A palavra Comunismo não ofende


Você diz, comunista, e as pessoas te olham, ora com desdem – não percebe que o comunismo já era, que fracassou? – ora com espanto – ainda existe um que acredita nisso?

Outros te atacam com argumentos pretensamente históricos – fracassou na Rússia e não deu certo em lugar algum.

Tem os mais informados – traíram as ideias de Marx – com Lenin ou Trotski talvez tivesse dado certo, mas Stalin estragou tudo .

Tem os agressivos – vai para Cuba ou Coréia do Norte para ver o que é bom. 

Enfim, por que essa palavra – comunismo – provoca tantos sentimentos exaltados?

No dicionário está escrito que a palavra comunismo provém do latim “communis”, o que é comum a todos. A sociedade humana se socializou sobre a forma comunista no seu passado mais remoto. Não havia outra forma de enfrentar as dificuldades que a natureza impunha.

Com o passar dos séculos, os mais fortes, os mais inteligentes, os mais hábeis foram se destacando e a sociedade evoluiu, assumindo novas formas de apropriação das riquezas, chegando até ao capitalismo atual.

Ele gerou progresso, riqueza, mas tem um problema grave. Ele é excludente sob o ponto de vista social. Ele deixa de fora das suas benesses a maioria da população. Então, as vanguardas intelectuais foram formulando novas maneiras mais humanas de organizar a sociedade.

Marx foi o que mais avançou nesse sentindo, ao sintetizar as três mais importantes correntes do pensamento ocidental – o socialismo utópico francês, a filosofia alemã e o pensamento econômico inglês – formulando uma teoria, que hoje chamamos de marxismo, destinada a organizar o caminho para a criação de um sistema social mais justo e humano.

Várias tentativas foram feitas no sentido de se chegar ao que Marx chamava de comunismo. Umas, como a Comuna de Paris, duraram semanas e outras como a Revolução Russa duraram décadas. O capitalismo levou mais de 500 anos para chegar ao modelo atual. O comunismo certamente levará menos tempo.

Filósofos, com Meszaros, Bodieu, Zizek e Losurdo, entre outros pensadores, escrevem continuamente sobre esse processo. Como ele será, é um tema em aberto, mas não podemos abrir mão de chegar lá, acima de tudo porque ele tem um conteúdo ético que o capitalismo, apesar do seu sucesso, nunca teve.

Comunismo significa igualdade de oportunidades para todos, ou como dizia muito melhor, Rosa Luxemburgo:um mundo onde sejamos socialmente iguais, humanamente diferentes e totalmente livres.

Bola de meia

O que acontece quando se morre?

Aqueles que tinham confessado seus pecados e depois comungado, iam direto para o céu, esclarecia o Padre Bombardeli, nas aulas de catecismo do Colégio  São Tiago, em Farroupilha.

Naquela época, morrer era uma coisa tão distante quanto aqueles afluentes do Amazonas que o professor de Geografia, nos obrigava a decorar.

Na margem direita, Purus, Madeira e Tocantins.

Eu sabia tudo de cor, margem direita, margem esquerda, mas no fundo era como a morte, não acreditava que fosse uma coisa de verdade.

De verdade era aquela bola feita com uma meia de cano longa cheia de panos, objeto de desejo nos períodos de recreio.

Ela não picava – depois no dicionário iria aprender que o verbo certo era quicar – mas isso não importava muito.

Não havia nenhuma organização prévia, nenhum time definido. Quem chegava ia chutando a bola do jeito que dava. Ela rodava de um canto para outro sempre ao alcance de um pé mais atrevido.

Dizer que era melhor que uma bola de couro, podia parecer uma heresia. Talvez fosse só despeito.

A bola de couro era da turma dos maiores. Raramente surgia uma chance de usá-la. Mas a verdade era que ela não era tão dócil como a bola de pano. Ela picava – quicava, aprenderíamos depois – nervosa de um lado para outro e muitas vezes, acabava escapando para dentro de uma sala de aula, quebrando um vidro ou, pior do que tudo, batendo com força num daqueles padres que caminhavam pelo pátio com o rosário entre os dedos.

