Democracia

 

 

A retomada dos aspectos mais selvagens do capitalismo no mundo inteiro nos dias atuais, com o abandono da possibilidade de sua transição pacífica para um socialismo democrático, nos traz de volta os ensinamos de Lenin sobre qual deve ser o papel dos que se opõem a esse sistema.

Em boa hora, portanto, Editora Boitempo lança uma coleção denominada Arsenal de Lenin, com as principais obras desse pensador, humanista e revolucionário. O primeiro volume, já disponível nas livrarias é o Estado e a Revolução.

Uma das questões que Lenin discute é a questão da democracia.

Quando, hoje no Brasil, se defende a radicalização da democracia, como faz o Tarso Genro, é claro que está se pensando numa forma de resistência ao golpismo atual.

Mesmo assim é sempre interessante lembrar o que dizia Lenin sobre a democracia, citando Marx e Engels. Para ele, democracia é uma forma de organização do Estado, que estabelece como devem ser a relações entre as classes.

A supressão do Estado, fim último do comunismo, suprimirá não só o Estado, como as classes sociais diferenciadas. Nesse caso, desaparecerá também o conceito de democracia (governo da maioria) como forma de relacionamento entre as classes, porque todos serão iguais.

Ironia é uma arma que só os inteligentes sabem usar

O sujeito se espanta quando digo que não sou do PT

– Como pode ser isso?

– Você vive defendendo o Lula e diz que não é PT?

Respondo dando o serviço completo.

– Voto no Lula e acho que a Lava Jato é um grande esquema, que com a desculpa de enfrentar a corrupção, está destruindo a economia brasileira a serviço do imperialismo americano.

Aproveito o embalo e arrisco uma hipótese, que depois que verbalizo, até eu passo acreditar nela, a de que o Moro seria um agente da CIA.

O cara parece não acreditar, um ex-publicitário, professor em universidades católicas, dizendo umas coisas dessas.

– Parece conversa de comunista

_ O que te parece pior, comunista ou petista?

– É tudo a mesma coisa

Fico pensando, o cara tem um pouco de razão. Sabe no que os comunistas e os petistas são iguais? Os dois não têm senso de amor. Ao contrário da história do sujeito que ri da própria desgraça, os dois são sérios. Nunca riem. Não entendem ironias Frases de duplo sentido, nem pensar.

Lembro de uma história que o Werner me contou. Na época do Sarney presidente, recebeu um convite oficial para visitar Havana. Lá numa recepção com a nova “nomenklatura” cubana, um cristão novo, fez uma provocação:

– Quando vocês vão fazer uma eleição no Brasil?

– Breve, diz o Werner, mas fiel ao seu lema de perder o amigo e não a piada, completa:

– Por enquanto temos um presidente eleito com trezentos e poucos votos, o Sarney, mais democrático do que o de vocês, que teve um só voto, o Fidel.

Isso que o Werner sempre é, ou era, comunista e nunca deixou de defender a Revolução Cubana.

Uma vez, o amigo Guaracy me levou numa reunião do PT, a fim de propor ideias para uma campanha eleitoral que se aproximava. Era uma mesa com umas dez pessoas. O Guaracy me apresentou, publicitário, professor, coisa e tal e pediu que fizesse uma análise sobre os erros e acertos da comunicação do PT.

Quando usou a palavra publicitário, alguns já me olharam meio de lado, mas como estava lá para tentar ajudar, falei.

Disse o que pensava, se era para usar a propaganda, que se usasse direito; que propaganda não era discurso político; que ela não explicava nada; que era reducionista e que funcionava como uma lavagem cerebral, só que no nosso caso seria para o bem e não para o mal, como fazia a direita.

Todo mundo em silêncio, anotando em seus cadernos. O sujeito seguinte, apresentado pelo Guaracy, como o companheiro Fulano (no Partidão era camarada, aqui companheiro), desceu a lenha no que eu tinha dito, coisa de burguês, de capitalista; que a comunicação do partido deveria divulgar apenas suas verdades.

Tudo bem, nada como uma boa briga. Topei a parada e já ia respondendo, quando o Guaracy interveio:

– O companheiro já falou e agora deve esperar que todos falem para ter sua vez novamente.

Para o meu amigo de longa data, o Guaracy, eu era agora, um companheiro.

