As respostas estão nos livros

Os judeus eram chamados de O Povo do Livro.

O livro era o Torá, parte da Bíblia cristã.

Isto talvez explique um pouco, o poder político e econômico que alcançaram no mundo civilizado.

Os muçulmanos têm o Corão.

Mais do que armas, são os livros que organizam os povos, formam as nações, projetam as grandes mudanças da história.

As ideias não estão no ar para que possam ser alcançadas por qualquer um. Elas precisam ser lentamente digeridas, transformadas em frase e palavras e depois difundidas com vagar, num lento processo que vai dos mais hábeis na sua leitura, até chegar aos mais toscos, muitas vezes transformadas em simples palavras de ordem.

Quando alguém ergue um cartaz dizendo # Fora Temer, ele estará provavelmente sintetizando um pensamento político que começou com uma longa análise dos interesses envolvidos num processo que terminou com um golpe de estado de 2.016.

Os juízes dizem que o que não está escrito nos códigos de leis, não existe.

É pouco. Os códigos representam a fossilização do pensamento.

Existem livros e livros.

Alguns servem apenas para deixar registrado o presente, como os códigos de leis.

Outros apontam o futuro.

É sobre esses últimos, que vamos falar.

Nem sempre assumem o formato tradicional de livros. São impressos, muitas vezes, numa folha de jornal ou num panfleto de rua.

Estes é que são perigosos.

O famoso “J´´Accuse” de Emile Zola ocupou apenas a primeira página do jornal parisiense L´Aurore, em defesa de Albert Dreyfus, em 1896, mas é hoje citado como uma das peças mais importantes contra o preconceito racial no mundo inteiro.

O documento social mais importante do mundo moderno, o Manifesto Comunista de Karl Marx e Friedrich Engels, escrito em 1848, que serve desde então como orientação para os movimentos socialistas do mundo inteiro, foi originalmente uma publicação com não mais do que 30 páginas.

Embora o pensamento mais retrogrado do século XX esteja contido também num livro – Minha Luta (Mein Kampf) de Adolf Hitler – de um modo geral, os ditadores e principalmente os que representam a direita política, temem os livros.

A queima de livros em praça pública, em maio de 1933, em Berlim, de autores como Freud, Einstein, Stefan Zweig, Thomas Mann e Erich Maria Remarque, é desde então, um símbolo do ódio dos nazistas ao novo.

Quantas pessoas no mundo inteiro, se confessaram socialistas e humanistas, depois de lerem Les Thibault, de Roger Martin de Gard?

Milhares de pessoas leram o romance, ambientado na França às vésperas da Primeira Grande Guerra e aprenderam com Jacques Thibault, que as disputas capitalistas levam sempre às guerras.

Roger Martin de Gard ganhou o prêmio Nobel de Literatura em 1937, quando o mundo estava às vésperas de um nova guerra mundial.

Quem transformou LuÍs Carlos Prestes no Cavaleiro da Esperança, foi um livro de Jorge Amado, que começa assim:

“Te contarei a história do Herói, amiga, e então não terás jamais em teu coração um único momento de desânimo. Como naquelas noites em que o seu nome, balbuciado por vezes a medo, afastava a amargura e o terror, agora eu falarei dele pra que tu e o povo do cais que me ouve, saibam que podem confiar que a noite não é eterna”

O livro foi publicado em espanhol, em Buenos Aires, em 1942, e trazido clandestinamente para o Brasil. A primeira edição brasileira apareceu em 1945, mas a partir de 1964, foi proibido novamente, só voltando a ser editado em 1979, porque os ditadores da ocasião sempre temeram a força de um livro.

Talvez, o que esteja faltando hoje no Brasil, sejam políticos que leiam mais livros. A pobreza dos argumentos apresentados, mesmo em defesa de posições mais progressistas, é constrangedora.

Talvez a única grande exceção a essa regra seja o ex-governador Tarso Genro, que semanalmente, em seu espaço no Sul21, analisa a situação política do Brasil a partir de uma posição intelectual solidamente embasada nos ensinamentos de grandes autores, não só da política, como também em outras áreas do conhecimento humano mais avançado.