Aí não tinha jeito. A bola era confiscada e a turma enfrentava um castigo. Todo mundo ia embora e os jogadores ficavam escrevendo 100 vezes nos seus cadernos “não devo jogar bola no recreio”.

Com as bolas de meia, os padres não se incomodavam.

O único problema é que quando terminava o recreio a gente voltava para a sala de aula pingando suor por todo o corpo.

O professor Inácio perguntava qual o sujeito daquele verso do hino nacional “Ouviram do Ipiranga as margens plácidas” e quando a gente se levantava para responder, sentia aquele fio de suor correndo pelas costas.

Hoje, nem lembro mais os nomes dos afluentes do Amazonas.

Sobre a morte, porém, tenho pensado bastante.

Quanto a confessar e depois comungar, acho que não vai resolver muito, mesmo porque, com o passar do tempo virei um ateu.

O direito de matar

Quem é um ateu como eu,  pode tomar certar liberdades com Deus, que um católico praticante não pode.

Imagine que Deus entre em contato com você (pode ser aqui mesmo no facebook) e diz que não aguenta mais fazer a lista dos que vão morrer todos os dias – só de chineses, são milhões – e pede a sua ajuda.

Você vai poder fazer a sua listinha.

Confesse que pelo menos uma vez na vida você pensou nisso.

Mas quem você vai escolher. Não vale as obviedades – Moro, Temer ou o Luan, do  grêmio, se for colorado – essas Deus mesmo poderia fazer.

Aquele sujeito falando alto pelo celular no ônibus cheio? Ou aquele colunista sacana daquele jornal que você nem gosta de dizer o nome? Quem sabe aquela perua dizendo que “adooora” o Rodrigo Hilbert para sua amiga, mais perua ainda, na academia de musculação? Ou duas, mais o tal Rodrigo? Podia ser também o seu ex-amigo de Nova Prata, que escreve coaching, quando precisa declarar a profissão?

Enquanto você pensa nas suas escolhas, fique sabendo que alguém já pensou antes sobre isso e fez até um filme a respeito.

A história, aparentemente absurda, é o tema central de um desses filmes classe B, produzidos em série pelo cinema norte-americano para exibição nos canais de televisão.  A história do filme Todos os Crimes são Permitidos – Tente Sobreviver ( The Purge) – se passa no ano 2022, quando depois de muitos anos de aumento da criminalidade, com as prisões superlotadas, o governo dos Estados Unidos decide criar um dia onde tudo é permitido, esperando que as pessoas guardem para as 12 horas de desse dia todos os ajustes de contas, todas as vinganças recalcadas durante o ano e que vivam em paz os outros 364 dias.

É o dia da Purga, anunciado solenemente pela televisão, que explica que ele é uma decisão dos Novos Pais Fundadores da Pátria para permitir que todos os ódios acumulados durante o ano possam ser extravasados sem culpa e sem punições.

O filme, dirigido por James De Monaco, apesar do orçamento modesto e a presença de poucos atores conhecidos, é bem feito e tem uma enorme carga de tensão. Um vendedor de projetos de segurança para residências (Ethan Hawke), enriquecido pelo sucesso do seu trabalho, mora com a mulher e dois filhos adolescentes, na casa mais rica e fortificada de um condomínio fechado. A ação se passa durante as 12 horas da Purga, quando nas ruas ficam apenas as milícias de caçadores e suas presas.

Uma delas é um negro que foge de um grupo de justiceiros e acaba entrando na casa do vendedor de projetos segurança, porque o filho do dono, que observava a cena pela televisão, abre uma porta para ele.

Os justiceiros cercam a casa e exigem que o seu dono entregue o fugitivo sob pena de invadirem o local e matarem toda a família. Inicialmente, ele concorda com isso, consegue ferir e depois prender o fugitivo, mas no último momento decide resistir aos invasores.

O filme, na sua modéstia visual, consegue colocar em discussão algumas coisas muito interessantes. A primeira delas é a violência da sociedade americana, com a sua tradição de permitir que as pessoas andem armadas e que, de tempos em tempos, é sacudida por chacinas que não poupam nem crianças. Ela precisa ser então institucionalizada para que possa ser mantida sob controle pelo governo.