Era isso, tudo muito organizado. Me dei conta que os caras iam ficar pensando nos fins  e esqueceriam os meios de chegar lá. Claro que não ia dar certo tanta organização.

E, não deu.

Com tanta gente brilhante em seus quadros, com todo o carisma do Lula, com a inteligência do Tarso, e tantos outros intelectuais, o partido foi incapaz depois de 14 anos na Presidência da República, de tomar conta realmente do poder.

No início era uma marolinha, que as “más companhias”, como um dia as definiu o Olívio, transformaram num vendaval.

Bastou um conluio de parlamentares corruptos, com um judiciário onde amigos escolhidos viraram inimigos e apoio de uma mídia venal e o castelo veio abaixo

Havia um monte de inimigos dormindo na mesma cama e como toda a suruba com gente pouco confiável, não podia dar certo

Hoje, tenho amigas e amigas petistas que acompanham o que escrevo no facebook e no meu blog (blogdomarinoboeira, olha ai a propaganda), mas são seletivos e só curtem quando falo bem do Lula. Quando faço algumas ironias, como dizer que a esquerda festiva é melhor que a direita sinistra, fingem que não me lêem ou pior, não entendem a piada.

Mesmo assim continuo firme na decisão de votar no Lula em 2018, sempre com a esperança que essa vez ele não indique para o Supremo os juízes que vão depois condená-lo, nem convide para o ministério seus inimigos.

Marlon Brando, “the fuck machine”

Por favor, não leia esse texto, se você, não gosta de cinema, não sabe quem foi Marlon Brando e principalmente, se você tem algum tipo de preconceito, intelectual ou religioso, contra fofocas envolvendo gente famosa, pois é do que trata o livro “Marlon Brando – A Face Oculta da Beleza”

Caso você não se enquadre nos itens citados, não deixe de ler o livro de François Forestier (jornalista da revista Nouvel Observateur, romancista e biógrafo), traduzido para o português pela Editora Objetiva. São quase 200 páginas que você lê numa tacada só, porque o autor, além de tudo, escreve muito bem e está suficientemente documentado para contar as mil histórias de Marlon Brando, envolvendo tanto a sua vida de ator extraordinário, quanto a do grande amante que não distinguia seus interesses sexuais de mulheres e homens.

Brando – chamado de fuck machine – usou seu poderoso instrumento, como ele gostava de se referir ao seu pênis, com centenas de mulheres, das mais famosas atrizes de cinema às mais modestas funcionárias dos estúdios, mas se submeteu aos pênis de muitos amigos, dos quais os casos mais duradouros foram com o ator e diretor de cinema francês Christian Marquand e com o também ator Wally Cox, que o acompanhou desde que era quase um desconhecido no seu início em Hollywood.

Quase no final da vida, ele diria que não tinha vergonha de ser também homossexual, mas são as mulheres famosas do cinema que emolduram sua história Sua lista é imensa e dela fazem parte Marilyn Monroe, Ava Gardner (da qual desistiu depois que alguns mafiosos a mando de Frank Sinatra o ameaçaram de morte), Shelley Winters, Sondra Lee, Marie Saint Just, Anne Ford, Juliette Greco, Gene Tierney, Lauren Bacall, Ann Sheridan. Ana Maria Pierangeli, Anna Magnani, Ursula Andress,Loreta Young Grace Kelly (essa, sujeita a confirmação) e dizem até, Doris Day.

Vivien Leigh, a inesquecível Scarlet O´Harra de E o Vento Levou, fez com Brando, Blanche DuBois, em Uma Rua Chamada Desejo e teve com ele um caso de amor para o desespero e o ciúmes do marido Laurence Olivier, que disputava com o Brando o título de “o melhor ator do mundo.

Vivian Leigh é uma das poucas mulheres que mereceram um capítulo especial de Forestier. Suas brigas com o marido Olivier ficaram famosas e também seus casos com amantes famosos, como Brando e Peter Finch. Drogada e ninfomaníaca, costumava sair do teatro Old Vic, em Londres e se fingir de prostituta no Soho. Morreu sozinha, já completamente alienada mentalmente, aos 54 anos.

Além das mulheres, cada uma delas com passagens curtas pela sua vida, Marlon Brando foi casado durante algum tempo e teve filhos com Anna Kashfi, Josanne Mariani-Berenger, Movita Casteneda (a mais duradoura), Maria Cristina Ruiz e Rita Moreno.