Como ele parece, ainda assim, acreditar que a retomada do caminho, que um dia levará o Brasil a se libertar do capitalismo financeiro predatório internacional, esteja dentro das regras da sociedade democrática ocidental e não numa opção mais radical, não custa lembrar a ele, o que diz István Mészáros em seu livro Atualidade Histórica da Ofensiva Socialista:

“O discurso político tradicional geralmente proclama o sistema parlamentar como o centro de referência necessário de toda a mudança legítima. Sem o estabelecimento de uma alternativa radical ao sistema parlamentar não pode haver esperança de desembaraçar o movimento socialista da sua atual situação, à mercê das personificações do capital que existe em suas próprias fileiras“

Mészáros é radical na crítica às opções reformistas feitas no passado por partidos comunistas e trabalhistas, principalmente o Partido Comunista Italiano, com o seu fracassado projeto de “compromisso histórico” e o Partido Trabalhista Inglês com a sua ilusória “terceira via”. Sobra também para Gorbachov, que segundo ele fechou o Partido Comunista da União Soviética com um decreto.

Segundo ele, “o movimento socialista não terá sucesso, a menos que se rearticule como um movimento revolucionário de massas, ativo de maneira consciente em todas as formas de luta política e social: local, nacional, global/internacional. Um movimento revolucionário de massas capaz de utilizar plenamente as oportunidades parlamentares, quando disponíveis, ainda que limitadas nas atuais circunstâncias, e, acima de tudo, sem medo de afirmar as demandas necessárias da ação extraparlamentar desafiadora”

 

A Quadrilha

 

Todo mundo lembra, ou devia lembrar. aquele poema do Carlos Drummond de Andrade, chamado A Quadrilha.

“João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou pra tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história.”

O que vou contar, não tem nada ver com o Drummond, pois se se trata de uma história verdadeira ( true story) que abalou a tradicional família garibaldense (ou seria garibaldina?) nos idos de 1950 (que para os católicos, foi um ano santo).

Juliana era casada com Afonso, mas tinha um caso com Roberto, que era amante de Marcela, mulher do Flávio. Este conhecera biblicamente a Juliana, mas hoje vivia em concubinato com a Ester, ex-mulher do Fernando, que era delegado de polícia e que segundo se comentava na cidade, participava de um triângulo amoroso com a Vera e a Elenita. Versões correntes na cidade,diziam que Violeta, amante do Padre Heitor, era dada a perversões, e tinha um a caso com Tereza, a madre superiora.

Tudo bem. Esses arranjos, nenhum público, mas todos de conhecimento público, eram aceitos por todos, inclusive pelo juiz da cidade, o Dr. Barcelos, que segundo se dizia a boca pequena (boca chiusa) fazia um triângulo amoroso com Fátima, sua mulher e Diógenes, o jardineiro, onde os vértices se encontravam aleatoriamente.

O que provocou o grande escândalo na cidade, gerando inclusive a intervenção do Bispo Sardinha, que nomeou seu amante, o Pardal, como seu agente especial para resolver o imbróglio, foi a decisão de todos os envolvidos de assumir as relações,mesmo as heterodoxas e passarem a viver juntos ( e em pecado, segundo Sardinha e Pardal) publicamente, num grande casarão que passou a ser conhecida como A Maravilhosa Casa dos Pecados

 

O Rolha

Durante os trinta anos que trabalhou na empresa, sempre foi o Rolha. Se era sobrenome ou apelido, ninguém perguntava.Era apenas Rolha. Os mais novos, diziam respeitosamente “seu” Rolha.

Os mais antigos, seus amigos dos churrascos de fim-de-semana, na intimidade, o tratavam por Rolhinha.

O Rola fez carreira na empresa. Começou como boy e chegou a gerente da expedição.

Semana passada, quando finalmente se aposentou, a empresa, como fazia com todos que chegavam a esse tempo de serviço, lhe ofereceu uma festa de despedida. 

Muitos discursos fizeram com o que o Rolha se emocionasse e quando o chefe geral, o Dr. Aristides, antes de lhe entregar uma caneta Parker 51 de lembrança, lhe chamou de “o inestimável Rolha”, lágrima correram pelo canto dos seus olhos.

Foi exatamente nessa hora que o Robertinho,,o funcionário mais novo do escritório e que já tinha bebido bastante, se fez ouvir lá do fundo da sala.
– Por que esse Rolha ? É sobrenome ou apelido?

Um silêncio enorme se fez e todos olharam para o Rolha, esperando sua resposta.