A outra é aquela noção, dramatizada por Bertrand Brecht: quando o perseguido é um negro, um judeu ou homossexual, como você não é nenhuma deles, pensa que está a salvo e por isso se omite de qualquer forma de protesto. Só que depois de liquidar o negro, o judeu ou o homossexual, os perseguidores vão se voltar contra você, que não quis tomar partido.

Mesmo vivendo na casa mais fortificada do condomínio, quando os vingadores se aproximam das portas e janelas da casa, o vendedor é obrigado a confessar a mulher que a segurança que ele vendia com sucesso para as outras pessoas no condomínio é relativa e que a rigor, não existem lugares totalmente seguros no mundo.

A violência histórica da sociedade americana é resolvida, simbolicamente, com a escolha de um dia onde tudo é permitido e no qual as grandes vítimas são, principalmente, os pobres e os não-brancos.  Quando se esgotam as horas da Purga, a televisão faz um balanço informando sobre os milhares de mortos nas grandes cidades e prometendo um ano de paz e segurança até a próxima Purga.

A outra questão, sobre a alienação que permite a alguns conviver com a injustiça, sem se envolver diretamente nos crimes, mas sem condená-los também. O recado do filme é que isso é impossível e que, em algum momento, será preciso tomar posição.

Quando são exibidos os créditos finais do filme, vozes em off, anunciam o primeiro telejornal da manhã,com as notícias da Purga. O governo diz que foi a Purga de maior sucesso nos últimos anos e que a bolsa começou o dia em alta, com as ações dos fabricantes de armas em destaque. Depois, vozes de pessoas surgem dando depoimentos, falado do sucesso da Purga em suas cidades, e de como ela foi importante para assegurar a paz nas cidades, até que uma última voz de homem diz:

“Mataram meus dois filhos. Eu era um americano orgulhoso do meu país. Não sou mais”

Não é bem assim

 

Quem viu o filme, O Discurso do Rei (The King Speech), está autorizado a pensar que o Príncipe Albert, o Duque de York, se tornou o Rei Jorge VI (Colin Firth) porque seu irmão mais velho, o Príncipe de Gales, o Rei Eduardo VIII (Guy Pearce) se apaixonara por uma divorciada americana, Wallis Simpson (Eve Best) e renunciou ao trono por este amor e que o único problema do novo rei era sua gagueira, providencialmente curado pelo fonoaudiólogo Lionel Logue (Geoffrey Rush).

Há muito tempo já se sabia que a história não se desenrolou seguindo esse roteiro.

Basicamente, o que ocorreu foi uma queda de braço entre Eduardo VIII e seus ministros a respeito de como tratar a Alemanha Nazista de Hitler. O rei era a favor de uma convivência pacífica e até mesmo muito amigável com Hitler e o governo inglês, primeiro com Stanley Baldwin e mais tarde com Winston Churchill, entendia que não havia lugar na Europa para duas potências como o Reino Unido e a Alemanha.

Eduardo VIII, que assumira o trono com a morte do pai, o Rei Jorge V, em 20 de janeiro de 1936, renunciou ao trono em 11 de dezembro do mesmo ano para casar com Wallis Simpson.

No ano seguinte, já apenas como Duque de Windsor, ele e Wallis Simpson estiveram em Berlim, onde foram recebidos por Hitler. Anos mais tarde, ele diria que se tivesse continuado como rei, teria evitado a guerra com a Alemanha.

Sabe-se que durante todo o período da guerra, o casal esteve continuamente sob a vigilância de americanos em ingleses durante o tempo em que viveram na França, na Espanha e Portugal.

Já como Primeiro Ministro, o grande temor de Churchill era que os alemães pudessem seqüestrar Eduardo VIII e tentar fazê-lo novamente rei dos britânicos, o que parece ter sido também um desejo de Hitler.

Em 1957, foram divulgados telegramas entre o Ministro do Exterior da Alemanha nazista, Joachim von Ribbentrop e seus embaixadores na Espanha e Portugal, durante a guerra  pedindo que Eduardo VIII fosse informado dessa decisão.

Essa semana, documentos liberados pelos Arquivos Nacionais Britânicos, revelam que Winston Churchill agiu junto aos governos da França e Estados Unidos, logo após o final da guerra (1945) no sentido de que esses telegramas não fossem revelados nos 20 anos seguintes, preocupado que estava que as revelações das relações do antigo rei com os nazistas pudessem abalar o prestígio da família real britânica.