Sua vida pessoal sempre foi cercada de tragédia. O pai, que Marlon odiava, batia sistematicamente na mãe, que era alcoólatra e se prostituía; a filha Cheyenne se suicidou e o filho Christian, drogado desde a juventude, foi preso por assassinar um cunhado e morreu aos 49 anos.

Quem se interessa mais pelo cinema, do que pelas aventuras sexuais de Brando, vai encontrar narrativas saborosas dos filmes em que participou (foram dezenas), algumas obras primas e outros deslavados comerciais que ele fazia apenas para ganhar dinheiro.

Brando sempre dizia que detestava seu trabalho e em muitos filmes infernizava a vida dos diretores e atores, fingindo que esquecera suas falas, mudando o roteiro, rindo quando devia chorar e fazendo caretas para desconsertar seus companheiros de cena. É famoso o fato de mastigar alho antes de cenas de amor, quando não simpatizava com a parceira. Além de tudo, não costumava tomar banho e o cheiro do seu corpo invadia o set.

Poucos diretores eram respeitados por Brando – Kazan (Sindicato de Ladrões) Huston(O Pecado de Todos Nós) Coppola (O Poderoso Chefão), Manckiewcz ( Júlio Cesar), Fred Zinnemann (Espíritos Indômitos) Bertolucci (O Último Tango em Paris) – e com eles fez seus melhores filmes.

Como coroamento de uma vida cheia de escândalos, Marlon Brando se envolveu num caso que até hoje daria o que falar,  a famosa cena de sodomia com Maria Schneider do filme O Último Tango em Paris, de Bernardo Bertolucci.

O filme provocou espanto no mundo inteiro.  Forestier diz dele: “Para os hipócritas, o filme é insuportável. Para os militantes da causa sexual, é tímido demais. Norman Mailer se exalta: o filme começa com duas palavras de Brando,  fuck God. Se Bertolucci quer foder Deus, precisaria ser mais claro”.

Maria Schneider, a heroína do filme, diz: “Brando e eu temos algo em comum. Somos bissexuais”

O grande diretor sueco Ingmar Bergaman tem outra visão: “É a história de dois homossexuais. Esqueçam os seios da jovem, ela é como um garoto. Há no filme um profundo ódio às mulheres, mas se o virem como uma história entre um homem e um menino, entenderão tudo”.

Marlon Brando morreu no dia primeiro de julho de 2004, aos 80 anos, sozinho, assistindo o programa que mais gostava de ver, as velhas comédias de Abbott & Costello.

O delator, essa triste e abominável figura

O delator sempre foi, tanto na mitologia, quando na história documentada, uma triste figura, aquele que troca suas convicções, sejam elas quais forem, por algum tipo de vantagem material.

O Brasil da Lava Jato e das perseguições políticas trouxe de volta esses pobres personagens, tão opostos aos corajosos, que são capazes de enfrentar com altivez seus inquisidores.

Ou se faz o papel do Palocci , ou do José Dirceu.

De todos os modernos delatores, um que se tornou símbolo dessa queda aos infernos, foi Elia Kazan, um dos maiores diretores de toda história de Hollywood, pelo trabalho pelo trabalho que fez, mas cujo papel como um denunciante junto à Comissão de Atividades Anti Americana do Senado, dirigida pelo tristemente célebre, senador Joseph Mc Carthy, entre 1950 e 1957, o tornou uma figura abominável como ser humano.

Orson Welles disse que ele trocou sua alma por uma piscina.

Quando recebeu um Oscar honorário da Academia de Cinema, em 1999, das mãos de Martin Scorcese, quase 50 anos depois que a comissão presidida por Mc Carthy terminara, muitos atores presentes no evento, se recusaram a aplaudi-lo, entre os quais Sean Penn, Holly Hunter, Ed Harris, Richard Dreyfus e Rod Steiger.

Kazan, de origem grega, nasceu em Istambul, na Turquia, em 1909 e morreu em Nova York, em 2003.

Tornou-se um diretor teatral de sucesso na Broadway, antes de trocar Nova York por Hollywood.

Entre os grandes filmes que dirigiu, estão: Uma Rua Chamada Desejo (A Streetcar Named Desire) de 1951; Viva Zapata, de 1952; Sindicato de Ladrões (On the Waterfront) , de 1954; Vidas Amargas (East of Eden), de 1955; Boneca de Carne (Baby Doll), de 1956; Clamor do Sexo (Splendor in the Grass), de 1961 e O Último Magnata ( The Last tycoon), de 1976.