Esse ficou sério alguns segundos. Levantou-se da cadeira. Olhou para o fundo da sala, de onde viera a pergunta. Abriu lentamente a boca, come se fosse dizer algo, e foi fechando os olhos.

Os que estavam mais perto, conseguiram segurar o Rolha antes que ele desabasse no chão.

O enfarte foi fulminante e os amigos se consolavam dizendo que ele não tinha sofrido muito.

O enterro foi no dia seguinte. 

A firma publicou uma nota nos jornais com o título “Agradecimento ao Rolha”

O sujeito que fez a pergunta, foi demitido sumariamente.

O espelho mágico

Todo mundo conhece aquela história infantil da Branca de Neve e da rainha má e seu espelho mágico.

Fico imaginando o que um espelho mágico como aquele nos mostraria, hoje, se parássemos na frente dele.

Certamente nossa imagem não seria das melhores.

Como é um espelho mágico, ele não mostraria apenas a nossa aparência física, mas também os nossos sentimentos.

É claro que não precisamos sair espalhando por aí os nossos defeitos, mas eles estriam lá, mostrados pelo espelho.

Somos mesquinhos, invejosos, raivosos.

Caso o seu espelho mágico, como o meu, tenha um registro desses sentimentos, veremos que no passado, muitas vezes desejamos a morte dos nossos inimigos; tivemos inconfessáveis preconceitos de todo o tipo, de raça, de cor e de gênero; invejamos profundamente o sucesso de outros e ficamos torcendo para que, finalmente, aconteça alguma coisa errada em suas vidas.

O que espelho não mostra, porém, é que diariamente tentamos domar esses sentimentos menos nobres, porque sabemos que para viver numa sociedade, precisamos estabelecer limites para eles.

Não precisamos ler Freud e seus divulgadores para saber que civilização é repressão.

Fosse fácil viver respeitando os direitos dos nossos semelhantes, quando vemos que isso significa uma perda de espaço nosso, nossa condição de seres civilizados não teria o mérito que tem.

Eu, como tantas outras pessoas que conheço e talvez mesmo a maioria das pessoas, somos combatentes diários na conquista da vida civilizada.

Mas nem todos são assim, infelizmente.

Assistimos hoje no Brasil a ascensão de uma série de personagens que se sentem liberados para externar os piores sentimentos que o ser humano pode ter – ódio, preconceito, inveja – e se orgulharem deles.

Ao contrário de nós, que os reprimimos, eles o proclamam publicamente.

Obviamente, estou falando de Bolsonaro e seus principais seguidores.

Nunca na história recente do Brasil, mesmo durante a ditadura militar, o governo foi representado por figuras tão mesquinhas, vulgares e até mesmo caricatas, a começar pelo próprio presidente e seguindo com seus ministros como Onix Lorenzoni, Ernesto Araújo, o colombiano Ricardo Velez Rodrigues e a pastora Damares Alves, isso sem esquecer os agentes do mal, Paulo Guedes e Sérgio Moro.

Dispondo de um extraordinário poder de disseminação de suas ideias, eles estão ajudando a liberar em milhões de brasileiros esses baixos sentimentos.

Talvez esse despertar de tanto ódio forme uma torrente de sentimentos incapaz de ser contida nessa nossa geração.

Nós, que nos consideramos civilizados ou que pelo menos nos esforçamos para viver como se fôssemos, tentamos erguer contra ele uma barreira feita de argumentos racionais, que poderiam ser aceitos em outra época.

Hoje, vamos ser varridos do mundo da política sob os aplausos da maioria dos brasileiros.

Talvez, precisaremos voltar às catacumbas dos antigos cristãos ou às velhas células comunistas, para defender os pequenos espaços de sanidade que ainda nos restam.

Quem sabe, espaços para discutir literatura, cinema e lembrar como era aquela época, onde homens e mulheres se sentiam fraternalmente ligados por sentimentos de amor, justiça e igualdade.

Enquanto isso, acho que vou quebrar o meu espelho mágico.