Num deles, transcrito agora pelo jornal The Independent, Ribbentrop informa aos seus embaixadores que “o Duque precisa ser informado que a Alemanha deseja a paz com o povo britânico e de que a facção que apóia Churchill é um obstáculo a essa paz” e garante que “a Alemanha está determinada a forçar à Inglaterra a aceitar a paz através do uso de todos os métodos e que se isso acontecer estará pronto para atender todos os desejos do Duque, especialmente o seu regresso ao trono, com a Duquesa ao seu lado”

 

Uma comédia que quase se tornou realidade

Em 1964, Stanley Kubrick fez um dos mais importantes filmes do cinema americano, Dr. Strangelove, (How I Learned to Stop Worryng and Love the Bomb/ Como Aprendi a Deixar de me Preocupar e Amar a Bomba), uma irresistível comédia e ao mesmo tempo um poderoso libelo contra a guerra, com Peter Sellers, vivendo três papeis, o Presidente Muffley, o capitão Mandrake e o próprio Dr.Strangelove, (uma lembrança de Werner Von Braun, o criador das bombas V2 dos nazistas), um misterioso cientista alemão, cuja mão biônica insiste em fazer a saudação nazista mesmo contra sua vontade.

A história é contada num tom farsesco, que começa quando o general Jack D. Ripper (alusão a Jack o Estripador), personagem vivido por Sterling Hayden, desconfia que os comunistas estariam envenenando a água que os americanos bebem e ordena um ataque atômica à União Soviética.

Enquanto o capitão Mandrake tenta dissuadir o general do seu intento, o presidente Muffley reúne seus assessores, entre os quais o Dr. Strangelove e o general  BuckTurgidson (George C Scott) machista e anticomunista radical, que é a favor do bombardeio, para decidir o que fazer. Como o general Ripper se recusa a revelar o código que comanda o lançamento da bomba, o presidente liga para seu colega russo, pedindo que o avião americano seja derrubado antes de chegar ao alvo. Acontece que o piloto do avião é um maluco texano disposto a cumprir sua missão até o fim, nem que seja cavalgando a bomba como se ela fosse um cavalo xucro. Nessa altura, o embaixador soviético Sadesky (uma alusão ao Marques de Sade) comunica que seu país construiu a Máquina do Juízo Final, que será acionada e destruirá todo o mundo no momento em que a primeira bomba cair em solo soviético.

O que o mundo todo viu e muito riu dessa farsa ao militarismo americano, talvez não estivesse assim tão longe da realidade.

Em 2015, de acordo com as leis americanas, milhares de documentos, antes tidos como secretos e conservados nos arquivos do Departamento de Segurança Nacional, foram disponibilizados para pesquisas dos interessados, entre eles a chamada “Operação Dropshot”, que  previa o lançamento de 300 bombas nucleares e outras 29 mil bombas convencionais sobre 200 alvos e cerca de 100 cidades e vilas na URSS. O objetivo era acabar com 85% do potencial industrial soviético com um só golpe

Em artigo publicado na versão eletrônica do Pravda, Igor Razin, da Gazeta Russa, fornece maiores dados sobre essa macabra operação.

“Em 1949 surgiu o plano Dropshot. A ideia era que os EUA atacassem a União Soviética e lançassem mais de 300 bombas nucleares e 20 mil toneladas de dispositivos convencionais contra 200 alvos situados em 100 áreas urbanas, incluindo Moscou e Leningrado (atual São Petersburgo).

Para tanto, foi produzida uma lista de alvos para ataques nucleares nos territórios da União Soviética e seus aliados. A relação continha nada menos que1.200 cidades desde a Alemanha Oriental, no Ocidente, até a China, no Oriente. Moscou encabeçava a lista, com 179 “alvos designados” (incluindo a própria Praça Vermelha), contra 145 em Leningrado. A potência das armas nucleares empregadas oscilaria entre 1,7 e 9 megatons (a da bomba atômica Little Boy, lançada em Hiroshima em agosto de 1945, era de 0,013 a 0,018 megatons). Caso a URSS não se rendesse após os ataques, Washington continuaria bombardeando regularmente áreas urbanas e industriais até sua destruição total.