Membro do Partido Comunista Americano, Kazan – ao contrário de outros que se negaram a colaborar (Dashiell Hammett, o criador do Falcão Maltês, por exemplo, mesmo idoso, doente e alcoólatra, manteve-se em silêncio diante da comissão) – entregou amigos, atores, diretores, que a partir da suas denúncias foram incluídos na famosa Lista Negra de Hollywood e impedidos de continuar trabalhando profissionalmente.

O diretor John Berry, incluído na lista, disse de Kazan: “Todo mundo muda de opinião. O sujeito é comunista, depois vira reacionário, é a vida. Ama uma mulher, divorcia-se, é a vida. Mas uma coisa não se tem o direito de fazer: delatar”

Jules Dassin, que havia feito nos Estados Unidos grandes filmes, como Força Bruta e Cidade Nua, foi obrigado a emigrar para a Europa, onde dirigiu, depois, Rififi (na França) e Aquele que Deve Morrer e Nunca aos Domingos, na Grécia, disse dele: “Kazan era o rei do teatro, nós gostávamos dele. Éramos amigos de longa data. Aquilo me fez mal. O que ele fez foi diabólico. Mais tarde, ofereceu emprego às pessoas que contribuíra para incluir na lista negra. E assim tentou corrompê-las dando-lhes trabalho, buscando sua aceitação.”

Esse período negro na história americana foi retratado por George Clooney,  no filme Boa Noite, Boa Sorte, que narra os embates do jornalista Edward Monroe contra Mc Carthy.

Astrogildo, o organizador.

 

 

Finjo que não o estou vendo, mas não adianta, ele me puxa pelo braço.

– E aí amizade, como vai essa bizarria?

O Astrogildo não muda essa frase de apresentação há 30 anos.

– Tudo bem

– Como tudo bem, virou hippie depois de velho?

Para o Astro, é assim que ele sempre foi chamado, como estou de calça de brim e tênis, sou um hippie. Ele está sempre de terno e gravata.

– E você, Astro, vai numa festa?

Confesso que minha resposta também não muda há anos.

Ele me conta então que está organizando um grupo de antigos revolucionários para discutir a questão política vista sob uma ótica espiritual e vai dando os nomes dos que já se comprometeram a participar da próxima reunião.

Enquanto vou ouvindo esses nomes, alguns dos quais, já imaginava no andar de cima, como gosta de dizer o Sérgio Gonzales quando anuncia que o cara morreu, fico pensando em qualquer desculpa para justificar que não pretendo entrar em grupo nenhum organizado pelo  Astro.

Desde que nos conhecemos no ginásio do Julinho, o Astro sempre foi “O Organizador”. Nas peladas do recreio, acabávamos por perder um tempo enorme, com ele dividindo os times por idade, tamanho e habilidade no jogo.

Como ele era o dono da bola, tínhamos que atender suas preocupações com a organização, mesmo que no fim sobrasse pouco tempo para o jogo.

No movimento estudantil seu grande feito foi organizar as tendências de esquerda, dando notas de 5 a 10 para cada um dos componentes dos grupos em função do seu comprometimento com a causa.

Certa vez, quase fui reprovado por ter faltado uma reunião para ir ao cinema ver um filme do Kubrick.

– De um diretor americano, ainda por cima, me criticou o Astro

– O filme é anti-militarista e o Kubrick é até um cara de esquerda.

– Não importa, você faltou exatamente no dia em que íamos decidir sobre a organização de um movimento de protesto contra o corte das verbas para o restaurante universitário.

Consegui, no final, uma nota 6 e fui aprovado, ganhando o direito de continuar participando do grupo organizado pelo Astro.

Subitamente, o Astro desapareceu. Disseram que ele tinha sido preso, torturado e até morto, mas ninguém sabia realmente dele, até que ele apareceu há uns 10 anos transvestido no Pastor Astrogildo, da Organização Religiosa dos Filhos da Ordem.

Como ele descobriu meu endereço ainda não sei, mas desde então a sua meta parece ser a de me incluir na sua organização religiosa.

– Sou ateu, Astro, você bem sabe disso.

– Não importa. A nossa organização é aberta para todos Você vai fazer parte do grupo dos ainda não convertidos. É um processo. Você começa nesse grupo e depois passa para os neo-convertidos, e finamente o grupo dos eleitos.