A hora da união

Toda a resistência da esquerda brasileira ao processo de consolidação de um sistema cada vez mais autoritário de direita que se instalou formalmente no Brasil em 1º de janeiro de 2019, passa necessariamente pelo PT.
Apesar de todos os seus erros, durante os 14 anos em que governou o Brasil, o mais grave de todos o de não consolidar os instrumentos de poder que a população lhe outorgou, o PT é o partido melhor estruturado no País e o único capaz de mobilizar sues quadros políticos para o enfrentamento das medidas antipopulares que se anunciam.
O PT precisa, porém, tomar uma decisão extremamente difícil, a de separar a luta pela libertação do seu fundador e líder inconteste, o presidente Lula, preso sem provas de qualquer culpa, em Curitiba, da resistência ao governo Bolsonaro, que traga consigo uma perspectiva, mesmo que distante, de reconquista do poder, junto com outras forças de esquerda.
A associação da libertação de Lula com a oposição às medidas antipopulares do novo governo vai levar as esquerdas a um beco sem saída.
Com o apoio do parlamento, a omissão do judiciário, o silêncio da mídia e a garantia das forças armadas, o governo não permitirá a liberdade de Lula enquanto imaginar que ele possa representar um perigo ao sistema.
Lula livre é uma causa justa e necessária para que possamos nos considerar uma nação que respeita uma norma elementar do direito, a de que sem provas não se pode tirar a liberdade de uma pessoa, ainda mais de alguém com a importância histórica que Lula teve para o Brasil.
Mas o enfrentamento político ao governo Bolsonaro, principalmente na área econômica representada por Paulo Guedes e da repressão aos movimentos contestatórios , que ficou sob o comando de Sérgio Moro, deve ser feito apontando para o futuro e não para o passado.
O governo se apressa para por em prática o que prometeu fazer na campanha eleitoral, como a reforma da Previdência, diminuição de direitos trabalhistas e privatização de empresas públicas.
São agendas de discussões que obviamente não têm apenas um lado de entendimento. Cada uma delas, se prejudica uma parte maior da população, beneficia outras, que mesmo minoritárias, têm poder de comunicação muito grande.
Uma simples leitura de algumas propostas do Bolsonaro mostra que mesmo aquelas que as pessoas mais bem informadas entendem como antipopulares, podem ser lidas ao contrário por outros.
Tomemos um exemplo de um discurso dele:
“É melhor para o trabalhador ter menos direitos e mais empregos.”
Esse discurso para os milhões de desempregados no Brasil soa como música. Mesmo aquele que está trabalhando, mas se sente ameaçado, pode concordar com essa máxima popular: “pouco é melhor que nada”, que está implícita no discurso.
Como enfrentá-lo?
Racionalmente, sabemos que a perda de garantias trabalhistas (Bolsonaro já falou na extinção da Justiça do Trabalho) serve apenas para aumentar os lucros dos patrões e em vez de garantir os empregos, apenas os tornam mais precários.
O problema todo é traduzir essa racionalidade para uma percepção emocional de quem vai ser atingido objetivamente por essa política, mesmo que não se dê conta inicialmente.
Será preciso discutir essa e outras agendas com a população, até mesmo se valendo de alguns meios que a equipe do então candidato Bolsonaro mostrou ser eficientes, como o uso das redes sociais, claro que não para divulgar fakes news como ela fez, mas sim com a sistemática divulgação do verdadeiro sentido das propostas do governo.
Outra agenda fundamental a ser discutida é a questão da segurança pública. A direita conseguiu consolidar na mente de uma boa parte da população a ideia de que o problema pode ser resolvido com o aumento das penas aos criminosos, seja qual for o crime praticado, a diminuição da idade para a responsabilidade penal, a construção de mais prisões e na versão simplificada de Bolsonaro e seus seguidores, a pura e simples aplicação do conceito de “bandido bom é bandido morto”.
Como mostrar de forma convincente que somente com investimentos fortes nas políticas de eliminação da miséria e nas áreas de educação e saúde das crianças, será possível ter esperanças de se criar um mundo mais seguro?
Como confrontar um discurso voltado para o futuro com o imediatismo das soluções simplistas que a direita oferece?
Obviamente é uma tarefa difícil, mas parece que não existe outro caminho para os partidos de esquerda, principalmente o PT, senão enfrentá-la.
Discutir em profundidade esses temas é o primeiro passo em busca de uma pauta comum para toda a esquerda brasileira

As histórias de assombração

Onde foram parar as histórias de assombração, tão comuns no passado?