Além disso, os idealizadores planejavam iniciar uma campanha terrestre contra os soviéticos para obter uma “vitória completa” junto  com seus aliados europeus.

E os planos dos EUA iam muito além da Rússia e países próximos. Pequim figurava em 13º lugar em número de bombardeiros, com 23 áreas destinadas à destruição.

De acordo com documentos desclassificados em 2015, as ogivas seriam lançadas a partir de aviões baseados no Reino Unido, no Marrocos e na Espanha. Também empregariam bombardeiros intercontinentais B-52, que, no momento do planejamento, estavam começando a ser distribuídos para a força aérea americana.

Em 29 de agosto de 1949, a União Soviética tornou pública que dominava também a tecnologia para a produção de armas atômicas, o que possivelmente influiu na decisão norte-americana de suspender seus planos de ataques, temerosos de que pudessem sofrer uma retaliação.

Felizmente, a guerra atômica aconteceu apenas com o filme do Kubrick.

A guerra dos “snipers”

Na história da humanidade, as guerras quase sempre serviram para nações mais poderosas se apossarem das riquezas das mais fracas. As exceções seriam as guerras de libertação nacional dos povos da África, Ásia e América Latina e possivelmente a da União Soviética contra a invasão nazista.

Elas, as guerras, se tornaram realidade quando os argumentos políticos que justificariam a submissão de um grupo econômico por outro, não são mais eficientes.

O general prussiano Carl Phillip Gottlieb Von Clausewitz (1780/1831) sintetizou essa mudança na sua famosa assertiva, publicada no livro “Da Guerra” (Von Kriegs), de que “a guerra é a continuação da política por outros meios”

Sendo, portanto, quase sempre um choque de interesses econômicos em conflito, a guerra acaba sendo vencida pelo lado mais forte.

Isso implica na utilização de grandes recursos tecnológicos e na mobilização de milhões de homens, sobrando pouco espaço para algum tipo de ação individual.

Por isso mesmo, quando um personagem, por alguma razão, consegue se destacar nesse meio, ele se transforma num verdadeiro herói.

É o caso dos franco atiradores, que os americanos tornaram conhecidos como os “snipers” e que pela sua ação, ajudaram a abalar a moral do inimigo, na medida em que agiam sempre de uma forma oculta.

Duas dessas figuras ficaram famosas e como não poderia deixar de ser, acabaram por ver suas façanhas transformadas em filmes de sucesso.

O primeiro e mais famoso desses ‘snipers’ foi uma mulher: Lyudmila Pavlichenko. Estudante de História da Universidade de Kiev, em1942, ela se alistou no Exército Vermelho e recusando a destinação para qual normalmente encaminhavam as mulheres – a enfermagem – atuou na infantaria.

Com seu rifle semi-automático Tokareve SVT-40, Lyudimila foi responsável pela morte de 500 inimigos, sendo 309 reconhecidos oficialmente, inclusive 36 “snipers” alemães.

Promovida a major, ela ganhou a Estrela de Ouro de Heróis da União Soviética.

Dizem que além da pontaria, Lyiudimila se destacava pela paciência em esperar o momento certo para atirar. Uma ocasião teria ficado imóvel durante incríveis 18 horas até chegar o momento certo para usar seu rifle.

Antes do final da guerra, visitou os Estados Unidos e foi a única militar da União Soviética recebida na Casa Branca pelo presidente Roosevelt e sua mulher Eleanor.

Curiosamente, ela foi homenageada pelo cantor de música country, Woody Guthrie, com a canção Miss Pavlichenko.

A história de Lyiudimila Pavlicenhenko, que morreu em 1974, aos 58 anos, está contada no filme russo-ucraniano de 2015, A Batalha de Sebastopol, de Sergei Mokritskiy, com Yuliya Peresild.

O “sniper” americano foi Chris Kyle, considerado o atirador mais letal da história militar dos Estados Unidos, com 255 mortes, dos quais 160 confirmadas pelo Pentágono. Chris Kyle, ao contrário de Lyiudimila, que agiu numa guerra defensiva contra um invasor estrangeiro,   participou da invasão norte-americana do Iraque.

