com um aceno de mão e falou que eu ficasse à vontade, que teríamos uma reunião muito importante em seguida. Enquanto me servia de uma dose de Chivas, fiquei imaginando o motivo da tal reunião. O primeiro pensamento foi: eles sabem que estou de aniversário e querem fazer uma surpresa. Daqui a pouco, o Ronald entra na sala com um bolo de velinhas cantando Parabéns a Você. Logo pus de lado esta idéia. Seria uma situação demasiadamente ridícula, o Ronald com um bolo de velinhas. Talvez o cara de bigodão e cachimbo, com jeito de personagem de Agatha Christie e que imaginei ser o chefe de toda a operação, quisesse me passar uma reprimenda: você está falando muito pouco e se continuar assim vamos dispensá-lo imediatamente sem pagar nenhum tostão. O que poderia fazer numa situação como essa? Reclamar de quem? Pensar nisso, me deixou desconfortável. Levantei da poltrona e comecei a caminhar pela sala para me acalmar. Quando estava próximo da porta, ela se abriu e Ronald surgiu na minha frente, abrindo passagem para o sujeito de bigodão e cachimbo, que parecia personagem de Agatha Christie. Logo atrás dele, para meu espanto, vinha o Dr. Alan, com o seu rosto sem rugas e a bonita cabeleira branca. Só que agora ele não tinha aquele olhar vago. Pelo contrário, seus olhos brilhavam, enquanto me estendia mão, sorridente.

– O senhor sabe muito de futebol e engana um pouco em cinema, mas em literatura e música fica devendo.

Quase cai para trás, para não deixar de usar um clichê de livro policial.

– Surpreso?

– O senhor não estava doente, incapaz de falar?

Ainda sorrindo, o Dr. Alan me pegou pelo braço e levou para junto da mesa.

– Vamos sentar e conversar um pouco. O Ronald senta aqui ao lado e o Juvenal fica o mais longe possível para não nos sufocar com este cachimbo.

O bigodudo, de cachimbo, parecido com um personagem de Agatha Christie se chama então Juvenal, o que certamente o excluiria de qualquer história de detetive inglês. E o Dr.Alan, seria mesmo esse o seu nome? O sujeito ficava quatro horas com o olhar perdido no horizonte, sem dizer nenhuma palavra, nem emitir qualquer som e era tudo encenação. Que ator. Isso estava mudando toda a história. O mais importante agora era descobrir quem eram estes caras e qual o meu papel em tudo isso.

O Ronald colocou sobre a mesa um gravador de som e ficou atento a uma ordem do Dr. Alan.

– Pode rodar, Ronald.

A gravação era de um sujeito falando ao telefone. A voz era incrivelmente parecida com a minha, mas o que ele dizia eu nunca tinha falado na vida.

Ele confessava ter participado de um assalto a banco e contara como enfrentara a polícia disparando tiros de sua metralhadora.

– O que é isso? Parece minha voz, mas está falando coisas que eu nunca disse e muito menos fiz. O sujeito está imitando minha voz. Como ele consegue ser tão perfeito?

– É a sua voz, disse o Dr. Alan. O Juvenal é o araponga mais competente que existe no Brasil. Ele vai lhe explicar como sua voz está nessa gravação.

Mais uma decepção: o Juvenal é apenas um grampeador de telefones e portanto,  não tem nada a ver com as histórias da Agatha Christie.

– Este equipamento é o que existe de mais moderno no mundo. Nós gravamos a sua voz, enquanto você falava com o Dr. Alan, depois separamos silaba por silaba e montamos tudo de novo do jeito que a gente quis. O aparelho tem um modulador de decibéis super sensível, que nos permite criar novas palavras usando uma entonação que é diferente em cada pessoa. Ou seja, nos formamos frases novas usando pedaços de outras frases de uma maneira que nenhum técnico de áudio seria capaz de identificar. Nem na Unicamp, os caras conseguem identificar esta montagem.

– E tudo isso para quê ?

– Isso, o Dr. Alan vai lhe explicar

Foi então que o Dr. Alan começou a expor a idéia mais absurda que eu já ouvi na vida, com um agravante terrível: eu seria o principal ator nessa história.

– Por que eu?

– Poderia ser qualquer um, mas você foi o primeiro a responder ao anúncio.