O mundo dos vivos e dos mortos, parece que não tinha barreiras os separando e personagens do passado dialogavam comumente com os do presente, quase sempre para relatarem problemas e pedirem ajuda para suas “vidas” pós morte.

Era muito comuns, os mais velhos reunirem a família para contar essas histórias. O meu pai era um desses exímios contadores, em saraus que reunia a pequena família para momentos de grandes emoções e não pouco terror. Seu prato forte era a casa mal assombrada em que a família viveu em Lajeado no início dos anos 40 anos.

Embora fosse um bebê na época, tinha,mais tarde, delineada totalmente na minha cabeça a geografia da casa, localizada convenientemente ao lado da estrada do cemitério, seus inúmeros quartos , os passos que ecoavam durante toda a madrugada pelos corredores e as súbitas correntes de ar que arrepiavam as pessoas, isso sem contar com constantes batidas na porta.

Lembro como se fosse um filme, meu pai decidido, durante uma dessas noites cheias de passos que sacudiam o assoalho, a caçar o intruso. Com os pés e as mãos sobre o chão, de quatro, como se fosse um gato, com as luzes apagadas, percorria a casa inteira para surpreender o invasor e terminava sempre sem sucesso.

Como minha mãe dizia que a casa era tão grande e família tinha poucos móveis, que algumas peças ficavam sempre vazias e fechadas,na ânsia de encontrar uma justificativa real para aqueles passos, sopros, batidas e vozes, imaginava que alguém instalara algum equipamento de som numa das peças vazias, para assustar a família por alguma razão qualquer. Obviamente nunca levantei essa hipótese junto do meu pai.

Muitos anos depois, já casado e com filhos, me valendo da amizade com o Werner Altman, que era de Lajeado, fui visitar a cidade a procura da tal casa mal assombrada. Ela devia ficar na entrada do cemitério católico, mas para minha decepção não havia mais nenhuma casa por ali.

Se houve alguma vez, desapareceu com todos os fantasmas que acompanharam a minha infância. Quando resolvi escrever essas lembranças, procurei no Google algum registro dos programas de rádio que contavam histórias de assombração e eram muito comuns.

No youtube, inclusive, tem um deles, o mais famoso da época: Incrível ! Fantástico ! Extraordinário ! que o Almirante produzia na Rádio Tupi do Rio de Janeiro, com o patrocínio de Guaraína, um remédio para dor de cabeça.

Ouvindo a radiofonização de uma história – o da Noiva Morta – me dei conta que a gente se assustava com muito pouco na época.

O Barão e eu

O gaúcho de Rio Grande, Aparício Torelly (1895/ 1971) ficou famoso no Brasil inteiro como o Barão de Itararé, um dos primeiros jornalistas a cultivar um humor inteligente e crítico, que mais tarde teria seguidores como o Millor Fernandes, o maior de todos,Luís Fernando Veríssimo e o pouco lembrado Jota Be, o João Bergmann, que escreveu durante muito tempo no Correio do Povo e na Folha da Tarde.

As ironias do Barão começavam pelo título que escolheu para assinar seus textos, Itararé, uma batalha que deveria ter sido sangrenta na cidade paulista de Itararé, mas que acabou não acontecendo na Revolução de 30, porque as tropas legalistas se entregaram antes.

Alguns dos ditos do Barão são lembrados até hoje.

“A pessoa que se vende recebe sempre mais do que vale“
“Este mês, em dia que não conseguimos confirmar, no ano 453 a. C., verificou-se terrível encontro entre os aguerridos exércitos da Beócia e de Creta. Segundo relatam as crônicas, venceram os cretinos, que até agora se encontram no governo.“
“Há qualquer coisa no ar, além dos aviões de carreira.“
“Os vivos são e serão sempre, cada vez mais, governados pelos mais vivos.“
“O tambor faz muito barulho, mas é vazio por dentro.”
“O casamento é uma tragédia em dois atos: um civil e um religioso.“
“De onde menos se espera, daí é que não sai nada”.
“Quando pobre come galinha, um dos dois está doente”

Em 1961, eu trabalhava como repórter na Última Hora, a profissão mais incompatível para um sujeito tímido como eu era aos 20 anos.  O que me salvava era uma certa facilidade em escrever, qualidade incomum no meio de jornalistas, quase todos analfabetos funcionais e a proteção de algumas figuras importantes na redação, os que escreviam o que os repórteres  traziam  das ruas, como o Flávio Tavares, o Ibsen Pinheiro, o Florianinho  e o Ivo Correa Pires.