Sua história foi contada num grande filme de Clint Eastwood de 2014, O Sniper Americano baseado nas suas memórias, relatadas no livro The Autobiography of the Most Lethal Sniper in U.S Military History.

Bradley Cooper viveu o papel de Kyle no filme, que foi o maior sucesso de bilheteria no ano de sua produção.

Embora o filme possa ser criticado pelo seu tom patriótico e até racista em certos momentos, não dá para não perceber como o diretor trata o seu personagem, transformado num homem solitário, incapaz de retornar à uma vida normal quando retornou do Iraque, bem diferente do que se espera de um herói americano

Precisamos ler os ensaios do Dr. Franklin

 

Conheci Franklin Cunha há uns três anos, quando ele me convidou para participar do site Imagem Política. O site tinha sido criado por um grupo de médicos de esquerda para defender o programa “Mais Médicos”, que as entidades da classe médica criticavam, e continuou para promover a reeleição de Dilma à Presidência e depois para defendê-la dos ataques da direita.

Há um ano, talvez porque as políticas de Dilma estavam ficando indefensáveis ou porque seus idealizadores começaram a ter outras preocupações, o site terminou, mas a amizade ficou.

Até hoje, continuamos a nos encontrar periodicamente. Fico feliz em poder dizer que sou amigo do Mareu Soares, Luíz Octavio Vieira, Airton Fischmann, Lenine Cunha e Luís Carlos Lantieri, mas é com Franklin que meus encontros são mais freqüentes.

Admirador de bons vinhos tintos e leitor obcecado por temas políticos, o Dr. Franklin sempre lamenta que não tenhamos bons ensaístas no Brasil, ao contrário da Argentina, onde eles são muitos.

Pois, ele agora dá a sua contribuição para sanar essa deficiência, ao colocar à disposição dos leitores seu livro “A Lei Primordial e outros ensaios”.

Ex-piloto da Varig, profissão de grande prestígio no passado, a qual abandonou para cursar a Faculdade de Medicina, ginecologista durante muitas décadas e membro da Academia Rio-Grandense de Letras, Franklin usou todas essas experiências para falar sobre tudo, da medicina, da política e da vida, num estilo  enxuto e direto.

“E pensar que escrever é a segunda profissão desse homem”, diz na contra-capa do livro, Luís Fernando Veríssimo.

Vou copiar para os meus poucos leitores, duas passagens de seus ensaios.

O primeiro é parte do ensaio “Limbus Puerorum”:

“Na teologia católica o limbo é o lugar para onde vão as almas das crianças mortas, excluídas do para paraíso pelo pecado original não redimido pelo batismo. A culpa familiar e social gerada pela alta mortalidade infantil na Idade Média obrigou o Concilio de Trento (1545) a agendar em suas discussões o problema do que fazer com a grande quantidade de crianças mortas sem batismo para as quais o Inferno parecia ser uma pena assaz cruel. Os teólogos católicos que antes previram apenas o Céu para os bons e o Inferno para os réprobos, ncontraram uma solução conciliatória ao criar um novo lócus para os frutos inocentes do “pecado da carne”. Lá, eles não gozariam da visão divina, mas também não sofreriam os tormentos infernais. O “Limbus Puerorum”, segundo Tomás de Aquino,  deveria ser destinado às crianças, onde aguardariam o Juízo Final.  Salvar um bebê para a eternidade, evitar os castigos infernais, era uma maneira de a família aliviar o luto e a culpa de uma morte precoce”

No segundo ensaio, Ciência e Barbárie, Franklin nos fala sobre os doutores Edward Wirths e Hans Hinselmann. O primeiro foi médico no campo de extermínio de Auschwitz , onde como ginecologista realizou uma série de experiências em mulheres prisioneiras sobre lesões pré-cancerosas do colo uterino, desenvolvendo com o apoio da excelente indústria ótica alemã, o colposcópio, enquanto o segundo, dirigia um laboratório em Hamburgo que examinava o colo uterino retirado das pacientes.

Em 1945, Wirths se suicidou logo depois de se entregar às autoridades britânicas de ocupação, enquanto Hinselmann nunca foi julgado.