Prometo pensar no assunto para me livrar do Astro.

Quando me aperta a mão para a despedida, me deixa um cartão

Vejo que o cartão tem seu nome endereço e a frase, Ordem e Progresso. Ia comentar que ele estava plagiando o lema positivista da nossa bandeira, mas achei melhor cair fora porque senão o Astro iria desenvolver mais uma longa tese sobre a beleza das coisas organizadas.

Um amor de cinema

Sempre que tenho um problema existencial procuro o Vincent, o cinéfilo, para ouvir seus conselhos. O problema é que com ele tudo precisa ser visto sob a ótica do cinema.

– Vincent, estou apaixonado

– Como é essa personagem

– É uma mulher madura, bonita, inteligente, irônica, experiente.

– Como quem?

– Jeanne Moreau, de Jules e Jim

-Interessante. Fale mais

– Uma mistura de Isabelle Huppert com Susan Sarandon.

– Isso não existe. É fantasia tua.

– Existe sim e quero conquistar seu coração. Só tenho dúvidas se minha apresentação vai agradá-la

– Você tem que aparecer como alguém poderoso. Assim como a Lennie Riefestahl mostrava aqueles alemães. Imponentes. Sempre em tomadas de baixo para cima.

– Isso talvez a afaste. Tanta imponência. Pensei em algo que mostrasse a minha força de macho, mas sem assustá-la.

– Claro, Clark Gable em E o Vento Levou. Um homem dominador, mas gentil.

– Mas ela talvez nem tenha visto esse filme que é muito antigo.

– Alain Delon no papel do príncipe Tancredi, em o Gattopardo, do Visconti.

– Ele não é bonito demais? Acho que ela não vai acreditar

– Antônio Banderas em Evita. As mulheres gostam de um toque latino.

– Dizem que as mulheres gostam de homens carentes. Que elas querem se sentir protetoras.

– Claro, Marcello Mastroianni, em Um Dia Muito Especial, com a Sophia Loren.

– Mas, o Marcelo faz um viado. Não vai cair mal?

– O James Dean, então, em Juventude Transviada.

–  Mas ele também parece que não amava as mulheres. Pensei em alguém mais real, mais sofrido.

– Claro, Dustin Hoffmann, abandonado pela mulher má, a Meryl Streep, na véspera de Natal e precisando arrumar um emprego para não perder a guarda do filho, em Kramer x kraemer.

– E se ela se identificar com a Meryl. No filme, ele é uma mulher que não quer se prender à vida doméstica. É dramático demais. Nos filmes, as mulheres não gostam de homens tão perdedores assim.

– Tem razão, tem que ter a medida certa.

– Certo, nada de dramalhão. Que tal um personagem carente, mas também alegre?

– Jim Carey, em Todo Poderoso

– Espalhafatoso demais. Acho que ela não vai gostar

– Alec Guiness, em o Homem do Terno Branco

– Inglês demais e muito antigo.

– Jean Paul Belmondo ou Yves Montand

– Mas nenhum é muito alegre

– Mas são franceses e o charme pode ser uma forma de compensar a falta de alegria

– Não sei, não. Mas ela é uma mulher dominadora. Preciso passar a ideia de que ela não é a única. Que existem outras interessadas.

– Qualquer filme do OO7 com Sean Connery

– Mas, ele não é volúvel demais?

– O Sean Penn?

– De novo um cara que fez papel de viado em Milk. Ela jamais pode pensar em que eu tenha algum tipo de inclinação para … bem tu sabes para o quê

–  Michael Douglas, um cara acima de qualquer suspeita.

– Mas dizem que ele é viciado em sexo. Acho que ele não vai confiar num cara que só pensa naquilo.

– Matt Damon como Jason Bourne, durão, mas fiel aos seus amores?

– Talvez um sujeito cheio de dúvidas existenciais? Não sei se te disse, mas ela é uma intelectual e intelectual não gosta de certezas.

– Certo. James Stewart em Janela Indiscreta ou em qualquer outro filme. Ele sempre está com aquela cara de dúvidas, do sujeito que não sabe onde meter as mãos.

– Compondo um tipo com a mistura de todos esses personagens, você acha que conquisto essa mulher?

– Acho que ela não vai resistir. Mas o que você pretende fazer com ela?