Um dia, me mandaram entrevistar o Barão de Itararé, que estava hospedado no Hotel Plaza, o Plazinha da  Senhor dos Passos.

E lá fui eu, tremendo de medo, para tentar ouvir o humorista famoso, até porque o pedido viera do Rio, do Samuel Wainer, o dono da Última Hora.

Na portaria avisaram que o Barão tinha pedido para não ser importunado, mas eu poderia tentar falar com ele pelo telefone.

Foi o que fiz, apressando em me apresentar.

O Barão perguntou então o que eu queria saber dele.

Procurando colocar o sujeito, o verbo e os complementos no lugar certo, respondi

– O que o trouxe a Porto Alegre, Barão?

– Isso, posso responder pelo telefone, foi um avião da Varig.

Nesse momento senti que minha experiência como repórter terminava ali. No desespero,  resolvi apelar para os sentimentos de pena do Barão.

– Se o senhor não me receber, volto para o jornal agora e amanhã estou desempregado.

Funcionou.

Não só.o Barão  me concedeu uma longa entrevista, falando de tudo, como me convidou para almoçar e no final me fez uma proposta inesperada.

– Como estou vendo que você não está anotando o que falei, vou escrever uma série de perguntas e suas respostas.  Você passa amanhã aqui no hotel e pega esse material.

Foi o que fiz.  No dia seguinte, estava lá portaria, em várias folhas de um bloco pautado, as perguntas e respostas do Barão, tudo escrito numa caligrafia irrepreensível.

Feliz da vida, retornei ao jornal, esperando ser recebido com aplausos. Em vez disso, o secretário de redação me disse:

– Você pensa que isso é uma revista que sai uma vez por semana?

Meio desanimado, mas ainda confiante na qualidade do material que tinha,sentei diante da minha Olivetti e escrevi uma dúzia de laudas.

No dia seguinte, estava lá na Última Hora uma síntese do que tinha escrito: “Barão de Itararé elogia em Porto Alegre o governo de Fidel.” Isso, mais umas duas ou três linhas..Era o tal espírito de síntese que os tabloides como a Última Hora deviam observar.

As páginas do bloco, com as perguntas e respostas do Barão, conservei durante algum tempo, mas depois as perdi numa das minhas mudanças de vida.

Políticos à venda

O sistema capitalista se sustenta pela sua capacidade de oferecer para as pessoas uma renovação constante de bens de consumo.

Através dos meios de comunicação, as pessoas, transformadas em consumidores, são estimuladas permanentemente a procurar o novo, esteja ele em objetos de maior custo, como a casa onde vai morar ou o automóvel em que vai andar, ou mesmo em objetos mais comuns, como o creme dental para a higiene bucal ou a cerveja para aplacar a sede.

Como hoje se produz para o consumo numa escala global, a automatização da produção cresce constantemente.

Se isso facilita para o produtor capitalista oferecer uma quantidade sempre maior de produtos, por outro lado, faz com que o seu produto final seja praticamente igual ao do seu concorrente, que se utiliza das mesmas matérias primas e usa os mesmos instrumentos de produção.

Qualquer avanço que um capitalista consiga agregar ao seu produto final para gerar uma diferença positiva em relação ao seu concorrente, logo será copiado por ele, sem os custos que o primeiro capitalista teve em desenvolvimento de pesquisas para obter algum diferencial.

A partir de determinado momento ficou claro para qualquer capitalista que seria mais barato, rápido e eficiente, investir na imagem do seu produto do que no seu aperfeiçoamento.

O casamento do sistema capitalista de produção com técnicas de convencimento dos consumidores  se desenvolveu extraordinariamente nos últimos anos a ponto de ser responsável pelo sucesso ou fracasso de um produto.

Quando deixou de ser um produto para se transformar numa marca, ele como que ganhou vida própria e vai ter sucesso ou fracassara na medida em que for mal ou bem recebido pelos consumidores.

O marketing, com a sua principal variável, a publicidade, faz com que dois produtos iguais, mas com marcas diferentes, possam ter futuros completamente opostos, de sucesso ou fracasso.