 

 

Duas histórias

 

O DIA EM QUE O DIABO ME VISITOU
Quando eu era criança, lá em Farroupilha, e uma porta se abria sozinha, tinha sempre alguém para alertar – cuidado o Diabo pode entrar.
Ontem, a porta do meu apartamento se abriu sozinha e o Diabo apareceu. Parecia gente de casa. Entrou sem dar bom dia e foi logo olhando as paredes, os armários, os livros.
– O que está procurando?
– Crucifixo, imagem de santo, essas coisas todas que usam contra mim.
– Não sabes que sou ateu, que não guardo esses símbolos da ignorância na minha casa?
– Melhor assim, facilita minha tarefa.
– Vieste para me buscar?
– Ainda não. Mais tarde, talvez. Hoje, vim só para te dar um conselho, de alguém que é sábio não porque é Diabo, mas porque é velho.
– Não pareces velho. Cadê os chifres? Cadê o rabo? Cadê o cheiro de enxofre? Pareces até aquele cara da televisão.
– Custaste para me reconhecer. Vês pouca televisão. Hoje, assumi a aparência do Willian Boner
– Acho que ficarias melhor naquela versão mais tradicional.
– Mas, é só tu que gosta dessa versão tradicional. As pessoas me chamavam de Satanás, Satã, Coisa Ruim, Tinhoso, Cachorro Louco, Malvadão, Chifrudo, Rabudo, Capeta. Ninguém me respeita mais. Então, estou usando a aparência de pessoas famosas. Ontem, sai de Renato, mas uns caras me jogaram pedras ali perto do Beira Rio.
– Tá bom Willian – queres que te chames assim? – vamos ao que interessa, qual é o conselho que vais me dar.
– Eu já conversei com o Schroder, com o Santiago,com o Milton, com a Vera, com a Ingrid, com o Pinta, tudo gente fina que eu admiro e que leio no feicibuque.
– Tu também tá no feicibuque?
– Todo mundo tá, mas agora quem está interrompendo é tu.
– Tá bem, dá logo o conselho
– É pra tu parar de ficar citando “aquele jornal”, que isso ajuda a divulgar uns caras que nem lá na minha casa são lidos. Se tu não acredita na minha palavra, pergunta ao Aldo.
Dito isso, o Diabo foi se mandando com um aviso.
– Semana que vem, eu volto e venho disfarçado de Moro.
Por via das dúvidas, vou trocar a fechadura da porta para não deixar o Diabo entrar nessa versão.

XXX

DIOMEDES, UM HOMEM E SUAS DÚVIDAS

Encontro o Diomedes na saída do Encouraçado Potenkin, na CCMQ. Fomos colegas na Filosofia. O reencontrei há um ano e ele me disse que se tornara um observador do comportamento humano.
– Isso é profissão, Diomedes?
– Não, mas e dá subsídios para o livro que estou escrevendo.
– O que você observou agora?
Não devia ter feito a pergunta, porque era tudo que ele queria para me tornar um ouvinte da sua nova tese.
– Você viu aquelas duas moças que saíram de mãos dadas do cinema? Vi suas pastas, são universitária da PUC, acho que da Comunicação ou Psicologia. Elas estavam dando um recado público que formam um casal.
– Atenção Diomedes. Cuidado com o preconceito.
– Longe disso. Você sabe que sempre fui um contestador, que nunca aceitei qualquer comportamento padronizado Na Filosofia tu mesmo me chamava de anarquista. Então, sou totalmente a favor de liberdade sexual, da escolha livre dos parceiros, até mesmo porque essa relação exclusiva de homem e mulher é uma coisa que vem da Bíblia – Adão e Eva – o que já me põe com um pé atrás.
– Por que então esse estranhamento?
– É que elas reproduziam o comportamento clássico do casal heterossexual. Uma fazia o papel do macho, altiva, dominadora, fálica e a outra a da fêmea, meiga quase submissa.
– E daí
– Daí eu me pergunto por que essa relação moderna se expressa atavicamente por uma imagem tão antiga?
Quando o conheci na Filosofia, as pessoas costumavam dizer, quando ele surgia na aula ou numa reunião, – Lá vem o Diomedes e suas dúvidas.
Contavam como piada, que quando o professor dava Bom Dia, o Diomedes o interpelava:- Quais são seus argumentos para lançar essa previsão sobre o nosso futuro?
Imagino que no caso das moças da CCMQ, o Diomedes vai ficar ainda algum tempo com suas dúvidas.