– Entre outras coisas, levá-la para cama. Mas aí, me encho de dúvidas. Ela é uma mulher experiente. Já passou por todos esses filmes e se ela ficar esperando um Humprhey Bogart, um Paul Newmann ou até mesmo um Stallone e der de cara com o Marcello Mastroianni de o Belo Antônio?

– Você tem que buscar alguns apoios químicos e pensar que é o Leonardo de Caprio

– Vou tentar

– Mas atenção então: nada de A Um Passo para a Eternidade com Burt Lancaster e Debora Kerr, principalmente naquela cena dos dois rolando na praia; muito menos O Último Tango em Paris, com Marlon Brando. Manteiga, então, nem pensar. Na tua faixa etária é melhor ir de Clint Eastwood de as Pontes de Madison, namorando a Meryl Streep.

The End

Qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas é mera coincidência.

 

 

O imperialismo abre o jogo e explica as razões do golpe no Brasil

Se alguém ainda tinha alguma dúvida sobre as razões do golpe que afastou a presidente Dilma da Presidência da República, basta ler a matéria que o jornalista Silas Marti fez na Folha sobre a recente reunião da Câmara de Comércio Brasil – Estados Unidos, em Nova York.

A matéria não deixa dúvidas: era preciso afastar Dilma e o PT do governo, porque apesar de todas as concessões feitas aos interesses do empresariado, o mercado, essa figura mítica que a mídia criou, elas eram consideradas ainda insuficientes.

Era preciso encontrar um político mais flexível aos interesses do capital e, na falta de alguém melhor, o escolhido foi o Temer.

Para evitar alguma reação maior da população, esbulhada nos seus direitos de escolher seus governantes, montou-se uma grande operação envolvendo setores do judiciário e da mídia para desfechar uma campanha de desmoralização dos principais dirigentes do PT, principalmente o seu principal líder, o ex-presidente Lula.

Sob o manto de um moralismo histérico e seletivo, começou um processo ainda em andamento, com dois objetivos bem claros: destruir a base industrial do país ( a indústria naval, a indústria da construção e fundamentalmente a Petrobrás) e remover todos os instrumentos de defesa dos trabalhadores, frutos de uma longa luta dos operários e seus sindicatos.

Ao se completar esse trabalho, na visão dos golpistas, o Brasil estaria pronto a voltar o que foi no passado, um campo propício para a exploração imperialista de suas riquezas.

Parece, porém, que os representantes do imperialismo americano ainda não estão satisfeitos com o desmonte dos direitos trabalhistas feitos pelo governo corrupto e entreguista de Michel Temer.

Na reunião de empresários brasileiros e americanos em Nova York, ficou claro que o capital espoliativo internacional ainda quer mais.

“Então quer dizer que ainda não vamos poder reduzir salários? Isso é a coisa mais anticapitalista que existe”, reclamou Terry Boyland, da CPQI, empresa que presta serviços de tecnologia a bancos na América Latina. “E se perdermos dinheiro? Vamos também dividir os prejuízos”?

Um dos principais fatores de desilusão, aliás, é a dificuldade de terceirizar trabalhadores. Muitos, no caso, pretendiam demitir e recontratar os mesmos funcionários de prestadoras de serviços, mas não gostaram de saber que a lei impõe uma quarentena de um ano e meio.

“Esse é um ponto crítico que falhou”, diz Gustavo Salgado, do banco japonês Sumitomo Mitsui, que tem operações em São Paulo. “É uma questão muito sensível porque pode tornar nossas empresas mais competitivas.”

Nas entrevistas que deram ao jornalista da Folha, advogados de grandes empresas não escondem que um dos objetivos da “reforma trabalhista” do Temer, foi impedir ou ao menos dificultar, os recursos dos trabalhadores à justiça na defesa dos seus direitos e nesse aspecto, eles já estão satisfeitos, principalmente na exigência, em casos de litígio, de que o trabalhador que perder uma ação movida contra a empresa,tenha de arcar com os custos jurídicos, que pode chegar a 20% do valor pretendido pelo processo.

Na opinião do advogado Dario Abrahão Rabay, a medida vai acabar com a “indústria de ações” e a “cultura de litígios” que domina as relações de trabalho no Brasil. “Esperamos ver uma queda no número de processos.”