Todos nós sabemos como isso funciona e de alguma maneira concordamos quando os marqueteiros e publicitários nos dizem que é o trabalho deles que gera progresso, faz surgir empresas e traz mais trabalho para todos, além de ser uma forma democrática, ainda que restrita, de escolha.

É claro que esse trabalho que eles produzem gera uma obsolescência programada de produtos – é preciso matar o velho (seja ele um carro, um celular, ou uma camisa) para surgir o novo o que, no final de contas, significa um grande desperdício de bens e energia.

Mas isso é assunto para outra história.

O que se pretende chamar a atenção aqui é que a transferência dessas técnicas de venda de produtos de consumo para o campo da política tem efeitos devastadores para a democracia.

Ao transformar eleitores em consumidores, vendendo candidatos e políticos como se sabonetes fossem, se gera um processo de alienação que embrutece as pessoas e tira delas o que deveria ser sua maior qualidade, a capacidade de pensar por conta própria.

No mundo inteiro, essa transferência das técnicas do marketing comercial para o marketing político é cada vez maior e mais eficiente, gerando a eleição de figuras tão nocivas como um Trump, nos Estados Unidos, um Macri, na Argentina e a pior de todas elas, por nos dizer respeito diretamente, a de Bolsonaro, no Brasil.

Interessante como esse processo é quase que universal.  As grandes mídias que sustentam o sistema, apontam um determinado segmento que se quer afastar – quase sempre um partido de esquerda ou nacionalista – do jogo político com uma acusação vaga e imprecisa – a corrupção normalmente – e logo surgem os candidatos que se apresentam como opositores a isso.

O Brasil viveu experiências muito típicas desse procedimento, que foram evoluindo e se tornaram cada vez mais eficientes.

Em 1954, Carlos Lacerda era o porta-voz nos jornais e na televisão que se iniciava, da “corrupção” no governo de Getúlio Vargas, era o famoso “mar de lama nos porões do Palácio do Catete”.

Em 1961, Jânio  Quadros, que fizera uma carreira meteórica que o levara de vereador, deputado estadual, federal, prefeito a governador de São Paulo, chegou à Presidência da República brandindo uma vassoura que ia varrer a corrupção.

Varre, varre, varre vassourinha! /  Varre, varre a bandalheira!Que o povo já ‘tá cansado /  De sofrer dessa maneira / Jânio Quadros é a esperança desse povo abandonado! / Jânio Quadros é a certeza de um Brasilmoralizado

Governou por sete meses e depois renunciou.

Em 1964, os militares iniciaram uma ditadura que durou 20 anos e que pretendia combater além da subversão, a sempre lembrada corrupção.

Depois de um período, onde o presidente – José Sarney – foi eleito pelo Congresso e onde as denúncias de corrupção eram quase diárias, o Brasil elegeu Fernando Collor, presidente. Filho de um oligarca nordestino – o senador Arnon de Mello – depois de ser prefeito de Maceió e governador das Alagoas virou Presidente em 1990, se auto intitulando  O Caçador de Marajás e com o apoio aberto da Rede Globo.

Caiu dois anos depois, envolvido numa série de escândalos.

Agora a história se repete com Jair Bolsonaro, eleito para combater os anos de “corrupção petista”, mas já envolvido em denúncias de corrupção em sua própria casa.

A eleição de um político obscuro e de nenhuma cultura, parece ser a forma acabada do uso de técnicas de marketing na transformação de um político num objeto de consumo para suprir as carências emocionais das massas.

Independente do Bolaisonaro ser um produto que vai cumprir as promessas  que seus criadores dizem que ele fará, o que chama a atenção é que ele é “vendido” para os seus eleitores/consumidores não como um político que vai dialogar com a sociedade para construir os melhores caminhos, mas sim como um objeto de uso.

.Muitos dos seus críticos, para não dizer seu nome, falam o COISO.

Faz sentido, mas talvez fique melhor na versão feminina: COISA.

Virou um produto de consumo como se fosse um inseticida,uma coisa.

Conta pulgas e baratas, use Detefon, dizia aquele velho anúncio.

Contra a corrupção, aplique uma dose de Bolsonaro, que passa.

Pior é que mais da metade dos brasileiros que votaram em outubro, acreditaram nisso.

A dor da gente

Lembra aquela música do Chico, Notícia de Jornal, onde ele canta que a dor da gente não sai no jornal. Lembrei da letra por causa de uma pequena tragédia (pequena para nós, os outros) ocorrida aqui nesse mundo onde moro na Zona Sul.