No final desse ensaio, escreve Franklin: “Ambos eram excelentes médicos, competentes ginecologistas que muito contribuíram para a detecção precoce e para a cura do carcinoma do colo uterino. Provavelmente, ouviam Wagner, Bach, Beethoven e cantavam emocionados Die Schone Mullerin e outros lieder de Schumann, assim como deviam ler, embevecidos, Heine, Schiller, Goethe e Nietzsche. E segundo consta, eram perfeitos pais de família e freqüentavam regularmente os cultos religiosos dominicais. Enfim, pertenciam ao cerne da cultura européia, como disse Steiner, mas, em nome dela e da ciência médica, praticaram crimes que jamais deverão ser esquecidos. Mesmo quando de sua ciência só restará o olvido.”

Nossa maldade não tem limites

Como todos os animais, nós somos profundamente egoístas porque esse é nosso instinto natural, é o que apreendemos como forma de sobrevivência.

O que nos coloca no ponto mais alto do mundo animal é que, ao adquirir consciência dos nossos atos, somos capazes de estabelecer critérios morais para julgar nossos atos, permitindo controlar essas pulsões

A vida civilizada nada mais é do que a repressão aos instintos que, se liberados, destruiriam todas as conquistas da humanidade, reunidas na famosa declaração dos direitos universais do homem.

Mas basta surgir, porém,uma grande crise social e econômica e toda essa fachada civilizatória pode vir abaixo e os homens mostram como sua maldade pode ser exercida sem qualquer limite ético.

Na história recente da humanidade nada foi tão revelador dessa possibilidade como o advento do nazismo na Alemanha.

O discurso de ódio extremo ao ser humano foi feito na língua alemã, a mesma em que se expressavam artistas, pensadores e cientistas como Marx, Freud, Rilke,Habermas,Hanna Arendt,Jung, Nietzsche, Lutero, Rosa Luxemburgo, Goethe, Einstein, Humbold, Mozart, Bach, Beethoven, Max Planck, Brecht, Schiller, Adorno, Marcuse, Walter Benjamin, Wagner e tantos outros.

De 1933 a 1945, a Alemanha viveu um período único na história recente da humanidade, onde o ódio a determinados grupos étnicos e políticos se tornou uma política de estado e pior uma política aceita pela maioria das pessoas.

Hoje, passados mais de 70 anos do fim desses trágicos eventos, ainda se ouve e se lê nos livros que o povo alemão não sabia do que estava ocorrendo, que tudo era obra de um bando de celerados, comandados por Adolfo Hitler e seus asseclas.

Em 2014, um filme alemão “Labirinto de Mentiras” (Im Labyrinth des Schweigens) de Giulio Ricciareli, mostrava como na década de 60, guardas do campo de extermínio de Auschwitz podiam continuar trabalhando em escolas primárias, prática estimulada pela política de esquecimento que os americanos impuseram na então Alemanha Ocidental, como forma de enfrentar os discursos acusatórios que vinham da Alemanha Oriental.

Depois que a escritora alemã Christa Wolf declarou que “para saber sobre a Gestapo, os campos de concentração e as campanhas de discriminação e perseguição bastava ler os jornais”, o professor de História da Universidade Estadual da Florida, Estados Unidos,Robert Gellately, se dedicou a coletar provas de que a população alemã,na sua maioria, não só sabia, mas aprovava muitas das práticas de Hitler.

O resultado das suas pesquisas é o livro “Apoiando Hitler. Consentimento e Coerção na Alemanha Nazista (editado no Brasil pela Record).

Disse o professor Gellately, em recente entrevista sobre o seu livro: “Conhecendo o mito “nós não sabemos de nada”, fiquei chocado com a quantidade de material que era publicado na imprensa local, regional e nacional. Muito do que aconteceu estava ali – as pessoas apenas ignoravam por rejeitar a informação. Isso porque o regime nazista não ameaçava todos os alemães, apenas grupos minoritários selecionados, incluindo, claro, os judeus. A grande maioria da sociedade tinha pouco a temer. Já durante a II Guerra, entre 1939 e 1945, as informações eram mais encobertas. Não obstante, um grande número de pessoas estava envolvido diretamente com as ações do governo, e as notícias chegavam a qualquer um que quisesse de fato saber o que acontecia por baixo dos panos. Nesse período, os campos de concentração cresceram, ocupando fábricas distantes dos centros urbanos e também no interior de algumas cidades, tornando-se parte da vida cotidiana das pessoas e, portanto impossível de serem ignorados.”