“O pior para nós são os pagamentos de danos morais”, diz Alberto Camões, da Stratus, empresa que presta serviços de consultoria a outros grupos no Brasil. “Como não custa nada processar, prevalecia antes a ideia de mover uma ação só porque podem.”

John Gontijo, da Farkouh, Furman & Faccio, empresa que presta serviços de consultoria tributária em Nova York, concorda. Ele afirma que o grande avanço da reforma trabalhista passa por diminuir o poder dos sindicatos e tornar flexíveis as relações de patrão e empregado.

Depois de ler essa matéria, só podem ficar a favor do golpe os alienados políticos ou os entreguistas assumidos.

Os brasileiros de verdade precisam continuar denunciando o golpe e desmascarando e suas justificativas jurídicas e midiáticas.

O capitalismo faz mal à saúde

Quem pensa que o mercado sempre tem razão, não deve assistir o filme Código de Honra (Puncture) de 2012, dirigido pelos irmãos Adam e Mark Kassen (esse atuando também como ator) com Chris Evans (O Capitão América) no papel principal. O filme está disponível no Netflix.

Não deve assistir, porque o filme certamente vai abalar suas convicções sobre a excelência do sistema capitalista baseado na livre ação do mercado.

O filme, que conta uma história real, começa quando uma pequena firma de advocacia do Texas, Weiss & Dazinger, cujos sócios estão ansiosos por qualquer causa, assume a defesa de uma enfermeira que busca indenização depois de ter sido contaminada com AIDS, picada (puncture) pela agulha de  uma seringa não esterilizada.

Mike Weiss (Chris Evans), um dos advogados, é viciado em cocaína e enxerga o caso, inicialmente, como apenas uma forma de ganhar dinheiro para sustentar seu vício, mas, a medida em que se envolve no problema,  o transforma no seu objetivo de vida.

Até 1966 só se utilizavam nos Estados Unidos seringas de vidro, que após serem usadas, deveriam ser esterilizadas no calor.

A partir da morte do presidente da Thompson, uma das gigantes da indústria médica, que produzia as seringas de vidro, seus herdeiros optaram por um sistema de produção mais barato e de grande rotatividade: a seringa feita de plástico em vez do vidro.

Só havia um problema, ela não podia ser esterilizada, como as de vidro. A utilização da mesma seringa várias vezes, é apontada como uma das principais causas pela disseminação descontrolada dos mais diversos tipos de doenças – inclusive a AIDS – em todo o mundo,

Ao defenderem a enfermeira contaminada com AIDS por causa da picada de uma agulha durante o atendimento de um paciente, os advogados descobrem que essa era causa de milhares de mortes de trabalhadores da saúde, porque os hospitais se negavam a comprar um novo modelo de seringa totalmente descartável, que já estava disponível no mercado, mas que era mais caro.

E, mais do que isso, os empresários do setor, que dominavam a produção das seringas, exerciam uma forte pressão sobre os hospitais impedindo que comprassem o novo produto, usando meios lícitos e ilícitos.

No final, como é comum em filmes americanos de denúncias, um letreiro explica que a causa foi ganha pela firma dos advogados (nessa altura, Mike Weiss já tinha morrido de forma misteriosa) e a indústria médica, obrigada a pagar uma indenização de 150 milhões de dólares.

O que o filme não diz é que o uso da seringa totalmente descartável não é ainda uma prática obrigatória em todos os lugares, mesmo nos Estados Unidos, e com isso milhões de pessoas continuam sendo infectadas pelas seringas contaminadas e morrendo das mais diversas doenças,

Voltando ao aviso inicial aos defensores da primazia do mercado: esse é apenas um resumo frio da história do filme, sem um pingo da sua dramaticidade.

Se você é daqueles que acham que o Estado se intromete demais na vida das pessoas, não veja o filme para não perder seus argumentos.

Afinal, mesmo sendo um defensor ferrenho do mercado, certamente você não é tão desumano em acreditar que o lucro é mais importante que a vida das pessoas.

Então, não veja o filme.

O grande torturador

Hoje, quando aparecem os saudosos da ditadura militar  brasileira, é bom que se lembre o que elas significaram para as populações sul-americanas, mais especialmente as do Cone Sul

Há uns 10 anos, quando movimentos populares conseguiram eleger presidentes afinados com suas políticas na América do Sul, principalmente no Brasil, Argentina, Uruguai e Chile, veio à luz toda a barbárie de que os longos períodos de ditaduras militares trouxeram para estes países.