São duas torres (já me avisaram que não devo dizer blocos, que aí é coisa de pobre) com 17 andares cada uma, onde vivem os representantes da classe média baixa da nossa cidade, a maioria, provavelmente eleitora do Bolsonaro. Por baixo, devem viver aqui umas 300 pessoas. Conheço poucas delas e de uma meia-dúzia no máximo, sei os nomes.

Na véspera do Natal, quando chegava no prédio, vi um movimento desusado na entrada da minha torre. Um grupo formado por uma senhora, que parecia bastante nervosa, o síndico, três brigadianos e uma outra pessoa, que soube depois ser o chaveiro, estava entrando na minha torre.

Eles iriam arrombar um apartamento, onde vivia a filha da senhora e que tinha deixando uma mensagem telefônica suspeita para ela. Como estava saindo, só hoje fiquei sabendo da história. A filha havia telefonado para a mãe para que ela viesse buscar o seu gato de companhia. Como depois disso não atendeu mais os chamados da mãe, essa contratou um chaveiro para abrir a porta.

Não sendo moradora do prédio, foi preciso a presença do síndico e dos policiais. Todo mundo já deve ter imaginado a cena que esse grupo encontrou quando arrombou a porta.
No Natal e no fim-de-ano, as pessoas que vivem sozinhas, como eu e quase todos meus vizinhos aqui no prédio, parecem ficar mais sensíveis e tentados a gestos mais ousados.

Depois passa, até porque a dor dessa gente não é notícia para os jornais.

Aos amigos e inimigos.

Como estamos chegando ao fim do ano vou aproveitar para fazer algo totalmente original nos meios de comunicação, uma retrospectiva dos principais fatos de 2018, obviamente vistos pela minha ótica pessoal.

O primeiro e maior de todos é a profunda desesperança no futuro do nosso país que sobreveio ao resultado das eleições presidenciais.

Depois daquele estelionato eleitoral que foi a eleição de Fernando Collor, em 1990, nas primeiras eleições diretas no Brasil após a ditadura militar, jamais se poderia esperar que o candidato vencedor de agora, fosse alguém que retrocederia ainda mais, alguém que colocasse como seu exemplo de Brasil, aquele tormentoso período, que começou em 1964 e se prolongou por 20 anos, com prisões, tortura e morte de milhares de brasileiros.

Todos nós, que zombávamos dos americanos por terem eleito um bufão como Donald Trump como seu presidente, fizemos pior,  elegemos como nosso presidente um ex-capitão do Exército, um indigente mental, que  tenta disfarçar sua fraqueza intelectual, com um discurso extremamente agressivo.

O ano que termina, alem da eleição para a Presidência de uma figura tão primária e tosca como Bolsonaro, será lembrado também como o ano em que uma farsa jurídica como a Lava Jato foi capaz de interferir diretamente nas eleições, ao prender sem provas, o candidato favorito à Presidência, Lula. Tudo sobre os olhares complacentes do Judiciário, do Parlamento e com amplo apoio da grande mídia.

Nessa altura do texto sobre o que foi o ano de 2018, me dou conta que pouco sobrou fora da Lava Jato, das eleições, do Lula, do Bolsonaro e do Moro, que merecesse entrar numa minha retrospectiva pessoal.

Talvez a decepção com mais um ano sem um grande título para o Internacional, ainda que em certo momento nossos corações colorados se enchessem de esperança.

Restou o prazer de ver que o grêmio também não foi longe, caindo no último momento, no que pode ter sido a nossa maior alegria esportiva do ano.

Para não dizer que nem tudo deu errado para nós, uma brasileira, não só viu Jesus Cristo, como teve um diálogo com ele num lugar extremamente imprevisível, uma goiabeira.

Foi também um ano que nunca se falou tanto na importância das mídias sociais, no Facebook e no Whats Apps, ainda que nesse campo das comunicações, eu continue preferindo a leitura da Zero Hora, porque é através dele e de boa parte dos seus comunicadores, que cada vez mais, acredito na minha teoria de que o ser humano foi uma experiência que realmente não deu certo.

Que 2019 não seja pior do que 2018, é o que desejo para meus amigos.

Para os inimigos, desejo que continue tudo assim como está.