Frantz


A herança mais maligna do capitalismo talvez seja a Primeira Grande Guerra. Ali, não houve nenhuma desculpa para justificar toda aquela matança. Eram, pura e simplesmente, interesses econômicos das grande potências em conflito.

No seu grande livro, Les Thibault, Roger Martin de Gard descreve todo o clima que antecedeu a guerra, com a traição dos partidos socialistas, que da denúncia das motivações para a guerra, se transformaram, tanto na França como na Alemanha, em defensores de um nacionalismo xenófobo.

Agora, o diretor francês, François Ozon, no filme Frantz, nos relata a persistência desse sentimento num pós guerra em que franceses e alemães continuam se vendo como inimigos, ao mostrar a complexa relação entre um ex-soldado francês e alemã (uma interpretação magnífica de Paula Beer) que perdeu o noivo na guerra.

Quem ainda lembra Casablanca (com Humphrey Bogart e Ingrid Bergmann, de 1942) não esquece a famosa cena em que os militares nazistas estão num bar cantando “Die Wacht am Rhein”, e os franceses, em resposta cantam “La Marseillaise”.

François Ozon retoma essas duas canções patrióticas, primeiro, para mostrar o ressentimento dos derrotados e inconformados alemães e depois para registrar o ardor patriótico dos vitoriosos franceses.

O interessante é que o hino francês, que todos nós acostumamos a ouvir como uma resposta dos oprimidos aos opressores (na Revolução Francesa e na guerra contra o nazismo) aqui é ouvido como o louvor para os novos opressores

O rato que ruge.

 

Confesso que tenho uma certa simpatia pelo Kim Jong Un. Poucos têm a coragem dele para desafiar os Estados Unidos.

Por isso mesmo me atrevo a sugerir, ao líder da Coreia do Norte que veja o filme inglês de 1959, o Rato que Ruge ( The Mouse that Roared), com o Peter Sellers fazendo três papeis (a Duqueza Gloriana XII, o primeiro ministro Ruppert “Bobo” Mountjoy e o Marechal Tully Bascomb).

Caso Kim se disponha a conhecer a história vai ter boas ideias de como se pode enfrentar o imperialismo americanos.

A economia de Fenwick, um hipotético país mais situado entre a França e a Suíça, está na bancarrota, pois o vinho, seu único produto de exportação, sofre a concorrência de um produto similar mais barato criado nos Estados Unidos da América, seus antigos importadores. Então a governante do país, a Duquesa Gloriana XII, é convencida pelo primeiro-ministro “Bobo” Mountjoy a declarar guerra aos americanos, com o único propósito de perder e depois conseguir financiamento para a “reconstrução”, numa referência satírica ao Plano Marshall.

Mountjoy incumbe o atrapalhado Marechal Tully Bascomb de liderar a força de ataque, que invade Nova Iorque munida de arcos e flechas.

A invasão é completamente ignorada pelas autoridades americanas, pois a declaração de guerra de Fenwick (que anteriormente havia sido até motivo de riso para o ministro americano das relações exteriores) se extraviara no meio da papelada diplomática.

Em Nova Iorque, todos estão ocultos sob abrigos subterrâneos por causa do teste de uma nova bomba superpoderosa. Sem ninguém para combater, os 22 arqueiros vagueiam pelas ruas e por mero acaso encontram o cientista responsável pelo desenvolvimento da bomba e sua filha, sequestrando-os e levando-os com o poderoso artefato para Fenwick, juntamente com alguns oficiais do exército americano.

Ao retornar ao país Bascomb conta à incrédula Duquesa sobre a mudança de planos e que Fenwick havia “vencido a guerra”. De fato, ao saber que a poderosíssima Bomba “Q”, capaz de destruir todo um continente, estava em poder do diminuto e quase desconhecido país, as autoridades americanas vêem que não lhes resta alternativa a não ser render-se a Fenwick.

O país, por fim, acaba impondo aos Estados Unidos algumas sanções, como o pagamento de um milhão de dólares e a retomada do mercado americano para seu vinho, além do completo armistício mundial.