Um ajuste de contas com esse passado de horrores teve início, principalmente na Argentina, onde a ditadura militar parece ter sido a mais cruel de todas.

Embora a ditadura tenha sido construída para servir aos interesses econômicos dos Estados Unidos, ele assumiu uma face pública representada por comandantes militares e entre eles, seu maior símbolo pela sua crueldade mórbida, foi o almirante Emílio Eduardo Massera, morto em 2010 em decorrência de uma hemorragia cerebral.

Massera participou de dois golpes de estado, em 1955, contra Juan Peron e 1976, contra Isabelita Peron (Maria Estela de Martinez).

Membro do triunvirato militar que governou a Argentina (com o general Jorge Videla e o brigadeiro Orlando Agosti) Massera comandou o centro de clandestino de torturas da Marinha, em Buenos Aires, conhecido como ESMA (Escola Superior de Mecânica da Armada)

Em 1985, com o retorno da democracia, Massera foi condenado à prisão perpétua, mas em 1990 foi indultado pelo presidente Carlos Menen.

Em 1998, voltou a ser preso, acusado de seqüestrar e ocultar a identidade dos filhos dos presos mortos na ESMA, crimes não passíveis de prescrição.

Em 2.005, Massera foi declarado “incapaz” para ser julgado, “por motivo de demência”. Mesmo quando o Supremo Tribunal da Argentina confirmou a revogação de todos os indultos, Massera continuou protegido pela declaração de incapacidade mental.

Quando da sua morte em 2010, a deputada Victoria Donda, presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara de Deputados da Argentina lamentou que Massera morresse sem uma sentença: “O ex-ditador Emilio Eduardo Massera morre impune, o que representa uma afronta à democracia e suas instituições, a todos aqueles que pensam que o único lugar possível para o genocida seja a cadeia. Finalmente, uma afronta a toda a humanidade. No memorial deste povo, Massera aparecerá sempre como um homem nefasto, tido como representante da época mais escura da nossa História”

Recentemente, Massera voltou a ser lembrado no filme “Eva não dorme” de Pablo Aguero, interpretado por Gael Garcia Bernal, que narra o desaparecimento do cadáver de Eva Peron (Evita).

O Massera do filme é um personagem soturno, que se coloca como o perseguidor de Evita, mesmo depois de morta, sempre em busca de um ajuste de contas final.

Porque sou ateu

Não foi Deus quem fez o homem a sua imagem e semelhança. Foi o homem quem fez Deus a sua imagem e semelhança.

E por que fez isso?

Por que nos primórdios da humanidade, ele precisava de muitas respostas que a ciência, ainda embrionária, era incapaz de dar.

Quais suas origens?

Por que de repente a terra virava de cabeça para baixo com os terremotos?

Por que o mundo que ele conhecia, de um dia para o outro, ficava quase todo debaixo das águas?

Era Deus o responsável por tudo.

Fizera primeiro Adão e depois Eva. Destruíra Sodoma e Gomorra por causa dos pecados dos seus habitantes e mandara o dilúvio porque se cansara da humanidade.

Era uma tentativa de explicar o desconhecido através de fórmulas mágicas, mas de qualquer maneira uma hipótese rudimentar, mas ainda assim científica, na medida em que tentava estabelecer uma relação entre causa e efeito.

As religiões se estruturam em cima dessa ignorância humana, se consolidaram, foram se adaptando aos avanços da ciência, mas continuaram sempre no seu papel obscurantista de guarda de uma grande fantasia, a da existência de um Deus onipotente, onisciente e eterno.

Sua representação material é a igreja institucionalizada, com suas diversas identidades, católica, protestante, ortodoxa, islâmica, budista, espírita, mas sempre com um objetivo único, impedir que o ser humano se liberte dessa ignorância primeira.

Os que, de alguma maneira se libertaram desse jugo e que ainda possam ostentar uma higidez mental, têm obrigação de proclamar suas verdades para servir de exemplo para outros que ainda tenham dúvidas

Eu faço isso, proclamando meu ateísmo, até porque não esqueço o exemplo de Jean Barois, o personagem de Roger Martin de Gard, que justificou previamente a sua transformação de um ateu, em um crente no final da vida, ao escrever no seu testamento que “o homem que sou hoje, no pleno domínio da minha capacidade mental, deve prevalecer sobre o velho que serei um dia”.